Hoje, “filme B” costuma ser entendido como sinônimo de
produção barata, efeitos modestos ou cinema de gênero. A expressão, porém,
nasceu com um significado mais preciso. Durante a era dos programas duplos,
especialmente nas décadas de 1930 e 1940, o público americano frequentemente
comprava um ingresso para assistir a dois filmes. Um deles ocupava o centro da
sessão. O outro completava o programa.
O filme B ocupava uma posição inferior nessa
hierarquia. Precisava custar menos, ser produzido rapidamente e cumprir sua
função comercial sem exigir os recursos reservados às grandes produções. O B,
portanto, não era uma nota dada à qualidade do filme.
E foi justamente nessa região menos prestigiosa de Hollywood
que nasceram obras que o tempo trataria de maneira muito diferente daquela
imaginada por seus produtores.
Quando a limitação virou linguagem
Em Sangue de Pantera (1942), Jacques Tourneur e o
produtor Val Lewton trabalhavam em uma unidade criada pela RKO para realizar
filmes de terror baratos. Sem recursos para transformar a ameaça em espetáculo,
fizeram daquilo que não mostravam o princípio do filme. Sombras, ruídos e
espaços fora do enquadramento passaram a alimentar a imaginação do espectador.
Uma necessidade econômica ajudava a produzir uma nova forma de criar medo.
Curva do Destino (1945) nasceu ainda mais distante do
centro de Hollywood. Edgar G. Ulmer realizou o filme para a Producers Releasing
Corporation, uma das pequenas companhias da chamada Poverty Row. Poucos
cenários, elenco sem grandes estrelas e recursos mínimos poderiam condená-lo ao
esquecimento. Em vez disso, sua precariedade tornou-se parte de uma atmosfera
sufocante que faria do filme uma referência do noir.
O mesmo princípio aparece de outra maneira em Mortalmente
Perigosa (1950). Joseph H. Lewis transforma um assalto filmado quase
inteiramente de dentro de um automóvel em uma demonstração de como uma solução
econômica também pode ser uma solução cinematográfica. Hoje preservado pelo
National Film Registry americano, o filme ocupa uma posição na história muito
superior àquela que sua origem industrial poderia sugerir.
Quando o B sobrevive ao A
Talvez o exemplo mais curioso seja Rumo ao Inferno
(1952), de Richard Fleischer. Realizado com orçamento reduzido, o thriller
transforma os corredores e compartimentos de um trem em elementos fundamentais
de sua tensão.
Em seu lançamento, porém, ele não era a principal atração.
Em um programa duplo, essa posição pertencia a Tembo, documentário de
aventura filmado na África. Sete décadas depois, a hierarquia praticamente se
inverteu. O filme de Fleischer permanece estudado e celebrado como uma das
realizações mais inventivas do noir americano, enquanto a antiga atração
principal é muito menos lembrada.
A programação dizia ao espectador qual era o filme
importante. A história do cinema chegou a outra conclusão.
Os gêneros encontraram espaço no B
O baixo orçamento favorecia especialmente histórias capazes
de funcionar sem grandes estrelas ou cenários monumentais.
Em O Mundo Odeia-me (1953), Ida Lupino precisa
basicamente de três homens, um automóvel e uma paisagem desértica para
construir um thriller claustrofóbico sobre dois viajantes mantidos como reféns
por um assassino. Em 1998, o filme também seria selecionado para preservação
pelo National Film Registry.
A ficção científica encontrou terreno semelhante. Vampiros
de Almas (1956), de Don Siegel, circulou em programas duplos como mais uma
produção de gênero sobre uma invasão extraterrestre. Mas sua história de
habitantes de uma pequena cidade substituídos por cópias desprovidas de emoção
começou a provocar interpretações muito maiores do que sua posição original na
programação.
Comunismo, anticomunismo, conformismo, perda da
individualidade e ansiedades da Guerra Fria passaram a fazer parte das leituras
de um filme que poderia simplesmente ter desaparecido junto com dezenas de
outras ficções científicas baratas dos anos 1950.
O sistema mudou. O espírito continuou.
Quando Roger Corman realizou A Loja dos Horrores
(1960), a estrutura clássica que havia produzido a distinção entre A e B já
estava em transformação. Sua lógica econômica, entretanto, continuava
funcionando.
Corman aproveitou cenários que permaneceriam montados por
pouco tempo, trabalhou com cerca de 30 mil dólares e realizou grande parte das
cenas internas em aproximadamente dois dias. O resultado foi uma comédia de
horror sobre uma planta que exige ser alimentada com seres humanos.
O filme foi usado como segunda atração em programas duplos
e, em uma de suas circulações, acompanhou Black Sunday, de Mario Bava. Dessa
vez, aconteceu algo ainda mais curioso: os dois sobreviveram.
O filme de Bava tornou-se um clássico do horror italiano. O
pequeno B de Corman conquistou reputação cult, chegou à televisão,
transformou-se em musical e voltou ao cinema em uma nova adaptação em 1986.
O antigo sistema B estava desaparecendo. A ideia de fazer
cinema rapidamente, com pouco dinheiro e muita invenção, não desapareceria com
ele.
QUEM DECIDE O QUE É UM CLÁSSICO?
Nem todo filme B escondia uma obra-prima. A imensa maioria
cumpriu sua função comercial e acabou esquecida. Mas os sobreviventes revelam
algo que ultrapassa a história dos programas duplos.
Orçamento, publicidade, estrelas e posição privilegiada no
mercado ajudam a determinar quais filmes recebem atenção no presente. Não
conseguem determinar quais continuarão importantes no futuro.
Em 1952, o cartaz podia informar ao espectador que Tembo
era a atração principal e Rumo ao Inferno o complemento. Naquela noite,
havia um filme A e um filme B. O tempo não respeitou a ordem da sessão.
Talvez porque, quando as luzes se apagam, a letra colocada
pela indústria diante de um filme deixe de ser tão importante quanto aquilo que
aparece na tela.
O ensaio completo está na BIBLIOTECA DA FILMOTECA