MITOS DO CINEMA

Stanley Kubrick levou Shelley Duvall ao limite para conseguir sua atuação em O Iluminado?



Poucas histórias de bastidores parecem combinar tão perfeitamente com o filme que pretendem explicar. Durante décadas, consolidou-se uma narrativa sobre a realização de O Iluminado: Stanley Kubrick teria submetido Shelley Duvall a uma pressão psicológica extrema para conseguir dela o medo, o desespero e a fragilidade que desejava para Wendy Torrance.

As peças parecem se encaixar. A produção foi excepcionalmente longa. Kubrick era conhecido pela repetição obsessiva. Duvall falou muitas vezes sobre o sofrimento que experimentou. Existem imagens de conflitos entre os dois. Há a célebre ordem do diretor, registrada pela câmera de sua filha Vivian: “Don’t sympathize with Shelley”. E, quando finalmente vemos Wendy acuada no Overlook, encontramos uma atriz que transmite um estado de terror e esgotamento extraordinariamente convincente.

A conclusão tornou-se quase automática: Shelley parece aterrorizada porque Kubrick a levou pessoalmente àquele estado.

Mas uma história repetida durante décadas não se torna verdadeira apenas porque parece explicar perfeitamente aquilo que vemos na tela. É preciso determinar exatamente o que estamos investigando.

O MITO

O mito examinado aqui é este:

Stanley Kubrick pressionou deliberadamente Shelley Duvall até um estado de extremo desgaste emocional porque considerava esse processo parte do caminho para conseguir a atuação que desejava para Wendy Torrance.

Essa formulação exige algumas distinções. Não estamos investigando se Kubrick decidiu, antes das filmagens, fazer Shelley Duvall sofrer. O mito não depende de sabermos quando surgiu a intenção.

Também não estamos perguntando se Kubrick sentia prazer em seu sofrimento ou se desejava fazê-la sofrer por crueldade.

A pergunta é outra: quando Kubrick percebeu que a pressão que exercia estava provocando sofrimento real em Duvall, continuou conscientemente exercendo essa pressão porque ainda buscava dela determinado resultado artístico?

É nesse sentido que investigaremos a existência de intenção.

O sofrimento de Shelley Duvall não é uma lenda

Há uma parte dessa história que praticamente não oferece controvérsia: Shelley Duvall sofreu intensamente durante a realização de O Iluminado.

Ela própria descreveu a experiência ainda próxima da produção. Em entrevista a Roger Ebert, falou em trabalho “almost unbearable”, em jornadas excruciantes e em longos períodos nos quais precisava produzir choro e estados emocionais extremos diante das câmeras. Sua descrição, entretanto, nunca foi completamente unilateral. Na mesma conversa, reconhecia que a experiência também podia ser vista positivamente sob outros aspectos. 

Décadas depois, a ambivalência permaneceu. Duvall recordaria momentos de descontração com Kubrick e outros de confronto aberto. Descreveu-o como perfeccionista, afirmou que ele continuava pressionando até conseguir o que queria e resumiu aquela relação numa frase particularmente reveladora: “It was a hell of a shoot but he got what he wanted out of me.” 

Em outro depoimento, disse que Kubrick podia fazer coisas cruéis, mas que não trocaria a experiência por outra, embora não quisesse passar novamente por ela. 

Nada disso descreve uma atriz que posteriormente tenha negado o sofrimento. Também não descreve uma mulher que tenha reduzido Kubrick a uma caricatura de algoz. Seu testemunho é mais complexo.

Mas sobre uma coisa ele é suficientemente claro: a experiência foi extraordinariamente dura. 


Kubrick fazia isso apenas com ela?

Não. Esse é um dos pontos em que a lenda foi simplificada com o passar dos anos. Kubrick submetia outros atores a extensos processos de ensaio, repetição e correção. Jack Nicholson trabalhou dessa maneira. Scatman Crothers também enfrentou sequências extraordinariamente repetitivas. A exigência não nasceu com Shelley Duvall.

A pesquisa de Lee Unkrich nos documentos de produção permitiu inclusive desmontar uma das histórias mais famosas de O Iluminado: a afirmação de que Duvall teria realizado 127 tomadas da sequência da escadaria com o taco de beisebol.

Os registros não sustentam esse número para uma única configuração daquela sequência. O próprio Kubrick explicou que a cena exigiu muitos ensaios para que Duvall alcançasse e sustentasse o estado emocional necessário, mas distinguiu esses ensaios das tomadas efetivamente filmadas. 

