Imagine entrar numa sala de cinema em 1939. Na tela, as
histórias estavam sendo contadas cada vez melhor. Hollywood lançava filmes como
...E o Vento Levou, O Mágico de Oz e No Tempo das Diligências.
O cinema já sabia criar grandes personagens, estabelecer conflitos, provocar
emoções e levar o público até um final cuidadosamente preparado.
Na França, Jean Renoir resolveu bagunçar um pouco essa
ordem.
A Regra do Jogo começa como uma história relativamente familiar. Um aviador está apaixonado por uma mulher casada. O marido dela tem uma amante. Amigos, pretendentes e empregados entram nesse emaranhado e acabam reunidos numa propriedade de campo para um fim de semana de caça e festa.
Tudo parece pronto para uma elegante comédia de costumes.
Só que o filme começa a escapar dessa história.
E SE NINGUÉM FOR O DONO DO FILME?
Acompanhamos um personagem e logo outro chama nossa atenção.
Um romance se cruza com outro. Os empregados começam a viver conflitos muito
parecidos com os dos patrões. Quem parecia importante desaparece durante algum
tempo e alguém que estava à margem ganha espaço.
Depois de um tempo, já não parece tão importante descobrir
quem é o protagonista.
Renoir está interessado no grupo.
E esse grupo é uma confusão deliciosa. Todo mundo deseja
alguma coisa, esconde alguma coisa ou interpreta errado aquilo que está
acontecendo. Ninguém é exatamente inocente, mas também não há um grande vilão
comandando o desastre.
Octave, interpretado pelo próprio Renoir, resume tudo numa
frase: o terrível é que todos têm suas razões.
É difícil encontrar definição melhor para o filme.
ENTÃO COMEÇA A FESTA
É quando todos se reúnem para uma festa que A Regra do
Jogo realmente enlouquece.
Há apresentações para os convidados, encontros escondidos,
ciúmes, perseguições, amantes procurando amantes e pessoas aparecendo
exatamente onde não deveriam. Durante alguns momentos, parece que Renoir
colocou várias histórias para acontecer ao mesmo tempo e decidiu descobrir até
onde aquilo poderia ir.
O curioso é que funciona.
Em vez de acompanharmos uma aventura individual, começamos a
observar um pequeno mundo. Cada personagem acredita estar vivendo o seu grande
drama, sem perceber que ao lado existem outras pessoas fazendo exatamente a
mesma coisa.
Décadas depois, filmes com vários protagonistas, histórias
cruzadas e personagens moralmente ambíguos se tornariam muito mais familiares.
Cineastas como Robert Altman fariam dessa multiplicidade quase uma assinatura.
Renoir já estava brincando com isso em 1939.
MAS A BRINCADEIRA FICA SÉRIA
Durante boa parte do filme, tudo parece uma comédia. Há
amantes escondidos, maridos ciumentos, portas abertas na hora errada e
perseguições quase farsescas.
Só que Renoir vai mudando o jogo sem avisar.
O que era engraçado começa a ficar desconfortável. O ciúme
vira ameaça. A perseguição deixa de ser brincadeira. E alguém morre.
Então acontece algo ainda mais revelador: aquela sociedade
encontra uma maneira de explicar a morte, reorganizar as aparências e seguir
adiante.
Talvez seja essa a verdadeira “regra do jogo”. Não impedir
que as pessoas mintam, traiam ou machuquem umas às outras, mas garantir que
façam tudo isso sem colocar o próprio jogo em risco.
O detalhe histórico torna tudo ainda mais incômodo. O filme
estreou em 1939. Poucos meses depois, a Europa entraria em guerra.
E DEPOIS?
A Regra do Jogo não saiu dos cinemas transformando
tudo imediatamente. Sua estreia foi difícil, o filme sofreu cortes e seu
reconhecimento cresceu principalmente nos anos seguintes.
Mas uma porta havia sido aberta.
O cinema já sabia contar muito bem a história de um
personagem. Renoir mostrou como poderia ser fascinante olhar ao redor dele e
descobrir todas as outras histórias que estavam acontecendo ao mesmo tempo.
Depois de A Regra do Jogo, ficou um pouco mais
difícil acreditar que existe apenas uma história no centro do mundo.
E essa é apenas uma parte do que Renoir mudou.
O filme também trouxe outras inovações importantes na
maneira de organizar o espaço, acompanhar os personagens e envolver o
espectador dentro da cena.
No ensaio completo da Biblioteca da Filmoteca, mostramos como essas escolhas ajudaram A Regra do Jogo a se tornar um dos grandes pontos de partida do cinema moderno. Leia na BIBLIOTECA DA FILMOTECA.