Alguns filmes ocupam um lugar decisivo na história do cinema
porque introduziram uma técnica, consolidaram um gênero ou descobriram uma
possibilidade narrativa que depois se tornaria comum. Outros são mais difíceis
de situar, porque sua importância não depende propriamente da invenção de um
recurso, mas da maneira como reorganizaram elementos que já existiam e, ao
combiná-los, alteraram nossa relação com as imagens. A Regra do Jogo,
realizado por Jean Renoir em 1939, pertence a essa segunda categoria. Sua
modernidade não pode ser localizada em uma única inovação, porque nasce de uma
concepção mais ampla do espaço cinematográfico e, sobretudo, da liberdade que
esse espaço passa a conceder ao olhar do espectador.
A história, à primeira vista, oferece poucos indícios da transformação que está por vir. André Jurieux, um aviador celebrado por atravessar o Atlântico, retorna à França decepcionado porque Christine, a mulher por quem está apaixonado, não foi recebê-lo. O problema é que Christine é casada com Robert de la Chesnaye, aristocrata que, por sua vez, mantém uma relação com Geneviève. Octave, amigo de todos e interpretado pelo próprio Renoir, movimenta-se entre esses personagens tentando conciliar interesses que dificilmente podem ser conciliados. Quando boa parte deles se reúne numa propriedade de campo para um fim de semana de caça e entretenimento, estão criadas as condições para uma comédia de costumes construída em torno de adultérios, ciúmes, mal-entendidos e convenções sociais.
Renoir poderia desenvolver essa trama recorrendo aos
mecanismos que o cinema narrativo já havia aperfeiçoado para conduzir a atenção
do público. A montagem poderia selecionar sucessivamente os elementos
importantes, alternando personagens, olhares, objetos e reações e
estabelecendo, a cada momento, aquilo que merece nossa atenção. Em A Regra
do Jogo, esse princípio continua presente, mas deixa de comandar sozinho a
organização das cenas. Renoir demonstra um interesse particular por aquilo que
pode acontecer quando diferentes ações permanecem visíveis dentro de um mesmo
espaço e quando o espectador não recebe, a cada instante, uma indicação
inequívoca sobre onde deve concentrar o olhar.
É nesse ponto que a profundidade da imagem adquire uma
importância que vai muito além de uma questão técnica. Não se trata
simplesmente de manter nítidos personagens situados a diferentes distâncias da
câmera, mas de fazer com que primeiro plano, plano intermediário e fundo possam
participar simultaneamente da construção dramática. Enquanto uma conversa
acontece perto de nós, alguém pode atravessar uma porta mais distante; enquanto
acompanhamos determinado personagem, outra relação pode começar a se desenvolver
em uma região aparentemente secundária do quadro. O espaço deixa de funcionar
como um recipiente no qual a ação é colocada e passa a produzir significados
por meio da posição, da aproximação e do afastamento dos personagens.
Essa concepção modifica discretamente a posição do
espectador. Quando uma cena é decomposta em planos sucessivos, o cineasta
dispõe de um instrumento particularmente eficiente para estabelecer uma
hierarquia visual: um rosto recebe um primeiro plano porque sua reação importa
naquele momento; um objeto é isolado porque precisaremos lembrá-lo; um corte
nos conduz de quem olha para aquilo que está sendo observado. Renoir não
renuncia a esse vocabulário, mas frequentemente prefere organizar a informação
dentro do próprio plano. A consequência é que continuamos sendo conduzidos pela
encenação, pela iluminação, pelo movimento dos atores e pela câmera, embora
essa condução seja menos imperativa. Em vez de receber apenas uma informação de
cada vez, somos convidados a perceber relações.
A arquitetura da propriedade onde se passa grande parte do
filme torna essa proposta especialmente evidente. Portas, corredores, salas
contíguas, escadas e passagens deixam de constituir apenas a decoração de uma
mansão aristocrática e passam a determinar a circulação dos personagens e,
portanto, a própria narrativa. Alguém entra por uma porta enquanto outro
desaparece por uma segunda; uma conversa pode ser interrompida porque um
personagem surge ao fundo; uma relação aparentemente privada permanece ameaçada
pela possibilidade constante de que outra pessoa atravesse aquele espaço. A
casa parece conter mais acontecimentos do que a câmera consegue acompanhar,
criando a impressão de que a vida continua fora do enquadramento e de que
aquilo que vemos é apenas uma parcela de um universo em permanente movimento.
A mobilidade da câmera reforça essa sensação. Renoir
frequentemente acompanha os personagens pelos ambientes, desloca o centro de
interesse durante um mesmo plano e permite que novas situações sejam
descobertas à medida que a câmera percorre o espaço. Em vez de organizar o
mundo exclusivamente pela sucessão de enquadramentos, ele explora a
continuidade existente entre pessoas e ambientes. Há algo de profundamente
moderno nessa escolha, porque a câmera parece menos interessada em apresentar
uma série de informações previamente separadas do que em investigar um mundo no
qual várias coisas continuam acontecendo independentemente de sua atenção
momentânea.
