FILMOTECA - Revista de Cinema: Pág. 16


O QUE TERÁ ACONTECIDO A BABY JANE? (1962)

O que acontece com alguém que construiu sua identidade a partir do olhar dos outros quando esse olhar finalmente desaparece?



Quando O que Terá Acontecido a Baby Jane? chegou aos cinemas em 1962, Bette Davis e Joan Crawford já pertenciam a uma Hollywood que parecia ter ficado para trás. Ambas haviam sido grandes estrelas, acumulado sucessos e construído imagens públicas reconhecíveis, mas enfrentavam um sistema cinematográfico pouco disposto a reservar papéis importantes para atrizes que haviam envelhecido. Robert Aldrich percebeu nessa circunstância algo maior do que uma oportunidade de reunir dois nomes famosos: encontrou a matéria perfeita para um filme sobre celebridade, ressentimento, dependência e o medo de se tornar irrelevante.

A história acompanha as irmãs Jane e Blanche Hudson, confinadas em uma antiga mansão de Los Angeles. Jane havia conhecido a fama ainda criança, quando se apresentava nos palcos como Baby Jane, enquanto Blanche viveria posteriormente uma carreira muito mais importante como atriz de cinema. No presente, porém, as duas existem sobretudo à sombra do passado. Blanche, interpretada por Joan Crawford, depende de uma cadeira de rodas depois de um acidente, enquanto Jane, vivida por Bette Davis, permanece emocionalmente aprisionada à menina que um dia foi admirada pelo público.

Aldrich transforma a casa em uma espécie de mausoléu da fama. Fotografias, objetos, lembranças e filmes antigos não aparecem apenas para explicar quem foram aquelas mulheres, mas para mostrar como o passado continua organizando suas vidas. Quase tudo parece deteriorado, inclusive a relação entre as irmãs, marcada por uma mistura sufocante de culpa, inveja, necessidade e hostilidade. A claustrofobia nasce justamente dessa impossibilidade de escapar: Blanche depende fisicamente de Jane, enquanto Jane parece depender psicologicamente da existência de Blanche.

É nesse espaço que Bette Davis constrói uma das interpretações mais extravagantes de sua carreira. A maquiagem carregada, os gestos, a voz e as mudanças bruscas de comportamento poderiam facilmente transformar Jane em uma caricatura, mas há algo profundamente melancólico por trás do grotesco. A personagem tenta reconstruir a própria infância porque não consegue aceitar que o mundo seguiu adiante sem ela. Joan Crawford trabalha no registro oposto. Sua Blanche é mais contida, e essa diferença ajuda a criar uma tensão na qual o espectador é inicialmente conduzido a reconhecer papéis bastante definidos de vítima e algoz, até que o filme começa a complicar essa percepção.

Embora frequentemente classificado como terror psicológico, O que Terá Acontecido a Baby Jane? combina melodrama, suspense, humor negro e elementos grotescos sem se acomodar inteiramente em nenhum deles. Essa mistura contribuiu para que o filme adquirisse uma personalidade que permanece reconhecível décadas depois. O horror não depende principalmente de ameaças externas, mas da deterioração de uma relação construída durante uma vida inteira, enquanto a casa converte essa história em espaço físico.

POR QUE SE CONSAGROU PELO TEMPO?

Parte da resposta está na extraordinária combinação entre personagens e intérpretes. Davis e Crawford não apenas interpretavam duas antigas estrelas: o público sabia que estava diante de duas mulheres que haviam ocupado posições centrais em Hollywood e agora enfrentavam uma indústria que tratava o envelhecimento feminino como perda de valor comercial. Essa dimensão metalinguística poderia ter condenado o filme a funcionar apenas como curiosidade de sua época, mas aconteceu o contrário. A passagem dos anos tornou ainda mais evidente a inteligência com que Aldrich incorporou a história do próprio cinema à ficção.

O filme também ajudou a demonstrar que grandes atrizes envelhecidas poderiam ocupar o centro de produções comercialmente relevantes, abrindo caminho para um conjunto de thrillers e filmes de horror protagonizados por antigas estrelas de Hollywood. Algumas dessas obras tentariam reproduzir diretamente a fórmula de Baby Jane, mas poucas encontrariam o mesmo equilíbrio entre espetáculo, crueldade e tragédia. Sua influência, portanto, não está apenas nas imitações que provocou, mas na criação de um modelo imediatamente reconhecível.

Há ainda uma razão mais importante para sua permanência: Jane Hudson nunca ficou inteiramente presa a 1962. Sua obsessão pela imagem que um dia projetou para os outros tornou-se ainda mais compreensível em uma cultura na qual fama, juventude, exposição pública e necessidade de reconhecimento passaram a ocupar espaços cada vez maiores. O que em Jane poderia parecer apenas delírio individual também pode ser visto como manifestação extrema de uma pergunta bastante contemporânea: quem somos quando a identidade que construímos deixa de receber confirmação externa?

A própria experiência de assistir ao filme também resistiu ao tempo. Conhecer a fama de Davis e Crawford, saber da rivalidade entre elas ou reconhecer a importância histórica da produção acrescenta camadas, mas nenhuma dessas informações é necessária para que a relação entre Jane e Blanche continue perturbadora. A encenação claustrofóbica de Aldrich, o contraste entre as interpretações e a progressiva transformação daquilo que acreditávamos saber sobre as duas irmãs preservam a capacidade do filme de envolver espectadores que chegam a ele décadas depois de seu lançamento.

É essa combinação que explica sua condição de clássico. O que Terá Acontecido a Baby Jane? permanece como documento de uma Hollywood que envelhecia, como encontro extraordinário entre duas de suas maiores estrelas e como obra que influenciou uma linhagem posterior de filmes sobre decadência, fama e ressentimento. Mas sobrevive principalmente porque aquilo que parecia pertencer à velha indústria cinematográfica revelou uma inquietação muito mais duradoura.

Mais de seis décadas depois, Baby Jane ainda olha para um passado no qual acredita ter sido alguém porque havia uma plateia olhando para ela. O mundo ao seu redor mudou profundamente. A necessidade que a aprisiona, não.

Análise Crítica no CRÍTICA LIVRE DE CINEMA.

Onde assistir O QUE TERÁ ACCONTECIDO A BABY JANE?