Quatro crianças vivem com a mãe em um pequeno apartamento de Tóquio, mas há uma condição estranha naquela casa: algumas delas não podem ser vistas pelos vizinhos. Quando a mãe começa a passar períodos cada vez maiores fora e finalmente desaparece, Akira, o filho mais velho, precisa cuidar dos irmãos e administrar o pouco dinheiro disponível. Essa premissa seria suficiente para construir um melodrama devastador, mas Hirokazu Kore-eda escolhe um caminho muito mais discreto em Ninguém Pode Saber.
Inspirado no chamado caso de Sugamo, ocorrido no Japão no final dos anos 1980, o filme não procura reconstituir os acontecimentos literalmente. Kore-eda está menos interessado em investigar o caso do que em imaginar como aquelas crianças poderiam ter experimentado o abandono no cotidiano. Por isso, sua câmera permanece próxima dos personagens, acompanhando refeições, brincadeiras, tarefas domésticas e pequenas decisões que começam a adquirir importância à medida que a presença dos adultos desaparece.
Essa escolha é uma das principais razões para indicar o
filme. Kore-eda não transforma as crianças apenas em vítimas e evita utilizar
seu sofrimento como instrumento permanente para provocar comoção. Mesmo diante
de uma situação extrema, elas continuam brincando, descobrindo coisas, fazendo
amigos e experimentando momentos de felicidade. Akira precisa assumir
responsabilidades incompatíveis com sua idade, mas continua sendo um menino que
gostaria de sair, jogar e conviver com outras crianças. É justamente essa
coexistência entre infância e responsabilidade que torna sua situação tão
dolorosa.
O apartamento desempenha papel fundamental nessa construção.
Aos poucos, a comida muda, o dinheiro diminui, a higiene se deteriora e os
objetos começam a revelar o que os personagens não dizem. O espaço doméstico
passa a registrar materialmente a progressão do abandono, permitindo que o
espectador perceba as transformações sem que o roteiro precise explicá-las
continuamente. Kore-eda confia que uma imagem aparentemente banal pode carregar
informações suficientes quando aprendemos a observá-la.
As 2h21 de duração também fazem parte dessa experiência. O
filme precisa de tempo porque não pretende simplesmente informar que quatro
crianças foram abandonadas, mas fazer com que acompanhemos a transformação de
suas vidas. Quando permanecemos naquele apartamento durante meses e percebemos
a passagem das estações, começamos a reconhecer hábitos, relações e pequenas
rotinas. Assim, cada mudança ganha importância porque sabemos como aquele
pequeno universo funcionava anteriormente.
No centro dessa experiência está Yūya Yagira, intérprete de
Akira, que recebeu o prêmio de Melhor Ator no Festival de Cannes de 2004 aos 14
anos. Sua atuação combina perfeitamente com o método de Kore-eda porque evita
grandes demonstrações emocionais. O peso crescente das responsabilidades
aparece principalmente em seu comportamento, em seus silêncios e na maneira
como observa aquilo que acontece ao redor.
Ninguém Pode Saber também é uma excelente porta de
entrada para a obra de Kore-eda. Questões que atravessariam filmes posteriores,
como Pais e Filhos, Nossa Irmã Mais Nova e Assunto de Família,
já aparecem aqui: infância, abandono, vínculos afetivos e, sobretudo, a
pergunta sobre o que realmente transforma pessoas em uma família.
É por isso que vale indicá-lo. Mais do que contar uma
história comovente, Ninguém Pode Saber apresenta uma maneira de fazer
cinema que aposta na observação, no tempo e nos pequenos detalhes. Para quem
está acostumado a narrativas mais aceleradas, seu ritmo pode exigir alguma
adaptação, mas essa exigência também faz parte da descoberta. Kore-eda demonstra
que um filme não precisa chamar constantemente nossa atenção para aquilo que
importa. Às vezes, basta nos ensinar a perceber o que está acontecendo diante
dos nossos olhos.