A história das 127 tomadas tornou-se tão poderosa porque parecia fornecer uma medida objetiva da crueldade: um número extraordinário capaz de resumir toda uma relação.

O número, porém, não se sustenta dessa maneira. O sofrimento, sim. E desmontar uma estatística incorreta não resolve aquilo que realmente aconteceu no set.


Quando o método encontra Wendy Torrance

Há uma diferença fundamental entre repetir uma ação e repetir um estado emocional. Wendy passa grande parte de O Iluminado submetida ao medo. À medida que Jack se transforma numa ameaça, ela precisa chorar, recuar, implorar, defender-se, proteger Danny e permanecer durante longos períodos numa situação de desespero. Esse era o trabalho de Shelley Duvall.

Portanto, o método que Kubrick aplicava a vários intérpretes produzia nela um custo particular. Repetir sucessivamente uma performance baseada em pânico, choro e fragilidade durante uma produção prolongada significava voltar continuamente a estados emocionalmente extenuantes.

O próprio Kubrick reconheceu a dificuldade de fazer Duvall atingir e sustentar o nível de histeria que considerava necessário para determinadas cenas.

Aqui surge a primeira pergunta que a investigação não consegue responder: Shelley Duvall teria conseguido entregar exatamente a atuação que Kubrick desejava se seu sofrimento pessoal não tivesse participado daquele processo?

Não sabemos. E não existe experimento possível que nos permita descobrir. 

Shelley era tratada de maneira diferente

O fato de Kubrick pressionar outros atores também não significa que todos fossem tratados da mesma maneira.

Jack Nicholson percebeu diferenças na relação do diretor com Duvall. Anjelica Huston recordaria Shelley como visivelmente abalada e relataria a impressão de que os homens ao redor dela pareciam se unir contra a atriz, embora tenha explicitamente admitido que poderia estar interpretando a situação de maneira equivocada.

Danny Lloyd oferece um contraste ainda mais significativo. Criança durante a produção, foi cuidadosamente protegido de boa parte do conteúdo perturbador do filme. Kubrick podia, portanto, adaptar sua maneira de trabalhar às condições particulares de um intérprete.

“Don’t sympathize with Shelley”

Vivian Kubrick tinha 17 anos quando filmou os bastidores de O Iluminado. O documentário Making The Shining se tornaria uma das principais fontes para conhecermos Stanley Kubrick trabalhando naquele período. Materiais relativos ao documentário permanecem preservados no Stanley Kubrick Archive. 

É nesse registro que aparece uma das evidências mais importantes do caso. Duvall está em dificuldade e Kubrick diz: “Don’t sympathize with Shelley.”

Uma frase isolada não demonstra que Kubrick tenha ordenado durante toda a produção que a equipe isolasse psicologicamente Duvall. A versão popular ampliou muitas vezes esse episódio para algo que as imagens, sozinhas, não permitem concluir. Mas a frase demonstra algo que não deve ser minimizado.

Kubrick sabia que Shelley estava sofrendo.

E, naquele momento, sua reação não foi interromper o processo ou permitir que a solidariedade dos outros interferisse nele. Foi pedir que não demonstrassem simpatia.

A partir daqui, torna-se difícil sustentar que o sofrimento fosse simplesmente uma consequência desconhecida do método. Kubrick o viu. E continuou.

Pressão, sofrimento, resultado

Chegamos então ao núcleo do problema. Há uma primeira maneira de compreender o método de Kubrick:

PRESSÃO → RESULTADO

Ele insistia, repetia, corrigia e pressionava porque acreditava que assim conseguiria a interpretação desejada.

O sofrimento poderia surgir paralelamente:

PRESSÃO → RESULTADO
PRESSÃO → SOFRIMENTO

Nesse modelo, o sofrimento não produziria a atuação. Seria um efeito colateral do método utilizado para obtê-la.

Mas existe outra possibilidade:

PRESSÃO → SOFRIMENTO → RESULTADO

Nesse caso, o estado emocional real provocado em Duvall começaria a participar daquilo que Kubrick conseguia colocar diante da câmera. A exaustão, a ansiedade e a fragilidade deixariam de ser apenas consequências e passariam a alimentar Wendy.

É exatamente aqui que nasce uma segunda pergunta que não conseguimos responder: Kubrick acreditava que o próprio sofrimento pessoal de Shelley Duvall estava tornando sua interpretação de Wendy mais convincente?

