Debate realizado pelo Clube de Cinema Seu Manolo.
O debate sobre Laranja Mecânica começou por uma
dificuldade que acompanharia praticamente toda a conversa: o que fazer, como
espectadores, com Alex? Desde os primeiros minutos, não existe dúvida sobre a
brutalidade do personagem. Seus crimes são suficientemente graves para impedir
qualquer tentativa simples de transformá-lo em alguém com quem possamos nos
identificar. Entre os participantes, predominou a recusa à simpatia pelo
protagonista. Alguns admitiram compaixão ou pena quando ele passou a sofrer,
mas fizeram questão de distinguir esse sentimento de uma absolvição. Alex podia
despertar interesse, podia ser reconhecido como humano e até provocar compaixão
em determinadas circunstâncias, mas nada disso apagava a responsabilidade pelo
sofrimento que havia provocado.
Essa dificuldade é ampliada pela maneira como Kubrick constrói o personagem. Alex não é apresentado apenas como um criminoso brutal. É inteligente, carismático, espirituoso e profundamente ligado à música. A discussão percebeu nessa composição uma das principais estratégias do filme: se Alex fosse somente repulsivo, seria muito fácil manter distância dele. Suas contradições obrigam o espectador a permanecer próximo de alguém cujas ações condena. O interesse pelo personagem não significa aprovação. Ao contrário, pode tornar a experiência ainda mais desconfortável porque impede que o mal seja colocado exclusivamente em uma figura distante, simples e facilmente classificável.
A própria representação da violência tornou-se então objeto
da conversa. Vários participantes destacaram o desconforto provocado por
Kubrick ao transformar agressões em composições visualmente elaboradas,
utilizando cores, cenários, figurinos, movimentos, música, humor e coreografia.
A invasão da casa do escritor, acompanhada por “Singin’ in the Rain”, apareceu
como exemplo decisivo. A brutalidade não deixa de ser brutalidade, mas sua
apresentação cinematográfica pode ser atraente, ritmada e até momentaneamente
divertida. Surgiu daí uma questão incômoda: o que acontece quando sentimos
prazer estético diante de algo que moralmente repudiamos? O filme não permite
que o espectador apenas contemple a violência de fora. Ele também chama atenção
para nossa capacidade de consumi-la quando transformada em espetáculo.
A discussão sobre Beethoven levou esse problema a outro
território. Alex sente intensamente a música e, ao mesmo tempo, é incapaz de
reconhecer o sofrimento daqueles que agride. Para o grupo, essa combinação
colocou em xeque uma associação muito difundida entre cultura e elevação moral.
O contato com grandes obras não garante empatia, civilidade ou bondade. A Nona
Sinfonia tornou essa contradição ainda mais aguda por carregar referências à
fraternidade e à humanidade enquanto, para Alex, pode integrar fantasias de
prazer, poder e violência. A conversa chegou então a uma formulação
particularmente importante: talvez a arte não transforme necessariamente aquele
que a recebe. Ela também pode ser incorporada ao universo moral e psicológico
que a pessoa já possui.
Essa reflexão preparou a entrada no Método Ludovico e no que
se tornou um dos principais conflitos do debate. Se fosse possível impedir uma
pessoa violenta de voltar a fazer o mal retirando-lhe parte de sua liberdade,
seria legítimo fazê-lo? As respostas se dividiram. Para alguns, proteger
possíveis vítimas deve prevalecer sobre a liberdade de alguém que representa
uma ameaça. Para outros, o método ultrapassa esse limite porque não
ressocializa Alex, não produz consciência e não desenvolve responsabilidade.
Ele apenas condiciona seu comportamento. Alex não aprende a escolher o bem.
Torna-se incapaz de escolher o mal e, ao mesmo tempo, incapaz de defender-se da
violência dos outros.
A fala do capelão ganhou importância nesse momento. Se
alguém pratica o bem apenas porque perdeu fisicamente a possibilidade de agir
de outra maneira, ainda podemos falar em virtude? O debate percebeu que o
Método Ludovico confunde comportamento socialmente desejável com transformação
moral. Alex torna-se inofensivo, mas não necessariamente bom. Além disso, o
condicionamento invade dimensões que ultrapassam aquilo que deveria combater:
sua sexualidade, sua capacidade de reação e até sua relação com Beethoven são
atingidas. A comparação surgida durante a conversa com uma coleira que impede
um animal de ultrapassar determinado limite tornou particularmente visível a
ideia de domesticação. O tratamento controla o comportamento, mas não forma um
sujeito moral.
