Quando a segunda atração conquistou seu próprio lugar na
história do cinema
Hoje, chamar um filme de “B” pode sugerir orçamento pequeno,
efeitos modestos, atores pouco conhecidos, gêneros populares ou até certa
precariedade assumida como estilo. Mas a expressão nasceu com um significado
mais concreto. Durante uma parte importante da história de Hollywood, o filme B
ocupava uma posição dentro da própria organização da indústria e das salas de
cinema.
O filme A era aquele em que o estúdio concentrava seus
principais recursos. Tinha orçamento maior, estrelas conhecidas, mais tempo de
produção e uma campanha publicitária proporcional à sua importância. Era, em
princípio, o filme que deveria convencer o espectador a comprar o ingresso.
O filme B cumpria outra função. Produzido por menos dinheiro
e geralmente em menos tempo, ajudava a completar o programa. Westerns,
policiais, mistérios, filmes de terror e, posteriormente, ficção científica
encontraram nesse espaço um terreno particularmente fértil.
A letra B, portanto, não era uma nota.
Um filme B não precisava ser um filme ruim. Era, antes de
tudo, uma produção situada em uma posição menos prestigiosa da cadeia
cinematográfica.
Essa diferença ajuda a compreender uma das ironias mais
interessantes da história do cinema. Muitos filmes A, cercados de expectativas
em seu lançamento, desapareceram progressivamente da memória. Alguns Bs,
realizados como produtos secundários, sobreviveram, foram redescobertos e hoje
fazem parte da história dos gêneros e da própria linguagem cinematográfica.
Em alguns casos, o tempo praticamente inverteu a ordem da
sessão.
1. SANGUE DE PANTERA (1942)
Cat People - Jacques Tourneur
No início dos anos 1940, a RKO precisava produzir filmes de
terror capazes de competir com o sucesso que o gênero havia alcançado em outros
estúdios. A solução foi contratar Val Lewton para comandar uma unidade dedicada
a produções baratas.
Havia limitações claras. Os filmes deveriam custar pouco,
ter duração relativamente curta e partir de títulos comercialmente atraentes
escolhidos pelo próprio estúdio. Sangue de Pantera nasceu dentro dessa
lógica.
Jacques Tourneur conta a história de uma mulher que acredita
carregar uma maldição ancestral capaz de transformá-la em uma pantera quando
sente determinadas emoções. O orçamento reduzido tornava difícil mostrar aquilo
que uma produção maior talvez transformasse em espetáculo. Lewton e Tourneur
fizeram justamente o contrário.
Em vez de mostrar o monstro, começaram a trabalhar com sua
possível presença. Sombras, ruídos, corredores escuros e espaços fora do
enquadramento passaram a produzir a ameaça que o orçamento não permitia
materializar.
A célebre sequência da piscina demonstra o método. O perigo
talvez esteja próximo, talvez não. A imaginação do espectador precisa completar
aquilo que a imagem se recusa a revelar.
O resultado foi um enorme sucesso para a RKO e uma das obras
fundamentais do terror baseado na sugestão. A falta de dinheiro, nesse caso,
não impediu a criação da linguagem. Ajudou a provocá-la.
2. CURVA DO DESTINO (1945)
Detour - Edgar G. Ulmer
Se Sangue de Pantera nasceu dentro de um grande
estúdio, embora em sua unidade de baixo orçamento, Detour veio de uma
região ainda menos prestigiosa da indústria.
A Producers Releasing Corporation fazia parte daquilo que
ficou conhecido como Poverty Row, conjunto de pequenas companhias
especializadas em produções extremamente econômicas destinadas principalmente
aos circuitos secundários e aos programas duplos.
Edgar G. Ulmer realizou Detour com poucos recursos,
poucos cenários e um elenco sem grandes estrelas. A história também parece
mínima: um pianista atravessa os Estados Unidos de carona para reencontrar a
mulher que ama e acaba envolvido em uma sucessão de acontecimentos cada vez
mais desesperadores. Ulmer transformou essa precariedade em atmosfera.
Estradas noturnas, quartos baratos, automóveis e espaços
pouco elaborados tornam-se componentes de um universo no qual o protagonista
parece incapaz de escapar do destino que ele próprio narra.
Décadas depois, Detour passou a ser considerado uma
das expressões essenciais do film noir. É uma inversão histórica notável. Uma
produção realizada próxima da base econômica de Hollywood tornou-se uma das
obras utilizadas para compreender um dos movimentos mais importantes do cinema
americano dos anos 1940.
