FILMOTECA - Revista de Cinema: Pág. 12


A REGRA DO JOGO (1939)

Quando o cinema descobriu que o mundo não cabia numa única história.



Imagine entrar numa sala de cinema em 1939. Na tela, as histórias estavam sendo contadas cada vez melhor. Hollywood lançava filmes como ...E o Vento Levou, O Mágico de Oz e No Tempo das Diligências. O cinema já sabia criar grandes personagens, estabelecer conflitos, provocar emoções e levar o público até um final cuidadosamente preparado.

Na França, Jean Renoir resolveu bagunçar um pouco essa ordem.

A Regra do Jogo começa como uma história relativamente familiar. Um aviador está apaixonado por uma mulher casada. O marido dela tem uma amante. Amigos, pretendentes e empregados entram nesse emaranhado e acabam reunidos numa propriedade de campo para um fim de semana de caça e festa.

Tudo parece pronto para uma elegante comédia de costumes.

Só que o filme começa a escapar dessa história.

E SE NINGUÉM FOR O DONO DO FILME?

Acompanhamos um personagem e logo outro chama nossa atenção. Um romance se cruza com outro. Os empregados começam a viver conflitos muito parecidos com os dos patrões. Quem parecia importante desaparece durante algum tempo e alguém que estava à margem ganha espaço.

Depois de um tempo, já não parece tão importante descobrir quem é o protagonista.

Renoir está interessado no grupo.

E esse grupo é uma confusão deliciosa. Todo mundo deseja alguma coisa, esconde alguma coisa ou interpreta errado aquilo que está acontecendo. Ninguém é exatamente inocente, mas também não há um grande vilão comandando o desastre.

Octave, interpretado pelo próprio Renoir, resume tudo numa frase: o terrível é que todos têm suas razões.

É difícil encontrar definição melhor para o filme.

ENTÃO COMEÇA A FESTA

É quando todos se reúnem para uma festa que A Regra do Jogo realmente enlouquece.

Há apresentações para os convidados, encontros escondidos, ciúmes, perseguições, amantes procurando amantes e pessoas aparecendo exatamente onde não deveriam. Durante alguns momentos, parece que Renoir colocou várias histórias para acontecer ao mesmo tempo e decidiu descobrir até onde aquilo poderia ir.

O curioso é que funciona.

Em vez de acompanharmos uma aventura individual, começamos a observar um pequeno mundo. Cada personagem acredita estar vivendo o seu grande drama, sem perceber que ao lado existem outras pessoas fazendo exatamente a mesma coisa.

Décadas depois, filmes com vários protagonistas, histórias cruzadas e personagens moralmente ambíguos se tornariam muito mais familiares. Cineastas como Robert Altman fariam dessa multiplicidade quase uma assinatura.

Renoir já estava brincando com isso em 1939.

MAS A BRINCADEIRA FICA SÉRIA

Durante boa parte do filme, tudo parece uma comédia. Há amantes escondidos, maridos ciumentos, portas abertas na hora errada e perseguições quase farsescas.

Só que Renoir vai mudando o jogo sem avisar.

O que era engraçado começa a ficar desconfortável. O ciúme vira ameaça. A perseguição deixa de ser brincadeira. E alguém morre.

Então acontece algo ainda mais revelador: aquela sociedade encontra uma maneira de explicar a morte, reorganizar as aparências e seguir adiante.

Talvez seja essa a verdadeira “regra do jogo”. Não impedir que as pessoas mintam, traiam ou machuquem umas às outras, mas garantir que façam tudo isso sem colocar o próprio jogo em risco.

O detalhe histórico torna tudo ainda mais incômodo. O filme estreou em 1939. Poucos meses depois, a Europa entraria em guerra.

E DEPOIS?

A Regra do Jogo não saiu dos cinemas transformando tudo imediatamente. Sua estreia foi difícil, o filme sofreu cortes e seu reconhecimento cresceu principalmente nos anos seguintes.

Mas uma porta havia sido aberta.

O cinema já sabia contar muito bem a história de um personagem. Renoir mostrou como poderia ser fascinante olhar ao redor dele e descobrir todas as outras histórias que estavam acontecendo ao mesmo tempo.

Depois de A Regra do Jogo, ficou um pouco mais difícil acreditar que existe apenas uma história no centro do mundo.

E essa é apenas uma parte do que Renoir mudou.

O filme também trouxe outras inovações importantes na maneira de organizar o espaço, acompanhar os personagens e envolver o espectador dentro da cena.

No ensaio completo da Biblioteca da Filmoteca, mostramos como essas escolhas ajudaram A Regra do Jogo a se tornar um dos grandes pontos de partida do cinema moderno. Leia na BIBLIOTECA DA FILMOTECA.


Onde assistir A REGRA DO JOGO