FILMOTECA - Revista de Cinema: Pág. 17


ANTICRISTO (2009)

Quando o choque aprofunda uma experiência e quando começa a dominá-la?


Lars von Trier não demora a estabelecer o território de Anticristo. Enquanto um casal faz sexo, seu filho pequeno sai do berço, aproxima-se de uma janela e cai. A sequência, filmada em preto e branco e em câmera lenta, combina beleza visual, prazer e morte de uma maneira que antecipa o método adotado pelo diretor ao longo de todo o filme: sentimentos extremos serão representados por imagens igualmente extremas.

Depois da tragédia, a mulher interpretada por Charlotte Gainsbourg mergulha em um sofrimento profundo, enquanto o marido, vivido por Willem Dafoe, tenta ajudá-la utilizando seus conhecimentos como terapeuta. A relação já nasce problemática porque ele deixa de ocupar apenas o lugar de companheiro e passa a analisar o comportamento da esposa, procurando organizar racionalmente uma dor que talvez não possa ser organizada. Quando identifica que seu maior medo está relacionado à floresta onde a família possui uma cabana, decide levá-la até lá para enfrentar aquilo que a atormenta.

A partir desse momento, Anticristo afasta-se progressivamente do drama psicológico convencional. A floresta chamada Éden não oferece qualquer possibilidade de reconciliação com a natureza. Animais aparecem em situações perturbadoras, acontecimentos desafiam explicações realistas e o ambiente parece responder ao estado mental dos personagens. Von Trier declarou, durante o lançamento do filme em Cannes, que trabalhava com uma lógica próxima à dos sonhos, o que ajuda a compreender por que tantas imagens não parecem destinadas a formar um sistema simbólico perfeitamente decifrável.

Para os admiradores do filme, essa recusa da explicação racional é justamente uma de suas forças. O luto não é apresentado como um problema que possa ser compreendido por meio de diálogos ou conceitos, mas como uma experiência capaz de deformar a percepção do mundo. A floresta, os animais, o sexo e a violência tornam visível aquilo que se passa dentro dos personagens, permitindo que o cinema represente sensações que dificilmente encontrariam equivalente numa abordagem realista.

É justamente quando essa proposta chega às últimas consequências que surge a maior divisão em torno de Anticristo. A violência, inicialmente psicológica e sugerida, torna-se explicitamente física e sexual, chegando a mutilações mostradas com uma frontalidade incomum. Pode-se argumentar que essa escalada é coerente com um filme interessado em transformar sofrimento psíquico em experiência corporal, pois seria contraditório conduzir os personagens até uma situação de completo descontrole e preservar o espectador das consequências desse processo.

Existe, porém, um argumento igualmente importante na direção contrária. Uma imagem pode atingir tamanha intensidade que deixa de encaminhar nossa atenção para aquilo que representa e passa a concentrá-la sobre si mesma. Nesse momento, o espectador talvez já não esteja pensando principalmente no luto, na culpa ou na deterioração daquele casamento, mas na agressão que acabou de presenciar. O choque, concebido como instrumento para aprofundar a experiência, corre então o risco de se transformar na própria experiência.

Essa discussão se torna ainda mais complexa pela maneira como o filme associa sua personagem feminina à sexualidade, à culpa e ao mal. Ela havia pesquisado a perseguição histórica às mulheres e gradualmente parece internalizar algumas das ideias que estudava, aproximando feminilidade, natureza e perversidade. Uma interpretação possível considera que Von Trier está mostrando justamente os efeitos destrutivos dessa tradição misógina sobre uma mulher consumida pela culpa. Outra questiona se o filme consegue estabelecer distância suficiente dessas ideias, já que é sobre o corpo feminino que concentra algumas de suas imagens mais violentas. Representar uma concepção misógina para investigá-la não significa necessariamente endossá-la, mas também não elimina a responsabilidade pelas escolhas utilizadas para representá-la.

É por isso que reduzir Anticristo a uma disputa entre espectadores que suportam ou não imagens violentas pouco explica a controvérsia que o acompanha. O problema mais interessante está em saber se o extremismo de Von Trier amplia aquilo que o filme consegue expressar ou progressivamente encobre questões que poderiam ser mais complexas do que as imagens utilizadas para representá-las.

Talvez Anticristo perdesse parte de sua identidade se fosse menos perturbador, menos agressivo e mais disposto a proteger o espectador. Ao mesmo tempo, é possível perguntar se uma obra precisa chegar tão longe para produzir essa perturbação ou se, ao fazê-lo, acaba tornando suas imagens extremas mais memoráveis do que as ideias que deveriam permanecer depois delas.

Em Anticristo, o choque nos leva mais fundo na experiência proposta por Lars von Trier ou chega um momento em que começa a ocupar o lugar dela?

Análise do filme no CRÍTICA LIVRE DE CINEMA.

Onde assistir ANTICRISTO