FILMOTECA - Revista de Cinema: Pág. 18



NINGUÉM PODE SABER (2004) 

Quando sobreviver também significa continuar sendo criança.



Quatro crianças vivem com a mãe em um pequeno apartamento de Tóquio, mas há uma condição estranha naquela casa: algumas delas não podem ser vistas pelos vizinhos. Quando a mãe começa a passar períodos cada vez maiores fora e finalmente desaparece, Akira, o filho mais velho, precisa cuidar dos irmãos e administrar o pouco dinheiro disponível. Essa premissa seria suficiente para construir um melodrama devastador, mas Hirokazu Kore-eda escolhe um caminho muito mais discreto em Ninguém Pode Saber.

Inspirado no chamado caso de Sugamo, ocorrido no Japão no final dos anos 1980, o filme não procura reconstituir os acontecimentos literalmente. Kore-eda está menos interessado em investigar o caso do que em imaginar como aquelas crianças poderiam ter experimentado o abandono no cotidiano. Por isso, sua câmera permanece próxima dos personagens, acompanhando refeições, brincadeiras, tarefas domésticas e pequenas decisões que começam a adquirir importância à medida que a presença dos adultos desaparece.

Essa escolha é uma das principais razões para indicar o filme. Kore-eda não transforma as crianças apenas em vítimas e evita utilizar seu sofrimento como instrumento permanente para provocar comoção. Mesmo diante de uma situação extrema, elas continuam brincando, descobrindo coisas, fazendo amigos e experimentando momentos de felicidade. Akira precisa assumir responsabilidades incompatíveis com sua idade, mas continua sendo um menino que gostaria de sair, jogar e conviver com outras crianças. É justamente essa coexistência entre infância e responsabilidade que torna sua situação tão dolorosa.

O apartamento desempenha papel fundamental nessa construção. Aos poucos, a comida muda, o dinheiro diminui, a higiene se deteriora e os objetos começam a revelar o que os personagens não dizem. O espaço doméstico passa a registrar materialmente a progressão do abandono, permitindo que o espectador perceba as transformações sem que o roteiro precise explicá-las continuamente. Kore-eda confia que uma imagem aparentemente banal pode carregar informações suficientes quando aprendemos a observá-la.

As 2h21 de duração também fazem parte dessa experiência. O filme precisa de tempo porque não pretende simplesmente informar que quatro crianças foram abandonadas, mas fazer com que acompanhemos a transformação de suas vidas. Quando permanecemos naquele apartamento durante meses e percebemos a passagem das estações, começamos a reconhecer hábitos, relações e pequenas rotinas. Assim, cada mudança ganha importância porque sabemos como aquele pequeno universo funcionava anteriormente.

No centro dessa experiência está Yūya Yagira, intérprete de Akira, que recebeu o prêmio de Melhor Ator no Festival de Cannes de 2004 aos 14 anos. Sua atuação combina perfeitamente com o método de Kore-eda porque evita grandes demonstrações emocionais. O peso crescente das responsabilidades aparece principalmente em seu comportamento, em seus silêncios e na maneira como observa aquilo que acontece ao redor.

Ninguém Pode Saber também é uma excelente porta de entrada para a obra de Kore-eda. Questões que atravessariam filmes posteriores, como Pais e Filhos, Nossa Irmã Mais Nova e Assunto de Família, já aparecem aqui: infância, abandono, vínculos afetivos e, sobretudo, a pergunta sobre o que realmente transforma pessoas em uma família.

É por isso que vale indicá-lo. Mais do que contar uma história comovente, Ninguém Pode Saber apresenta uma maneira de fazer cinema que aposta na observação, no tempo e nos pequenos detalhes. Para quem está acostumado a narrativas mais aceleradas, seu ritmo pode exigir alguma adaptação, mas essa exigência também faz parte da descoberta. Kore-eda demonstra que um filme não precisa chamar constantemente nossa atenção para aquilo que importa. Às vezes, basta nos ensinar a perceber o que está acontecendo diante dos nossos olhos.

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