3. MORTALMENTE PERIGOSA (1950)
Gun Crazy - Joseph H. Lewis
Um casal, armas e uma atração que parece inseparável do
perigo. Joseph H. Lewis não dispunha dos recursos de uma grande produção quando
realizou Gun Crazy. Mas encontrou maneiras de transformar justamente
essa limitação em energia cinematográfica.
A sequência mais famosa acompanha um assalto quase
inteiramente de dentro de um automóvel. Em vez de fragmentar a ação em inúmeros
planos e montar uma grande operação de produção, Lewis coloca o espectador
junto aos personagens.
A solução era econômica. Também era extraordinariamente
moderna. O crime deixa de ser observado à distância e passa a ser experimentado
praticamente no mesmo espaço ocupado pelos criminosos. Décadas antes de Bonnie
and Clyde, a relação entre desejo, violência e marginalidade já encontrava
ali uma de suas expressões mais intensas.
O reconhecimento veio posteriormente. Gun Crazy
entrou para o National Film Registry dos Estados Unidos e hoje ocupa lugar
importante na história do noir. Aquilo que havia sido concebido dentro das
limitações do cinema B passou a integrar oficialmente o patrimônio
cinematográfico americano.
4. RUMO AO INFERNO (1952)
The
Narrow Margin - Richard Fleischer
Talvez nenhum dos sete casos explique tão claramente a
diferença entre aquilo que a indústria considerava importante e aquilo que o
tempo resolveu preservar.
Grande parte de The Narrow Margin acontece dentro de
um trem. Um policial precisa transportar uma testemunha enquanto criminosos
tentam descobrir em qual compartimento ela está escondida. O orçamento era
reduzido. O espaço também.
Richard Fleischer transforma essas duas limitações em
princípio de encenação. Corredores estreitos, portas, compartimentos e
deslocamentos dentro dos vagões produzem uma sensação constante de
confinamento.
Há ainda uma ironia particularmente apropriada para esta
história. Em seu lançamento, The Narrow Margin chegou aos cinemas como
parte de um programa duplo no qual a atração principal era Tembo,
documentário de aventura filmado na África. Tembo ocupava a posição
superior. The Narrow Margin era o complemento.
Hoje, para grande parte do público interessado na história
do cinema, ocorreu o contrário. O filme de Fleischer é estudado, restaurado e
lembrado como uma das realizações mais inventivas do noir americano, enquanto a
antiga atração principal tornou-se muito menos conhecida. A programação dizia
qual era o filme mais importante daquela sessão. O tempo escolheu outro.
5. O MUNDO ODEIA-ME (1953)
The Hitch-hiker - Ida Lupino
Dois homens dão carona a um desconhecido durante uma viagem.
O passageiro é um assassino.
A premissa de The Hitch-Hiker não exige grandes
cenários, multidões ou espetáculo. Ida Lupino utiliza justamente essa
concentração para construir um thriller seco e claustrofóbico.
Boa parte da tensão nasce da relação entre três homens, um
automóvel e uma paisagem árida.
A posição periférica desse tipo de produção também ajuda a
revelar outra dimensão do cinema B. Em determinadas circunstâncias, os espaços
menos prestigiosos da indústria permitiam experiências e trajetórias
profissionais que encontravam mais obstáculos nas grandes produções.
Lupino construiu uma carreira singular como diretora em uma
Hollywood na qual pouquíssimas mulheres conseguiam ocupar essa função.
The Hitch-Hiker sobreviveu não apenas como
curiosidade dessa trajetória. Em 1998, foi selecionado para preservação no
National Film Registry dos Estados Unidos por sua relevância cultural,
histórica ou estética.
Outro filme realizado longe do centro de prestígio da
indústria havia conquistado seu lugar no patrimônio cinematográfico.
6. VAMPIROS DE ALMAS (1956)
Invasion
of the Body Snatchers - Don Siegel
Nos anos 1950, a ficção científica tornou-se um dos grandes
territórios do cinema de baixo orçamento americano. Alienígenas, mutações,
invasões e experiências científicas podiam ser transformados rapidamente em
atrações para um público que começava também a migrar para novas formas de
entretenimento. Vampiros de Almas poderia ter sido apenas mais um deles.
