O que aconteceu com Deus em seus filmes?
Ingmar Bergman cresceu em uma casa na qual Deus não era uma ideia abstrata. Seu pai era pastor luterano, e religião, disciplina, culpa e autoridade fizeram parte de sua formação desde a infância. Bergman se afastaria daquele universo quando adulto, mas não conseguiria, nem parece ter desejado, afastá-lo imediatamente de seu cinema. Durante anos, seus filmes continuaram voltando a uma questão que sua educação religiosa havia deixado em aberto: o que acontece quando precisamos acreditar e não conseguimos encontrar uma resposta?
ANTES DOS FILMES: A RELIGIÃO COMO HERANÇA
Essa diferença é fundamental. Bergman não levou para o
cinema uma fé consolidada que desejava transmitir ao espectador. Levou uma
relação conflituosa com aquilo que aprendera a acreditar.
PRIMEIRA FASE: ONDE ESTÁ DEUS?
Em O Sétimo Selo, de 1957, essa inquietação ganha sua
representação mais conhecida. O cavaleiro Antonius Block retorna das Cruzadas e
encontra uma Europa devastada pela peste. Diante da proximidade da morte, não
procura simplesmente escapar. Quer uma certeza sobre a existência de Deus.
A famosa partida de xadrez contém uma ironia que ajuda a
compreender Bergman naquele momento. A Morte aparece diante do cavaleiro,
conversa com ele e aceita seu desafio. Deus, justamente aquele que Block
procura, permanece invisível.
Nos filmes desse período, a questão religiosa ainda admite a
possibilidade de uma resposta. Há dúvida, mas existe também procura. Deus
permanece como uma hipótese com a qual os personagens precisam se confrontar.
A MUDANÇA: E SE NÃO HOUVER RESPOSTA?
Poucos anos depois, a perspectiva se torna mais radical. Como
num Espelho, Luz de Inverno e O Silêncio, realizados entre
1961 e 1963, acompanham uma transformação decisiva.
Em Luz de Inverno, Bergman escolhe como protagonista
justamente um pastor. Tomas deveria oferecer aos outros a segurança da fé, mas
já não consegue encontrá-la dentro de si mesmo. O problema deixou de ser apenas
descobrir se Deus existe. Agora é preciso considerar a possibilidade de que
nenhuma resposta venha.
Em seguida chega O Silêncio. O próprio título parece
indicar o ponto a que Bergman havia chegado.
O silêncio de Deus não encerra sua investigação. Ele muda
sua direção.
DEPOIS DE DEUS: O OUTRO
Quando a resposta divina deixa de ocupar o centro de seus
filmes, Bergman aproxima ainda mais a câmera dos seres humanos. As perguntas
permanecem, mas passam a ser dirigidas às relações entre as pessoas.
É possível conhecer verdadeiramente alguém? O amor consegue
romper a solidão? Quanto de nossa identidade é autêntico e quanto é
representação? Por que pessoas que convivem intimamente podem permanecer tão
distantes?
Persona, Gritos e Sussurros, Cena de um
Casamento e Sonata de Outono pertencem a momentos diferentes, mas
revelam essa mudança de perspectiva. Bergman já não precisa colocar um homem
diante da Morte para investigar sua existência. Pode colocar uma mulher diante
de outra, um marido diante da esposa ou uma filha diante da mãe.
Por isso, talvez seja simplificador perguntar se Bergman
finalmente acreditava ou não em Deus. Seus filmes revelam uma trajetória mais
interessante. A religião lhe forneceu algumas das primeiras grandes perguntas
de sua obra, a dúvida retirou delas as respostas disponíveis e o silêncio abriu
um novo território.
Depois de procurar durante anos uma resposta em Deus,
Bergman voltou a câmera para aquilo que restava diante dele: o ser humano.
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