FILMOTECA - Revista de Cinema: Pág. 8


ENTRE O ENIGMA E A CURA

BLOCO 5 - Quando o sujeito se transforma — sem se resolver totalmente.



O último movimento da travessia.

Entre o Enigma e a Cura chega ao seu quinto movimento depois de acompanhar um percurso que começou com a perda das referências. O sujeito se perdeu quando identidade e realidade deixaram de coincidir; percebeu depois que seu sofrimento possuía uma lógica, porque determinados comportamentos e conflitos retornavam; encontrou na palavra uma possibilidade de elaboração; e descobriu, no vínculo com o outro, que a transformação não acontece necessariamente em isolamento. O último bloco reúne essas experiências, mas recusa uma conclusão confortável: depois de tudo isso, o sujeito não chega a um lugar em que finalmente se encontra resolvido.

É justamente nessa recusa que se completa a proposta da mostra. O título Entre o Enigma e a Cura nunca prometeu conduzir de um ponto ao outro como se o primeiro pudesse desaparecer quando o segundo fosse alcançado. O que está entre ambos é mais importante: um território em que compreender não significa explicar tudo, elaborar não significa apagar o sofrimento e transformar-se não significa tornar-se outra pessoa. O ponto de chegada é mais sutil. O enigma permanece, mas a relação com ele pode mudar.

Os cinco filmes deste bloco exploram diferentes possibilidades dessa transformação incompleta. Nenhum apresenta a cura como restauração de um estado anterior. Seus personagens carregam perdas, memórias, desejos e experiências que não podem simplesmente ser eliminados. O que muda é a maneira como passam a habitá-los. Por isso, a progressão da curadoria parte de uma alteração quase imperceptível produzida pelo encontro, atravessa a tentativa de controlar aquilo que causa sofrimento, chega à aceitação do vazio, permite que o afeto volte a circular e termina com um gesto no qual transformar-se significa aceitar que seguir adiante talvez exija também uma renúncia.

Em Encontros e Desencontros, Sofia Coppola começa pela forma mais delicada dessa possibilidade. Bob e Charlotte encontram-se em um momento de suspensão, deslocados não apenas geograficamente, mas também em relação às próprias vidas. Nenhum dos dois oferece ao outro respostas definitivas, e o vínculo que estabelecem tampouco precisa transformar-se em algo permanente para adquirir importância. Alguma coisa acontece naquele encontro e deixa vestígios. A experiência não se organiza como revelação capaz de explicar o que cada um deve fazer a partir dali; produz apenas uma mudança de posição. Eles talvez não compreendam inteiramente o que viveram, mas já não são exatamente os mesmos.

Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças coloca essa questão diante de uma fantasia muito mais radical: e se pudéssemos eliminar aquilo que nos faz sofrer? Joel e Clementine transformam o desejo de esquecer em procedimento concreto, mas o filme desmonta justamente a equivalência entre apagar e transformar. Se as lembranças dolorosas pertencem à experiência que nos constituiu, suprimi-las não resolve necessariamente aquilo que lhes deu origem. Michel Gondry e Charlie Kaufman fazem da memória um território no qual amor e sofrimento não podem ser separados com a precisão desejada. A possibilidade de seguir não nasce da eliminação do passado, mas da aceitação de que qualquer nova escolha continuará carregando a vulnerabilidade que gostaríamos de evitar.

Em Nomadland, a transformação já não passa pela tentativa de recuperar o que foi perdido. Fern não reconstrói a vida anterior nem encontra um substituto capaz de preencher seu vazio. Ela aprende a habitá-lo. O movimento permanente que organiza sua existência poderia ser interpretado como fuga, mas o filme o apresenta como uma forma possível de permanência no mundo. Há perdas que não são superadas no sentido convencional da palavra; tornam-se parte da paisagem interior com a qual será necessário continuar vivendo. A transformação ocorre quando essa ausência deixa de exigir uma reparação impossível.


A Liberdade é Azul radicaliza essa ideia. Depois da perda, Julie tenta reduzir sua existência ao mínimo, desfazendo vínculos e recusando tudo aquilo que poderia reconectá-la ao passado. Mas o afeto retorna. A música, as pessoas e as marcas da experiência resistem à tentativa de isolamento. Krzysztof Kieślowski não transforma esse retorno em promessa de recomposição completa. Julie não recupera a vida anterior nem encontra uma identidade inteiramente nova. O deslocamento é menos espetacular: aquilo que havia sido interrompido volta a circular. O filme sugere, assim, que liberdade talvez não seja viver sem aquilo que nos prende ao passado, mas conseguir estabelecer outra relação com o que permanece dele.

A mostra encontra seu ponto final em Paris, Texas. Travis percorreu literalmente uma longa distância antes de conseguir narrar aquilo que aconteceu, mas a palavra não produz a reintegração que uma narrativa convencional poderia oferecer. Ele consegue agir sobre a história, aproximando novamente o filho e a mãe, porém não ocupa o lugar que esse gesto parece abrir. Sua transformação não se manifesta pelo retorno à família, mas pela capacidade de fazer algo que antes não conseguia e aceitar as consequências desse gesto. Ele se aproxima para depois se retirar. A mudança existe, embora não tenha a forma da reconciliação.

A sequência dos cinco filmes esclarece por que esta mostra termina sem oferecer uma imagem tradicional de cura. Em todos eles, alguma coisa permanece irresolvida. O encontro não se torna necessariamente permanência; a memória não pode ser higienizada sem perda; o luto não desaparece; o afeto retorna apesar da tentativa de suprimi-lo; a compreensão não garante reconciliação. Ainda assim, nenhuma dessas histórias termina exatamente no lugar em que começou.

É nesse intervalo que Entre o Enigma e a Cura encontra seu verdadeiro ponto de chegada. Transformar-se talvez não seja solucionar definitivamente aquilo que nos atravessa, mas deixar de estar submetido a isso da mesma maneira. O passado permanece passado, a falta continua existindo e certas perguntas conservam sua opacidade, mas algo na relação do sujeito com tudo isso pode se deslocar.

A travessia, portanto, não conduz da doença à saúde, da confusão à certeza ou do sofrimento à ausência de sofrimento. Ela percorre um caminho menos linear: perder-se, repetir, falar, relacionar-se e transformar-se. Ao final, o enigma não desaparece para dar lugar à cura. Os dois permanecem em tensão. E talvez seja justamente nesse espaço intermediário — onde nem tudo se explica, mas alguma coisa se torna novamente possível — que a vida encontra uma maneira de continuar.


Leia os 5 blocos da mostra O ENIGMA E A CURA na BIBLIOTECA DA FILMOTECA.