Não encontramos uma declaração inequívoca do diretor que resolva essa questão. Mas a ausência dessa resposta não encerra o problema da intenção.

Quando uma consequência se torna conhecida

Suponhamos que Kubrick não acreditasse que o sofrimento de Duvall produzisse uma atuação melhor. Ainda assim, sabia que o método que utilizava estava provocando esse sofrimento.

A partir desse momento, a situação muda. O sofrimento pode ter começado como consequência não pretendida. Mas, depois de percebido, a decisão de continuar aplicando o método que o produzia já não era involuntária.

Duvall disse que Kubrick “pushed and pushed”. Ele queria chegar a determinada interpretação. Ela estava sofrendo. Ele sabia. E o processo continuou. Isso nos leva a uma distinção essencial.

Não precisamos demonstrar que Kubrick queria que Shelley sofresse. Precisamos perguntar se ele estava disposto a continuar fazendo aquilo que sabia estar causando sofrimento porque ainda queria conseguir determinada atuação. As evidências apontam fortemente que sim.

Então qual era o papel do sofrimento?

Aqui permanece a questão mais difícil de toda a investigação. Kubrick poderia acreditar que: a pressão era necessária e o sofrimento contribuía para o resultado.

Nesse caso, o sofrimento de Duvall tornou-se funcional ao processo. Kubrick o instrumentalizou em benefício daquilo que queria colocar na tela.

Ou poderia acreditar que: a pressão era necessária, mas o sofrimento não contribuía diretamente para a atuação.

Nesse caso, o sofrimento era um custo indesejado, mas conhecido, que Kubrick considerou aceitável para continuar utilizando o método em que acreditava.

Há ainda uma terceira possibilidade: ele poderia não considerar aquele sofrimento nem necessário nem artisticamente útil. Mas então surge outra pergunta: Se Kubrick não acreditava que o sofrimento de Duvall ajudasse a produzir a atuação e não o considerava inevitável para consegui-la, por que não alterou seu método para tentar amenizá-lo?

Também não sabemos. E essa dúvida não funciona como absolvição. Pelo contrário, cria um dilema moral. Se Kubrick considerava o sofrimento artisticamente funcional, aceitou instrumentalizá-lo. Se considerava apenas a pressão necessária, aceitou conscientemente o sofrimento como preço dessa pressão. Se não considerava nem uma coisa nem outra, sua decisão de permitir que a situação continuasse se torna ainda mais difícil de justificar.

O resultado não prova a necessidade do método

Há uma tentação particularmente perigosa quando discutimos grandes obras: utilizar o resultado para justificar retrospectivamente o processo.

Shelley Duvall realizou uma performance extraordinária. O Iluminado tornou-se um dos filmes mais discutidos de sua geração. Wendy Torrance permanece associada a imagens de medo e desespero que atravessaram décadas. Mas nenhuma dessas coisas demonstra que aquele sofrimento fosse necessário.

Essa é outra pergunta que precisa permanecer aberta: Kubrick poderia ter conseguido a mesma Wendy por outro método, sem impor a Duvall aquele nível de desgaste?

Não sabemos. E talvez seja justamente essa impossibilidade que torne a questão ética tão importante. Kubrick não possuía uma segunda versão do filme para demonstrar que outra abordagem fracassaria. O fato de seu método ter produzido o resultado desejado demonstra apenas que funcionou. Não demonstra que fosse necessário.

A atuação também pertence a Shelley Duvall

Há ainda uma consequência curiosa da própria defesa de Duvall. Quando dizemos que Kubrick conseguiu sua atuação aterrorizando-a, podemos acabar retirando da atriz aquilo que pretendíamos devolver a ela.

Duvall não era uma pessoa colocada diante da câmera sem recursos profissionais. Já possuía uma trajetória importante, especialmente nos filmes de Robert Altman. Tinha ideias próprias sobre Wendy, discutia a personagem com Kubrick e participava ativamente de sua construção. Reduzir sua performance ao sofrimento real significa transformar Kubrick novamente no grande autor de tudo aquilo que aparece na tela.

Outra pergunta precisa, portanto, permanecer sem resposta: Quanto do terror que vemos em Wendy pertence ao estado pessoal de Shelley Duvall e quanto pertence ao trabalho de uma atriz construindo conscientemente uma personagem?

Provavelmente as duas coisas acabaram se misturando, mas não sabemos em que proporção.