Essa concepção espacial encontra correspondência na própria
estrutura narrativa, que dificilmente pode ser reduzida à trajetória de um
único protagonista. André, Christine, Robert, Octave, Geneviève, Lisette,
Schumacher e Marceau formam uma rede na qual a importância se desloca
continuamente. Renoir não constrói apenas uma história de amantes
aristocráticos acompanhada por personagens secundários pertencentes ao universo
dos empregados. Ele aproxima os dois mundos e faz com que relações semelhantes
apareçam em diferentes posições da hierarquia social. Patrões e criados
desejam, traem, escondem, sentem ciúmes e tentam preservar aparências, ainda
que as consequências de seus atos não sejam necessariamente as mesmas.
A crítica social de A Regra do Jogo nasce em grande
parte dessa organização. Renoir não precisa suspender a narrativa para explicar
a sociedade que está observando, porque as diferenças e correspondências entre
as classes tornam-se visíveis na maneira como os personagens ocupam a casa e circulam
por ela. Os espaços reservados aos convidados e aqueles ocupados pelos
empregados pertencem a uma mesma estrutura, e o filme pode passar de um para
outro revelando que os códigos mudam menos do que seria confortável admitir. A
mise-en-scène, portanto, não serve apenas para organizar visualmente uma
história; ela se torna uma forma de pensamento sobre o mundo social.
A famosa sequência da caçada oferece um dos exemplos mais
contundentes dessa capacidade de produzir significado por meio da forma. A
atividade é apresentada como parte natural do fim de semana daquelas pessoas,
integrada aos rituais de uma classe que transforma a morte dos animais em
entretenimento socialmente legitimado. Renoir, entretanto, aproxima nossa
percepção da violência que a convenção procura tornar banal. Coelhos correm
pelo campo, aves levantam voo, tiros interrompem movimentos e animais atingidos
permanecem por alguns instantes diante da câmera. A elegância dos participantes
e a brutalidade daquilo que praticam passam a ocupar o mesmo universo, sem que
seja necessário transformar a sequência em uma acusação verbal.
O sentido da caçada se amplia quando percebemos sua relação
com aquilo que ocorrerá mais tarde. A propriedade voltará a ser atravessada por
perseguições, deslocamentos rápidos, ciúmes e confusões até que, finalmente, um
disparo destinado ao mundo humano repita de maneira perturbadora algo que o
filme já havia mostrado no mundo dos animais. A correspondência não precisa ser
explicada porque foi construída visualmente. A morte que parecia integrada ao
divertimento aristocrático reaparece sob outra forma, e aquilo que antes podia
ser tratado como ritual passa a funcionar retrospectivamente como antecipação
da tragédia.
É durante a festa, porém, que Renoir leva mais longe sua
concepção de um cinema baseado na simultaneidade. Apresentações preparadas para
os convidados convivem com encontros amorosos, suspeitas, perseguições,
conversas particulares e equívocos que atravessam os mesmos ambientes.
Personagens entram e saem de quartos, passam por corredores, escondem-se,
procuram alguém e são procurados por outros, enquanto a câmera precisa decidir
continuamente qual fragmento daquela desordem acompanhar. A sensação de caos é paradoxalmente
resultado de uma encenação muito precisa, porque apenas uma rigorosa
organização dos movimentos poderia permitir que tantas ações coexistissem sem
tornar o filme incompreensível.
Essa sequência também revela por que a inovação de A
Regra do Jogo não deve ser reduzida à profundidade de campo. O que está em
jogo é uma concepção de mise-en-scène na qual profundidade, movimento de
câmera, arquitetura, deslocamento dos atores e duração dos planos trabalham
conjuntamente. Renoir compreende que uma cena não precisa ser construída apenas
pela alternância entre fragmentos escolhidos pela montagem, pois as relações
podem surgir dentro do próprio espaço cinematográfico. O espectador continua
orientado pelo filme, mas precisa participar mais ativamente da organização
daquilo que vê.
Há ainda outra instabilidade que torna essa experiência
particularmente desconcertante: a dificuldade de estabelecer uma fronteira
segura entre comédia e tragédia. Durante boa parte do filme, os mecanismos
narrativos pertencem à tradição da farsa. Amantes precisam esconder relações,
maridos encontram rivais, personagens surgem em momentos inconvenientes e
equívocos provocam perseguições que poderiam existir numa comédia perfeitamente
convencional. Renoir, entretanto, permite que esses mesmos mecanismos avancem
gradualmente em direção a consequências mais graves. O ciúme que inicialmente
provoca situações cômicas torna-se perigoso, a perseguição deixa de ser apenas
engraçada e o jogo de enganos termina produzindo uma morte.