Em uma pequena cidade americana, pessoas começam a ser
substituídas por cópias aparentemente perfeitas de si mesmas. Os corpos
permanecem. Algo essencial, porém, desaparece.
Don Siegel realizou o filme rapidamente e com recursos
limitados. No lançamento, ele circulou em programas duplos, inclusive ao lado
de outras produções de gênero. Mas a premissa revelou uma capacidade incomum de
sobreviver ao próprio contexto.
O que significam aquelas pessoas substituídas por seres
incapazes de emoção? Conformismo? Comunismo? Anticomunismo? Perda da
individualidade? Ansiedade diante de uma sociedade cada vez mais padronizada? As
interpretações se multiplicaram.
O pequeno filme de ficção científica passou a ser discutido
como expressão dos medos da América da Guerra Fria e tornou-se uma das obras
mais duradouras do gênero. O B havia adquirido uma segunda vida que
provavelmente ninguém envolvido em sua posição original na programação poderia
prever.
7. A LOJA DOS HORRORES (1960)
The
Little Shop of Horrors | Roger Corman
Quando Roger Corman realizou The Little Shop of Horrors,
o sistema clássico que havia consolidado a divisão entre filmes A e B já estava
mudando. Mas sua lógica econômica permanecia viva.
Corman descobriu que os cenários utilizados por outra
produção permaneceriam disponíveis por pouco tempo. Em vez de desmontá-los sem
aproveitamento, decidiu fazer outro filme. O orçamento ficou em torno de 30 mil
dólares.
Os atores ensaiaram durante poucos dias. Grande parte das
cenas internas foi filmada em aproximadamente dois dias.
A história era absurda o suficiente para combinar com o
método: um funcionário de uma floricultura cria uma planta que começa a exigir
alimento humano.
O filme foi utilizado como segunda atração em programas
duplos. Em uma de suas circulações posteriores, acompanhou Black Sunday,
de Mario Bava. Nesse caso, o tempo produziu uma situação ainda mais
interessante: os dois sobreviveram.
Black Sunday tornou-se um clássico do horror
italiano. The Little Shop of Horrors ganhou progressivamente uma
reputação cult, encontrou novos espectadores na televisão e acabou originando
uma trajetória cultural muito maior do que sua produção poderia sugerir.
A história foi transformada em musical e voltou ao cinema em
1986, dirigida por Frank Oz. O pequeno filme realizado quase como uma operação
de aproveitamento de cenário havia produzido uma descendência própria.
E ajuda a marcar uma transformação histórica. O antigo B
movie dos estúdios estava dando lugar a outra cultura de produções baratas,
independentes, exploitation e filmes de gênero que manteria vivo o espírito do
cinema B mesmo depois que sua posição original nos programas duplos começasse a
desaparecer.
O B NÃO ERA UMA NOTA
A história desses filmes ajuda a corrigir uma associação que
permaneceu no vocabulário popular. Filme B não significava necessariamente
filme ruim. Muitas vezes significava simplesmente menos dinheiro, menos tempo,
menos estrelas e uma posição inferior dentro das prioridades comerciais da
indústria.
Isso evidentemente produziu uma quantidade enorme de filmes
esquecíveis. O sistema B não era uma fábrica secreta de obras-primas. Mas suas
limitações também criaram condições particulares de produção.
Quando não era possível construir grandes cenários, o
diretor precisava descobrir como utilizar os poucos disponíveis. Quando não
havia dinheiro para mostrar uma criatura, podia ser necessário sugeri-la.
Quando uma sequência de ação não comportava dezenas de planos e dias de
filmagem, talvez fosse preciso imaginar outra maneira de colocar a câmera.
Nem toda limitação produz criatividade. Mas a criatividade
frequentemente começa perguntando o que pode ser feito apesar dela.
Existe ainda outra razão para olhar novamente para esses
filmes. A hierarquia industrial que organiza o presente não é necessariamente
aquela que sobreviverá. Em determinada noite de 1952, alguém podia entrar em um
cinema americano para assistir à atração principal Tembo e receber The
Narrow Margin como complemento do programa. A ordem parecia clara. Um era o
A e o outro era o B. Mais de sete décadas depois, a história do cinema
reorganizou a sessão.
Talvez essa seja a melhor maneira de compreender o que
aconteceu com muitos desses filmes. Eles receberam menos dinheiro, menos
publicidade e menos prestígio. O que não receberam foi uma condenação a serem
menos cinema.