As imagens que construíram Kubrick

Existe ainda uma ironia. Grande parte da imagem que temos desse processo vem de Making The Shining. As cenas são reais. Mas um documentário continua sendo uma seleção. Há relatos de que Stanley Kubrick participou das decisões sobre aquilo que permaneceria na montagem e de que momentos capazes de revelar outras dimensões de seu comportamento ficaram de fora.

Isso não invalida aquilo que vemos. Mas impede que confundamos aquelas imagens com a totalidade da experiência. Talvez Kubrick tenha participado, conscientemente ou não, da construção da própria imagem que posteriormente alimentaria a lenda: o diretor obsessivo, implacável, disposto a tudo pela tomada perfeita. As imagens não mentiam, mas não necessariamente contavam tudo.

Kubrick teve intenção?

Agora podemos responder à pergunta que está no centro do mito.

Se por intenção entendermos que Kubrick planejou antecipadamente destruir psicologicamente Shelley Duvall, não sabemos.

Se significar que desejava seu sofrimento por crueldade ou como finalidade em si mesma, não encontramos evidências disso.

Mas não é essa a intenção que o mito precisa demonstrar.

A questão é se Kubrick, sabendo que sua pressão estava levando Duvall a um estado de sofrimento intenso, decidiu conscientemente manter essa pressão porque continuava buscando dela a atuação que desejava.

Para essa pergunta, o conjunto das evidências permite uma resposta. Sim. Kubrick sabia e continuou porque ainda buscava um resultado artístico. A intenção relevante para o mito está nessa escolha.

VEREDITO: CONFIRMADO

Stanley Kubrick pressionou deliberadamente Shelley Duvall até um estado de extremo desgaste emocional e, quando esse sofrimento se tornou evidente, manteve conscientemente o processo porque continuava buscando dela a atuação que desejava para Wendy Torrance.

É isso que estamos confirmando. Não estamos confirmando que Kubrick tenha planejado tudo antes das filmagens, nem que desejasse o sofrimento de Duvall por si mesmo.

Não estamos confirmando que tivesse como princípio artístico fazer atores sofrerem realmente para interpretar sofrimento. E não estamos afirmando que toda a atuação de Duvall seja resultado do estado emocional ao qual foi submetida.

Essas seriam outras afirmações.

O núcleo do mito, porém, sobrevive à investigação: diante de um sofrimento que já conhecia, Kubrick decidiu continuar utilizando a pressão que o produzia porque ainda queria extrair de Duvall determinada performance.

Nesse sentido, a intenção está suficientemente demonstrada pelo conjunto convergente das evidências.

O que permanece sem resposta

A investigação termina, portanto, com um veredito, mas não com todas as respostas.

Kubrick percebeu que o sofrimento pessoal de Duvall estava alimentando diretamente a atuação de Wendy ou considerava apenas que sua pressão era necessária para chegar ao resultado?

Shelley Duvall teria conseguido entregar exatamente a mesma performance sem experimentar aquele sofrimento pessoal?

Kubrick poderia ter alterado seu método e obtido a mesma Wendy com um custo emocional menor para a atriz?

Em que medida o medo e a exaustão que vemos na tela pertencem ao sofrimento real de Shelley e em que medida pertencem à técnica de uma atriz realizando um trabalho extremamente difícil?

Se Kubrick não considerava o sofrimento artisticamente útil ou necessário, por que não tentou reduzi-lo quando se tornou evidente?

Não temos respostas seguras para essas perguntas.

E não precisamos inventá-las para chegar ao veredito.

O que podemos estabelecer é mais simples e suficientemente grave: o sofrimento de Shelley Duvall deixou de ser apenas uma consequência imprevista quando Kubrick tomou conhecimento dele e decidiu continuar aplicando a pressão que o produzia em busca do resultado que queria.

A partir daí, surge uma questão que já não pertence apenas à história de O Iluminado. Ela diz respeito à própria mitologia do grande diretor e à ideia, tantas vezes romantizada pelo cinema, de que a obra pode justificar aquilo que foi exigido para realizá-la.

O que a investigação retira da lenda não é a responsabilidade de Kubrick. É apenas aquilo que não podemos saber.

E talvez a pergunta mais incômoda seja justamente aquela que continuará sem resposta: Shelley Duvall precisava sofrer para que Wendy Torrance existisse daquela maneira?

Não sabemos. Sabemos que sofreu, que Kubrick sabia e que ele decidiu continuar.