FILMOTECA - Revista de Cinema: Pág. 19


MITOS DO CINEMA

Stanley Kubrick levou Shelley Duvall ao limite para conseguir sua atuação em O Iluminado?



É uma das histórias de bastidores mais famosas do cinema: Stanley Kubrick teria submetido Shelley Duvall a uma pressão psicológica extrema durante as filmagens de O Iluminado para conseguir o medo, o desespero e a fragilidade que desejava para Wendy Torrance. Mas até onde essa história é verdadeira?

O primeiro ponto é inequívoco. Shelley Duvall sofreu intensamente durante a produção. Ainda próxima das filmagens, descreveu o trabalho como quase insuportável, falou sobre jornadas excruciantes e sobre a necessidade de permanecer durante longos períodos em estados emocionais extremos. Décadas depois, continuaria descrevendo uma relação complexa com Kubrick: havia momentos de descontração, mas também confrontos e uma pressão incessante para que entregasse aquilo que o diretor procurava.

Parte da lenda, entretanto, foi exagerada ao longo dos anos. A famosa história de que Duvall teria realizado 127 tomadas da sequência da escadaria com o taco de beisebol não é sustentada pelos registros de produção estudados por Lee Unkrich. Kubrick fazia muitas repetições e submetia outros atores ao mesmo tipo de exigência. Shelley não foi a única. Mas isso não resolve o caso.

Wendy exigia algo particular. Durante boa parte do filme, Duvall precisava reproduzir medo, choro, ansiedade e desespero. Quando um método baseado em repetição e pressão é aplicado durante meses a uma atriz obrigada a retornar continuamente a esses estados, surge uma questão diferente: o sofrimento pessoal começou a participar da própria construção da personagem?

O documentário Making The Shining, filmado por Vivian Kubrick, registra um momento particularmente revelador. Diante das dificuldades de Duvall, Kubrick diz à equipe: “Don’t sympathize with Shelley”. A frase não comprova a versão extrema segundo a qual o diretor teria organizado uma campanha para isolar psicologicamente a atriz. Demonstra, porém, algo fundamental: Kubrick sabia que Duvall estava sofrendo. E continuou pressionando-a.

É nesse ponto que a investigação precisa distinguir duas possibilidades. Talvez Kubrick acreditasse que a pressão produzia a atuação desejada e considerasse o sofrimento apenas um efeito colateral. Talvez percebesse que o próprio estado emocional de Duvall estava alimentando Wendy. Não sabemos qual das duas explicações corresponde exatamente ao que ele pensava.

Mas isso não impede uma conclusão sobre o núcleo do mito.

VEREDITO: CONFIRMADO

Há evidências suficientes para concluir que Kubrick manteve conscientemente Shelley Duvall sob intensa pressão mesmo sabendo do sofrimento que o processo estava produzindo, porque continuava buscando dela a atuação que desejava para Wendy Torrance.

Confirmado não significa que Kubrick tenha planejado antecipadamente fazê-la sofrer. Também não significa que desejasse seu sofrimento por crueldade. Significa que, quando o sofrimento se tornou conhecido, ele decidiu manter a pressão em busca do resultado artístico.

E a investigação termina onde as evidências já não conseguem chegar.

Kubrick acreditava que o sofrimento real de Duvall tornava Wendy mais convincente?

Ela teria conseguido entregar a mesma atuação sem passar por aquele desgaste?

Outro método poderia ter produzido a mesma Wendy com um custo pessoal menor?

Não sabemos.

O sucesso do resultado também não responde a essas perguntas. Uma grande atuação demonstra que o método produziu o que Kubrick procurava. Não demonstra que aquele fosse o único método capaz de produzi-lo.

Talvez seja esse o ponto mais perturbador por trás do mito. A dúvida já não é se Shelley Duvall sofreu ou se Kubrick sabia.

Sabemos que sofreu. Sabemos que ele sabia. E sabemos que decidiu continuar.


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