É uma das histórias de bastidores mais famosas do cinema: Stanley Kubrick teria submetido Shelley Duvall a uma pressão psicológica extrema durante as filmagens de O Iluminado para conseguir o medo, o desespero e a fragilidade que desejava para Wendy Torrance. Mas até onde essa história é verdadeira?
O primeiro ponto é inequívoco. Shelley Duvall sofreu intensamente durante a produção. Ainda próxima das filmagens, descreveu o trabalho como quase insuportável, falou sobre jornadas excruciantes e sobre a necessidade de permanecer durante longos períodos em estados emocionais extremos. Décadas depois, continuaria descrevendo uma relação complexa com Kubrick: havia momentos de descontração, mas também confrontos e uma pressão incessante para que entregasse aquilo que o diretor procurava.Parte da lenda, entretanto, foi exagerada ao longo dos anos. A famosa história de que Duvall teria realizado 127 tomadas da sequência da escadaria com o taco de beisebol não é sustentada pelos registros de produção estudados por Lee Unkrich. Kubrick fazia muitas repetições e submetia outros atores ao mesmo tipo de exigência. Shelley não foi a única. Mas isso não resolve o caso.
Wendy exigia algo particular. Durante boa parte do filme,
Duvall precisava reproduzir medo, choro, ansiedade e desespero. Quando um
método baseado em repetição e pressão é aplicado durante meses a uma atriz
obrigada a retornar continuamente a esses estados, surge uma questão diferente:
o sofrimento pessoal começou a participar da própria construção da
personagem?
O documentário Making The Shining, filmado por Vivian Kubrick, registra um momento particularmente revelador. Diante das dificuldades de Duvall, Kubrick diz à equipe: “Don’t sympathize with Shelley”. A frase não comprova a versão extrema segundo a qual o diretor teria organizado uma campanha para isolar psicologicamente a atriz. Demonstra, porém, algo fundamental: Kubrick sabia que Duvall estava sofrendo. E continuou pressionando-a.
É nesse ponto que a investigação precisa distinguir duas possibilidades. Talvez Kubrick acreditasse que a pressão produzia a atuação desejada e considerasse o sofrimento apenas um efeito colateral. Talvez percebesse que o próprio estado emocional de Duvall estava alimentando Wendy. Não sabemos qual das duas explicações corresponde exatamente ao que ele pensava.
Mas isso não impede uma conclusão sobre o núcleo do mito.VEREDITO: CONFIRMADO
Há evidências suficientes para concluir que Kubrick
manteve conscientemente Shelley Duvall sob intensa pressão mesmo sabendo do
sofrimento que o processo estava produzindo, porque continuava buscando dela a
atuação que desejava para Wendy Torrance.
Confirmado não significa que Kubrick tenha planejado
antecipadamente fazê-la sofrer. Também não significa que desejasse seu
sofrimento por crueldade. Significa que, quando o sofrimento se tornou
conhecido, ele decidiu manter a pressão em busca do resultado artístico.
E a investigação termina onde as evidências já não conseguem
chegar.
Kubrick acreditava que o sofrimento real de Duvall
tornava Wendy mais convincente?
Ela teria conseguido entregar a mesma atuação sem passar
por aquele desgaste?
Outro método poderia ter produzido a mesma Wendy com um
custo pessoal menor?
Não sabemos.
O sucesso do resultado também não responde a essas
perguntas. Uma grande atuação demonstra que o método produziu o que Kubrick
procurava. Não demonstra que aquele fosse o único método capaz de
produzi-lo.
Talvez seja esse o ponto mais perturbador por trás do mito.
A dúvida já não é se Shelley Duvall sofreu ou se Kubrick sabia.
Sabemos que sofreu. Sabemos que ele sabia. E sabemos que
decidiu continuar.