CHARLIZE THERON
Quando Monster transformou em obstáculo aquilo que Hollywood havia transformado em vantagem.
No início dos anos 2000, Charlize Theron já havia conseguido
algo que milhares de jovens atrizes perseguiam em Hollywood. Era conhecida,
trabalhava regularmente em grandes produções e havia dividido a tela com nomes
como Al Pacino, Keanu Reeves, Johnny Depp e Tobey Maguire. Advogado do Diabo,
Regras da Vida, Homens de Honra e Uma Saída de Mestre
haviam ajudado a consolidar sua presença na indústria. Havia, porém, uma
contradição naquela ascensão: quanto mais Hollywood reconhecia Theron como
estrela, mais parecia saber exatamente o que fazer com sua beleza e menos
parecia interessada em descobrir até onde ela poderia chegar como atriz. Anos
depois, ela própria recordaria o incômodo com uma indústria na qual decisões
sobre roupas e aparência frequentemente eram tomadas para acentuar sua
sexualidade.
Foi justamente essa imagem que chamou a atenção de Patty Jenkins por uma razão inesperada. Ao preparar seu primeiro longa-metragem, a diretora queria contar a história de Aileen Wuornos, prostituta condenada por uma série de assassinatos de homens na Flórida e executada em 2002. Theron parecia, à primeira vista, uma escolha improvável. Jenkins, entretanto, havia percebido em sua atuação em Advogado do Diabo uma intensidade que os papéis posteriores raramente exploravam. Para a diretora, por trás da aparência que Hollywood utilizava como principal atributo comercial existiam dureza, vulnerabilidade e agressividade capazes de sustentar Aileen. Theron inicialmente chegou a duvidar da escolha. Jenkins não.
A transformação física de Monster se tornaria tão
célebre que acabaria criando uma explicação simplificada para o que aconteceu.
Theron ganhou peso, usou dentes protéticos, lentes de contato e maquiagem que
reproduzia uma pele marcada. Mas reduzir sua interpretação a uma atriz bonita
que aceitou parecer pouco atraente é perder justamente o aspecto mais
importante do processo. A própria Theron explicou que o ganho de peso não
nasceu de uma decisão de simplesmente “engordar” para impressionar o público.
Ao pesquisar Wuornos, percebeu a relação conflituosa daquela mulher com o
próprio corpo e concluiu que sua constituição atlética a afastaria fisicamente
da personagem. A mudança precisava alterar a maneira de ocupar o espaço, andar,
sentar, falar e olhar.
Por isso, o rosto que surpreendeu o público era apenas a
superfície de uma transformação muito mais profunda. Theron modificou postura,
gestos e voz, projetando o corpo para a frente e criando uma presença
simultaneamente agressiva e defensiva. Roger Ebert escreveu que o resultado
ultrapassava o disfarce e descreveu a atuação como uma verdadeira incorporação
da personagem. O que desaparecia em Monster não era apenas a beleza
cuidadosamente explorada pelos filmes anteriores, mas o conjunto de sinais
pelos quais o público havia aprendido a reconhecer Charlize Theron.
Há ainda um aspecto menos conhecido que torna Monster
particularmente importante para compreender sua carreira. Theron não se limitou
a interpretar Aileen Wuornos. Ela também participou da produção do filme e
ajudou a proteger a visão de Jenkins. Segundo a atriz, alguns financiadores
tinham expectativas bastante diferentes para o projeto e reagiram negativamente
à transformação física que estava sendo construída. Theron posteriormente
relacionaria aquela experiência à necessidade de conquistar maior controle
sobre seu próprio trabalho. Sua produtora, Denver & Delilah, nasceu naquele
período, e Monster tornou-se também uma experiência decisiva na passagem
da atriz para uma posição de maior participação nas decisões criativas.
Isso torna a história mais interessante do que a conhecida
narrativa da estrela que se torna irreconhecível para conquistar prestígio. Em Monster,
Theron estava confrontando um mecanismo que havia ajudado a construir sua
própria carreira. A beleza lhe abrira portas, mas também começara a determinar
quais portas continuariam disponíveis. Para provar que poderia ocupar outro
espaço, não bastava escolher um papel dramático. Era necessário fazer com que o
espectador deixasse de enxergar aquilo que Hollywood havia passado anos
ensinando-o a enxergar primeiro.
O impacto foi imediato. Monster, realizado como uma
produção independente de orçamento modesto e inicialmente recusado pelos
grandes estúdios para distribuição, transformou a percepção crítica sobre
Theron. Sua interpretação recebeu diversos prêmios e culminou no Oscar de
Melhor Atriz em 2004. Mais importante para sua trajetória, a discussão em torno
dela já não podia permanecer restrita à condição de estrela glamourosa.
O paradoxo é que Theron não precisou abandonar
definitivamente aquela imagem. Depois de Monster, continuaria
interpretando personagens fisicamente atraentes, protagonizaria filmes de ação,
blockbusters e produções nas quais sua aparência voltaria a fazer parte da
construção da personagem. O que havia mudado era outra coisa: a beleza
deixara de estabelecer sozinha os limites de sua carreira.