O DIA EM QUE O BRASIL GANHOU CANNES
Em 1962, Anselmo Duarte chegou em Cannes
concorrendo com alguns dos maiores cineastas do mundo. Voltou para casa
com a Palma de Ouro.
A história começa com um sujeito que o público brasileiro
conhecia muito mais pelo rosto do que pela câmera.
Anselmo Duarte havia sido um dos grandes galãs do cinema nacional. Trabalhara na Atlântida, passara pela Vera Cruz e fizera dezenas de filmes como ator. Quando resolveu dirigir O Pagador de Promessas, estava apenas em seu segundo longa-metragem como diretor.
E não escolheu exatamente um projeto pequeno.
A história vinha de uma peça de Dias Gomes que havia feito
enorme sucesso no teatro. Zé do Burro, um homem simples do interior da Bahia,
faz uma promessa para salvar seu animal. Quando o burro melhora, ele coloca uma
enorme cruz nos ombros e segue até Salvador para depositá-la diante da igreja
de Santa Bárbara.
O problema é que a promessa havia sido feita em um terreiro
de candomblé.
Quando o padre descobre isso, recusa-se a deixar Zé do Burro
entrar na igreja.
A partir daí, aquilo que parecia apenas a história de um
homem tentando cumprir sua palavra transforma-se numa confusão envolvendo
religião, intolerância, imprensa, política e interesses de todo tipo. E Anselmo
Duarte percebeu que tinha nas mãos uma história profundamente brasileira.
Só faltava conseguir filmá-la.
As filmagens aconteceram em Salvador e não foram exatamente tranquilas. Havia dificuldades financeiras, equipamentos pesados e boa parte da história precisava ser rodada nas escadarias da Igreja do Santíssimo Sacramento do Passo.
Segundo relato posterior de Anselmo Duarte Jr., em
determinado momento faltou dinheiro até para pagar a hospedagem da equipe. A
solução foi realizar um documentário para a Secretaria de Turismo da Bahia e
usar o pagamento para manter a produção funcionando.
Não parece exatamente a preparação de um filme que estava a
caminho do maior prêmio do cinema mundial.
Mas estava.
Quando O Pagador de Promessas ficou pronto, o filme
foi selecionado para o Festival de Cannes de 1962.
E basta olhar para alguns dos concorrentes para entender o tamanho da encrenca.
Michelangelo Antonioni estava lá com O Eclipse.
Robert Bresson concorria com O Processo de Joana d'Arc.
Luis Buñuel apresentava O Anjo Exterminador.
Anselmo Duarte chegava com O Pagador de Promessas.
Hoje sabemos o que aconteceu. Naquele momento, não havia
nenhuma razão para imaginar que terminaria assim.
Antonioni e Bresson dividiram o Prêmio Especial do Júri.
E a Palma de Ouro foi para o Brasil.
Anselmo Duarte havia feito algo que nenhum cineasta
brasileiro conseguira antes. Mais surpreendente é o que aconteceu depois.
Ninguém conseguiu novamente.
Mais de seis décadas se passaram e O Pagador de Promessas
continua sendo o único longa-metragem brasileiro vencedor da Palma de Ouro.
Mas existe uma ironia nessa história.
Naquele mesmo começo dos anos 1960, outro cinema estava nascendo no Brasil. Nelson Pereira dos Santos já havia levado sua câmera para as ruas em Rio, 40 Graus. Glauber Rocha lançava Barravento. Ruy Guerra, Carlos Diegues, Joaquim Pedro de Andrade, Leon Hirszman e outros cineastas começavam a construir aquilo que seria conhecido como Cinema Novo.
Eles queriam romper com muitas das convenções que O
Pagador de Promessas ainda preservava.
Poucos anos depois, Vidas Secas, Deus e o Diabo na
Terra do Sol e Os Fuzis fariam o mundo olhar novamente para o cinema
brasileiro.
Mas a Palma não voltou.
E talvez seja justamente isso que torne a história de O
Pagador de Promessas tão interessante.
O filme brasileiro que chegou mais alto em Cannes não nasceu
como síntese de um movimento revolucionário nem foi dirigido por um cineasta
que se tornaria símbolo internacional do nosso cinema.
Foi realizado por um antigo galã, em seu segundo longa como
diretor, enfrentou dificuldades para ser concluído e contou uma história que
dificilmente poderia acontecer em outro lugar.
Zé do Burro só queria cumprir uma promessa.
Acabou levando o cinema brasileiro até o topo de Cannes.
A HISTÓRIA CONTINUA NA BIBLIOTECA
Enquanto O Pagador de Promessas conquistava Cannes,
outra transformação estava acontecendo no cinema brasileiro.
Nelson Pereira dos Santos havia levado a câmera para as ruas. Glauber Rocha, Ruy Guerra e uma nova geração começavam a procurar outras maneiras de filmar o país. Em poucos anos, o Brasil que aparecia nas telas já não seria o mesmo.
QUANDO O CINEMA DECIDIU OLHAR PARA O BRASIL | anos
1950–1960