A partir daí, o debate deslocou-se de Alex para a sociedade
que pretende corrigi-lo. Quando o protagonista retorna às ruas, a violência não
desapareceu. Apenas mudou de mãos. Pessoas que foram vítimas dele procuram
vingança, antigos companheiros reaparecem como policiais e o próprio Estado
utiliza métodos violentos em nome da ordem. A presença de Dim e Georgie na
polícia foi considerada especialmente significativa. Eles não parecem ter
abandonado a brutalidade. Apenas passaram a exercê-la a partir de uma posição
legitimada pela autoridade. Surgiu então uma das questões mais fortes da noite:
o Estado pretende realmente eliminar a violência ou pretende controlar quem
pode exercê-la?
O grupo não estabeleceu uma equivalência simples entre os
crimes de Alex e a violência institucional. Foi lembrado que Alex escolheu
deliberadamente agredir suas vítimas, enquanto as instituições justificam suas
ações em nome da punição, da segurança ou do controle social. Mas essa
diferença não encerrou a discussão. Pelo contrário, tornou-a mais complexa.
Quando uma sociedade condena a violência e simultaneamente recorre a
procedimentos violentos para combatê-la, precisa responder por seus próprios
limites. A violência institucional pode ser ainda mais preocupante justamente
porque deixa de aparecer como transgressão e passa a apresentar-se como
procedimento legítimo.
Foi nesse ponto que surgiu a maior divergência do encontro:
podemos considerar Alex uma vítima? Para alguns participantes, não. Aquilo que
sofre seria consequência das atrocidades que praticou, e reconhecer sua
condição posterior não deveria produzir uma imagem de inocência ou de martírio.
Outros defenderam uma distinção fundamental. Alex continua responsável por seus
crimes, mas essa responsabilidade não autoriza qualquer violência contra ele.
Dizer que alguém foi vítima de determinado abuso não significa afirmar que essa
pessoa seja boa, inocente ou moralmente admirável. Uma pessoa pode ter cometido
crimes e, em outra situação, ter seus próprios direitos violados.
A discussão conduziu naturalmente ao problema da vingança.
Algumas violências sofridas por Alex vêm justamente daqueles que haviam sido
atingidos por ele. Isso torna suas reações compreensíveis, mas não
necessariamente legítimas. O debate recuperou então uma questão que já apareceu
em outros filmes discutidos pelo Clube: existe um direito moral à vingança? E,
quando a justiça institucional falha, a vingança pessoal passa a ser
justificável? Não houve resposta consensual. Houve, porém, uma distinção relevante
entre compreender o desejo de vingança e considerá-lo moralmente correto. Em Laranja
Mecânica, essa fronteira torna-se ainda mais instável porque vingança
individual, poder institucional e interesses políticos acabam se misturando.
O final reuniu esses diferentes caminhos. Depois do fracasso
do condicionamento, Alex parece recuperar aquilo que possuía no início: seus
desejos, suas fantasias e sua capacidade de escolher. Alguns participantes
entenderam que nenhuma transformação real ocorreu. Alex continua sendo
essencialmente o mesmo personagem e, no desfecho, aprende inclusive a utilizar
em benefício próprio o sistema que anteriormente havia tentado utilizá-lo. O
Estado, por sua vez, abandona qualquer pretensão moral quando percebe que Alex
se tornou politicamente inconveniente e passa a negociar com ele. A recuperação
do indivíduo e a conveniência do poder tornam-se difíceis de separar.
Quando o grupo foi convidado a indicar uma pergunta que o
filme deixa sem resposta, as formulações convergiram para o mesmo núcleo. Até
onde uma sociedade pode interferir na liberdade de alguém para impedir que faça
o mal? E, se a ordem social depender da domesticação tecnológica ou química do
livre-arbítrio, o que exatamente terá sido preservado? São perguntas que
explicam por que o debate não terminou simplesmente com um julgamento sobre
Alex. Aos poucos, o personagem deixou de ser o único problema. Passamos a
discutir também aqueles que o punem, aqueles que se vingam, aqueles que o
condicionam e aqueles que politicamente se beneficiam de sua existência.
Talvez tenha sido essa a principal conclusão coletiva do
encontro: Laranja Mecânica não oferece a escolha confortável entre
defender Alex ou defender a sociedade contra Alex. O filme obriga a conviver
com afirmações que parecem contraditórias. Alex é responsável por atos
terríveis. Impedir novas vítimas é uma obrigação social. A liberdade individual
possui limites. Mas nenhum desses pontos concede automaticamente ao Estado ou
aos indivíduos o direito de transformar punição em tortura, ressocialização em
domesticação ou justiça em vingança. O mal praticado por Alex não desaparece
quando ele sofre. O abuso praticado contra Alex também não se torna legítimo
porque sua vítima é um criminoso.