FILMOTECA - Revista de Cinema: Pág. 9
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7 FILMES B QUE SE TORNARAM CLÁSSICOS

Quando a segunda atração conquistou seu próprio lugar na história do cinema.



Hoje, “filme B” costuma ser entendido como sinônimo de produção barata, efeitos modestos ou cinema de gênero. A expressão, porém, nasceu com um significado mais preciso. Durante a era dos programas duplos, especialmente nas décadas de 1930 e 1940, o público americano frequentemente comprava um ingresso para assistir a dois filmes. Um deles ocupava o centro da sessão. O outro completava o programa.

O filme A recebia os principais investimentos do estúdio, estrelas conhecidas, maior orçamento e mais publicidade. Era a atração que deveria levar o espectador ao cinema.

O filme B ocupava uma posição inferior nessa hierarquia. Precisava custar menos, ser produzido rapidamente e cumprir sua função comercial sem exigir os recursos reservados às grandes produções. O B, portanto, não era uma nota dada à qualidade do filme.

E foi justamente nessa região menos prestigiosa de Hollywood que nasceram obras que o tempo trataria de maneira muito diferente daquela imaginada por seus produtores.

 

Quando a limitação virou linguagem

Em Sangue de Pantera (1942), Jacques Tourneur e o produtor Val Lewton trabalhavam em uma unidade criada pela RKO para realizar filmes de terror baratos. Sem recursos para transformar a ameaça em espetáculo, fizeram daquilo que não mostravam o princípio do filme. Sombras, ruídos e espaços fora do enquadramento passaram a alimentar a imaginação do espectador. Uma necessidade econômica ajudava a produzir uma nova forma de criar medo.

Curva do Destino (1945) nasceu ainda mais distante do centro de Hollywood. Edgar G. Ulmer realizou o filme para a Producers Releasing Corporation, uma das pequenas companhias da chamada Poverty Row. Poucos cenários, elenco sem grandes estrelas e recursos mínimos poderiam condená-lo ao esquecimento. Em vez disso, sua precariedade tornou-se parte de uma atmosfera sufocante que faria do filme uma referência do noir.

O mesmo princípio aparece de outra maneira em Mortalmente Perigosa (1950). Joseph H. Lewis transforma um assalto filmado quase inteiramente de dentro de um automóvel em uma demonstração de como uma solução econômica também pode ser uma solução cinematográfica. Hoje preservado pelo National Film Registry americano, o filme ocupa uma posição na história muito superior àquela que sua origem industrial poderia sugerir.

Quando o B sobrevive ao A

Talvez o exemplo mais curioso seja Rumo ao Inferno (1952), de Richard Fleischer. Realizado com orçamento reduzido, o thriller transforma os corredores e compartimentos de um trem em elementos fundamentais de sua tensão.

Em seu lançamento, porém, ele não era a principal atração. Em um programa duplo, essa posição pertencia a Tembo, documentário de aventura filmado na África. Sete décadas depois, a hierarquia praticamente se inverteu. O filme de Fleischer permanece estudado e celebrado como uma das realizações mais inventivas do noir americano, enquanto a antiga atração principal é muito menos lembrada.

A programação dizia ao espectador qual era o filme importante. A história do cinema chegou a outra conclusão.

 

Os gêneros encontraram espaço no B

O baixo orçamento favorecia especialmente histórias capazes de funcionar sem grandes estrelas ou cenários monumentais.

Em O Mundo Odeia-me (1953), Ida Lupino precisa basicamente de três homens, um automóvel e uma paisagem desértica para construir um thriller claustrofóbico sobre dois viajantes mantidos como reféns por um assassino. Em 1998, o filme também seria selecionado para preservação pelo National Film Registry.

A ficção científica encontrou terreno semelhante. Vampiros de Almas (1956), de Don Siegel, circulou em programas duplos como mais uma produção de gênero sobre uma invasão extraterrestre. Mas sua história de habitantes de uma pequena cidade substituídos por cópias desprovidas de emoção começou a provocar interpretações muito maiores do que sua posição original na programação.

Comunismo, anticomunismo, conformismo, perda da individualidade e ansiedades da Guerra Fria passaram a fazer parte das leituras de um filme que poderia simplesmente ter desaparecido junto com dezenas de outras ficções científicas baratas dos anos 1950.

 

O sistema mudou. O espírito continuou.

Quando Roger Corman realizou A Loja dos Horrores (1960), a estrutura clássica que havia produzido a distinção entre A e B já estava em transformação. Sua lógica econômica, entretanto, continuava funcionando.

Corman aproveitou cenários que permaneceriam montados por pouco tempo, trabalhou com cerca de 30 mil dólares e realizou grande parte das cenas internas em aproximadamente dois dias. O resultado foi uma comédia de horror sobre uma planta que exige ser alimentada com seres humanos.

O filme foi usado como segunda atração em programas duplos e, em uma de suas circulações, acompanhou Black Sunday, de Mario Bava. Dessa vez, aconteceu algo ainda mais curioso: os dois sobreviveram.

O filme de Bava tornou-se um clássico do horror italiano. O pequeno B de Corman conquistou reputação cult, chegou à televisão, transformou-se em musical e voltou ao cinema em uma nova adaptação em 1986.

O antigo sistema B estava desaparecendo. A ideia de fazer cinema rapidamente, com pouco dinheiro e muita invenção, não desapareceria com ele.

QUEM DECIDE O QUE É UM CLÁSSICO?

Nem todo filme B escondia uma obra-prima. A imensa maioria cumpriu sua função comercial e acabou esquecida. Mas os sobreviventes revelam algo que ultrapassa a história dos programas duplos.

Orçamento, publicidade, estrelas e posição privilegiada no mercado ajudam a determinar quais filmes recebem atenção no presente. Não conseguem determinar quais continuarão importantes no futuro.

Em 1952, o cartaz podia informar ao espectador que Tembo era a atração principal e Rumo ao Inferno o complemento. Naquela noite, havia um filme A e um filme B. O tempo não respeitou a ordem da sessão.

Talvez porque, quando as luzes se apagam, a letra colocada pela indústria diante de um filme deixe de ser tão importante quanto aquilo que aparece na tela.

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