Essa transformação é importante porque Renoir não anuncia
claramente quando devemos deixar de rir. A comédia não é interrompida para que
a tragédia comece; uma emerge da outra. A instabilidade tonal corresponde à
instabilidade moral do universo retratado, no qual personagens capazes de
gestos mesquinhos podem demonstrar generosidade e pessoas aparentemente
civilizadas podem produzir violência sem abandonar completamente as convenções
que organizam suas relações.
Uma frase pronunciada por Octave tornou-se uma espécie de
chave para compreender esse mundo: o terrível é que todos têm suas razões. Ela
sintetiza a recusa de Renoir em distribuir facilmente culpa e inocência. Robert
trai Christine, mas não é construído como um vilão; Christine participa dos
jogos afetivos daquele ambiente sem poder ser reduzida a vítima ou
manipuladora; Octave percebe as contradições dos outros enquanto permanece
incapaz de superar as próprias. Mesmo os personagens que praticam atos moralmente
condenáveis recebem espaço suficiente para que compreendamos as razões que os
conduziram até ali, o que evidentemente não significa que o filme procure
absolvê-los.
Existe uma correspondência profunda entre essa ambiguidade
moral e a maneira como Renoir organiza as imagens. Assim como o quadro pode
conter mais de um centro de interesse, os personagens podem conter mais de uma
verdade. A câmera que aceita a presença simultânea de diferentes ações parece
pertencer ao mesmo cineasta que resiste a reduzir seres humanos a definições
simples. Em ambos os casos, Renoir prefere preservar a complexidade das
relações a impor uma leitura única sobre elas.
É por isso que o título do filme adquire progressivamente
uma dimensão maior do que a simples referência aos jogos amorosos. A sociedade
observada por Renoir possui regras capazes de acomodar adultérios, mentiras,
amantes, rivalidades e humilhações, desde que determinadas convenções sejam
respeitadas. O problema não é necessariamente desejar a pessoa errada ou
enganar alguém, mas permitir que aquilo que deveria permanecer administrável
ameace a aparência de normalidade. Quando a tragédia finalmente ocorre, o grupo
demonstra uma extraordinária capacidade de absorvê-la, produzir uma explicação
aceitável e restabelecer a ordem.
A força da conclusão está justamente na ausência de qualquer
necessidade de transformar essa percepção em discurso explícito. Depois de tudo
o que vimos, compreendemos que a regra fundamental daquele jogo consiste em
preservar o próprio jogo. Pessoas podem sofrer, relações podem ser destruídas e
alguém pode morrer, mas a estrutura social precisa encontrar uma maneira de
continuar funcionando.
A importância histórica de A Regra do Jogo também
exige alguma cautela. Renoir não inventou sozinho a profundidade de campo, a
câmera móvel, os planos prolongados ou a narrativa construída em torno de
vários personagens, e apresentar o filme dessa maneira significaria transformar
um processo complexo da história do cinema numa sucessão artificial de
invenções individuais. O que torna a obra decisiva é a maneira como esses
elementos são articulados dentro de uma concepção coerente do espaço,
permitindo que personagens, acontecimentos e relações permaneçam
simultaneamente disponíveis ao olhar.
Poucos anos depois, Cidadão Kane, de Orson Welles,
transformaria a profundidade de campo em uma das características mais
reconhecidas de sua construção visual, enquanto outros cineastas
desenvolveriam, ao longo das décadas seguintes, diferentes formas de explorar
narrativas corais, planos de longa duração e espaços nos quais várias ações
competem pela atenção do público. A influência de Renoir não está, portanto, na
transmissão de uma fórmula que pudesse simplesmente ser reproduzida, mas na
demonstração de que o cinema podia confiar menos na fragmentação para organizar
o mundo e mais nas relações que surgem quando esse mundo permanece diante de
nós.
É nesse sentido que A Regra do Jogo representa um
verdadeiro ponto de partida. O filme não elimina a montagem, não abandona os
mecanismos narrativos clássicos e tampouco entrega ao espectador uma liberdade
absoluta para olhar onde quiser. O que faz é alterar o equilíbrio entre essas
forças. A câmera continua selecionando, a encenação continua orientando e a
narrativa continua construindo expectativas, mas o quadro passa a admitir uma
quantidade maior de acontecimentos, ambiguidades e relações simultâneas.
Ao assistir ao filme hoje, talvez seja justamente essa
característica que explique por que uma obra realizada em 1939 ainda pode
parecer surpreendentemente moderna. Renoir compreendeu que o espectador não
precisava receber o mundo cinematográfico inteiramente organizado em fragmentos
sucessivos. Poderia encontrar diante de si um espaço mais complexo, percorrê-lo
com os olhos, perceber acontecimentos laterais, estabelecer relações e
eventualmente descobrir alguma coisa que não ocupava o centro aparente da cena.
A Regra do Jogo não foi o momento em que o cinema
simplesmente deixou de conduzir nosso olhar. Foi algo mais sutil e, por isso
mesmo, mais importante: um momento em que o cinema demonstrou que podia
continuar conduzindo esse olhar sem precisar determinar, a cada instante, que
existia apenas uma coisa digna de ser vista.