FILMOTECA - Revista de Cinema: Pág. 10


INGMAR BERGMAN

O que aconteceu com Deus em seus filmes?




Ingmar Bergman cresceu em uma casa na qual Deus não era uma ideia abstrata. Seu pai era pastor luterano, e religião, disciplina, culpa e autoridade fizeram parte de sua formação desde a infância. Bergman se afastaria daquele universo quando adulto, mas não conseguiria, nem parece ter desejado, afastá-lo imediatamente de seu cinema. Durante anos, seus filmes continuaram voltando a uma questão que sua educação religiosa havia deixado em aberto: o que acontece quando precisamos acreditar e não conseguimos encontrar uma resposta?

ANTES DOS FILMES: A RELIGIÃO COMO HERANÇA

A infância de Bergman forneceu um repertório que permaneceria reconhecível durante grande parte de sua carreira. Igrejas, pastores, pecado, culpa, punição, morte e a possibilidade de uma presença divina reaparecem em diferentes contextos. Isso não significa, porém, que seus filmes sejam propriamente religiosos. A formação cristã ofereceu ao cineasta principalmente uma linguagem para formular perguntas que progressivamente se tornariam menos religiosas e mais existenciais.

Essa diferença é fundamental. Bergman não levou para o cinema uma fé consolidada que desejava transmitir ao espectador. Levou uma relação conflituosa com aquilo que aprendera a acreditar.

PRIMEIRA FASE: ONDE ESTÁ DEUS?

Em O Sétimo Selo, de 1957, essa inquietação ganha sua representação mais conhecida. O cavaleiro Antonius Block retorna das Cruzadas e encontra uma Europa devastada pela peste. Diante da proximidade da morte, não procura simplesmente escapar. Quer uma certeza sobre a existência de Deus.

A famosa partida de xadrez contém uma ironia que ajuda a compreender Bergman naquele momento. A Morte aparece diante do cavaleiro, conversa com ele e aceita seu desafio. Deus, justamente aquele que Block procura, permanece invisível.

Nos filmes desse período, a questão religiosa ainda admite a possibilidade de uma resposta. Há dúvida, mas existe também procura. Deus permanece como uma hipótese com a qual os personagens precisam se confrontar.

A MUDANÇA: E SE NÃO HOUVER RESPOSTA?

Poucos anos depois, a perspectiva se torna mais radical. Como num Espelho, Luz de Inverno e O Silêncio, realizados entre 1961 e 1963, acompanham uma transformação decisiva.

Em Luz de Inverno, Bergman escolhe como protagonista justamente um pastor. Tomas deveria oferecer aos outros a segurança da fé, mas já não consegue encontrá-la dentro de si mesmo. O problema deixou de ser apenas descobrir se Deus existe. Agora é preciso considerar a possibilidade de que nenhuma resposta venha.

Em seguida chega O Silêncio. O próprio título parece indicar o ponto a que Bergman havia chegado.

O silêncio de Deus não encerra sua investigação. Ele muda sua direção.

DEPOIS DE DEUS: O OUTRO

Quando a resposta divina deixa de ocupar o centro de seus filmes, Bergman aproxima ainda mais a câmera dos seres humanos. As perguntas permanecem, mas passam a ser dirigidas às relações entre as pessoas.

É possível conhecer verdadeiramente alguém? O amor consegue romper a solidão? Quanto de nossa identidade é autêntico e quanto é representação? Por que pessoas que convivem intimamente podem permanecer tão distantes?

Persona, Gritos e Sussurros, Cena de um Casamento e Sonata de Outono pertencem a momentos diferentes, mas revelam essa mudança de perspectiva. Bergman já não precisa colocar um homem diante da Morte para investigar sua existência. Pode colocar uma mulher diante de outra, um marido diante da esposa ou uma filha diante da mãe.

Por isso, talvez seja simplificador perguntar se Bergman finalmente acreditava ou não em Deus. Seus filmes revelam uma trajetória mais interessante. A religião lhe forneceu algumas das primeiras grandes perguntas de sua obra, a dúvida retirou delas as respostas disponíveis e o silêncio abriu um novo território.

Depois de procurar durante anos uma resposta em Deus, Bergman voltou a câmera para aquilo que restava diante dele: o ser humano.

Leia Repertório de Autores: Ingmar Bergman na BIBLIOTECA DA FILMOTECA.