FILMOTECA - Revista de Cinema: Pág. 13


EU TINHA 19 ANOS (1968)

O grande filme de guerra que começa quando a guerra já está terminando.



Abril de 1945. A Alemanha nazista está a poucos dias da derrota e Gregor Hecker atravessa a fronteira vestindo o uniforme do Exército Vermelho. Ele nasceu alemão, deixou o país ainda criança com a família e cresceu na União Soviética. Agora tem dezenove anos e retorna à terra onde nasceu como integrante do exército que a está derrotando. É alemão e soviético, pertence àquele lugar e ao mesmo tempo o observa como estrangeiro.

É dessa posição incomum que Konrad Wolf constrói Eu Tinha Dezenove Anos (Ich war neunzehn, 1968). O ponto de partida tem forte componente autobiográfico. Wolf também deixou a Alemanha depois da ascensão nazista, cresceu em Moscou e retornou ao país em 1945 como jovem soldado do Exército Vermelho. As anotações que fez naquele período serviram de base para o filme, escrito com Wolfgang Kohlhaase.

Em vez de transformar essa experiência em uma narrativa convencional de combate, Wolf acompanha Gregor por uma sucessão de encontros durante os últimos dias da guerra. Soldados, civis, prisioneiros, nazistas, oportunistas e sobreviventes aparecem e desaparecem pelo caminho. A estrutura fragmentada aproxima o filme de um diário e permite que a Alemanha derrotada seja observada não como uma população homogênea, mas como uma sociedade que precisa começar a confrontar aquilo que acabou de acontecer.

Essa escolha também explica boa parte da força cinematográfica do filme. Filmado em preto e branco por Werner Bergmann, Eu Tinha Dezenove Anos evita a grandiosidade habitual dos épicos de guerra. Há poucas grandes batalhas, nenhuma necessidade de transformar Gregor em herói e uma atenção quase documental aos lugares, rostos e conversas. A própria DEFA-Stiftung destaca a simplicidade e a busca de autenticidade que orientaram a realização.

O reconhecimento foi expressivo. Apenas sete dias depois da estreia, mais de 250 mil espectadores já haviam visto o filme, que se tornou um dos grandes sucessos cinematográficos da Alemanha Oriental em 1968. Décadas depois, seria incluído entre os 100 filmes alemães mais significativos, enquanto a DEFA Film Library o define como um marco do cinema alemão do pós-guerra. No IMDb, mantém atualmente avaliação de 7,5/10, apesar de contar com apenas cerca de 1,2 mil votos, um número pequeno para uma obra com essa reputação histórica.

COMO UM FILME ASSIM FICOU FORA DO RADAR?

Parte da resposta está em sua origem. Eu Tinha Dezenove Anos pertence à DEFA, a indústria cinematográfica estatal da antiga Alemanha Oriental, uma cinematografia cuja circulação internacional ficou por muito tempo condicionada pelas divisões políticas e culturais da Guerra Fria. O próprio contexto de produção era complexo: o filme surgiu pouco depois do 11º Plenário do Comitê Central do partido governante, que provocou uma das mais severas intervenções sobre a produção cinematográfica da Alemanha Oriental e levou à proibição de diversos filmes.

Há ainda outro obstáculo. Quando se fala em cinema alemão do pós-guerra fora da Alemanha, grande parte do repertório internacional acabou organizada em torno do cinema da Alemanha Ocidental e, posteriormente, do Novo Cinema Alemão. A produção da Alemanha Oriental permaneceu muito menos presente no repertório cinéfilo de vários países.

Isso cria uma situação curiosa: estamos diante de um filme que não precisou ser redescoberto em seu país para que sua importância fosse reconhecida. O que precisa ser redescoberto é o próprio território cinematográfico do qual ele veio.

Eu Tinha Dezenove Anos oferece uma excelente porta de entrada. Não apenas porque permite conhecer Konrad Wolf, um dos principais realizadores da Alemanha Oriental, mas porque transforma uma experiência histórica extraordinária em uma pergunta íntima: o que significa retornar ao próprio país quando já não sabemos exatamente a que lado pertencemos?

No CRÍTICA LIVRE DE CINEMA, a investigação continua. A análise completa examina como Konrad Wolf constrói essa perspectiva dividida, como a estrutura episódica modifica nossa relação com a guerra e de que maneira forma cinematográfica, memória pessoal e História se encontram em um dos grandes filmes ainda pouco conhecidos do cinema alemão.

FORA DO RADAR: Grandes filmes também podem permanecer invisíveis.

Onde assistir EU TINHA 19 ANOS