FILMOTECA - Revista de Cinema: Pág. 14


BRIAN DE PALMA

Uma carreira que caiu duas vezes.




Em que momento Brian De Palma começou a perder o lugar conquistado entre os grandes diretores do cinema americano? A resposta mais imediata seria procurar um ponto depois de Carrie, a Estranha, Um Tiro na Noite, Scarface ou Os Intocáveis e, a partir dele, desenhar uma curva descendente. Quando sua filmografia é observada em sequência, porém, surge uma trajetória bem menos linear. Os dados do CLC Balanced Rating indicam quatro períodos distintos e, principalmente, sugerem que a carreira de De Palma não sofreu uma única queda, mas duas transformações de natureza diferente.

Nos primeiros anos, entre 1968 e 1974, encontramos um cineasta ainda experimentando formas, gêneros e registros, mas progressivamente reconhecível. A irreverência política de seus primeiros trabalhos convive com uma aproximação cada vez maior do suspense, da violência estilizada e dos mecanismos de manipulação do olhar que se tornariam marcas de sua obra. Irmãs Diabólicas e O Fantasma do Paraíso indicam que essa identidade começava a produzir também maior reconhecimento, enquanto público e crítica permaneciam relativamente próximos em suas avaliações.

A partir de Trágica Obsessão e, sobretudo, de Carrie, a Estranha, começa o período em que De Palma consegue algo particularmente difícil: transformar uma linguagem fortemente autoral em cinema capaz de dialogar com públicos amplos. Entre 1976 e 1984, passam por sua filmografia o horror, o thriller, o melodrama, o filme de gângster e grandes produções de estúdio, sem que desapareçam suas obsessões com voyeurismo, culpa, duplicidade, sexualidade, violência e a própria experiência de olhar. Vestida para Matar, Um Tiro na Noite e Scarface pertencem a universos bastante diferentes, mas carregam uma assinatura que já não precisa ser apresentada. É o período em que De Palma parece capaz de circular entre Hollywood e um cinema profundamente pessoal sem precisar escolher definitivamente um dos lados. Os números confirmam essa estabilidade: nenhum dos sete filmes pontuados dessa fase fica abaixo de 6,5.

Há, contudo, uma pequena rachadura dentro do próprio auge. Scarface se tornaria um dos filmes mais populares de sua carreira, embora sua recepção crítica fosse consideravelmente mais resistente. Essa diferença antecipa uma relação que se tornaria importante nos anos seguintes: De Palma poderia continuar encontrando forte adesão entre espectadores mesmo quando parte da crítica já não respondia com o mesmo entusiasmo.

É por isso que o período iniciado em 1986 não deve ser descrito simplesmente como decadência. O que desaparece primeiro é a regularidade. Entre Quem Tudo Quer, Tudo Perde e Missão: Impossível, convivem alguns dos resultados mais baixos da carreira até então com Os Intocáveis, Pecados de Guerra e O Pagamento Final. De Palma já não oferece a sensação de continuidade do período anterior, mas ainda é perfeitamente capaz de retornar ao centro do cinema americano e produzir obras amplamente reconhecidas. A diferença está na imprevisibilidade: depois de um grande filme, já não existe garantia de que o seguinte será recebido da mesma maneira.

A verdadeira mudança de natureza acontece depois de Missão: Impossível. A partir de Olhos de Serpente, em 1998, os retornos deixam de ocorrer. Femme Fatale ainda encontra defensores e permanece como objeto de reavaliações, mas já não inaugura outro ciclo. Missão: Marte, Dália Negra, Guerra Sem Cortes, Paixão e Domino formam uma sequência na qual a recepção crítica diminui e, desta vez, o público também se afasta. O problema já não é apenas a alternância entre êxitos e fracassos, mas o desaparecimento daqueles filmes capazes de interromper a queda e recolocar De Palma no patamar de reconhecimento alcançado anteriormente.

É justamente aí que o Balanced Rating permite enxergar algo que uma simples divisão entre auge e decadência esconderia. Brian De Palma caiu primeiro quando perdeu a estabilidade e o consenso que haviam caracterizado seu melhor período, mas continuou durante aproximadamente uma década capaz de realizar grandes recuperações. A segunda queda ocorre quando essas recuperações também desaparecem. Entre uma e outra existe talvez a parte mais reveladora de sua trajetória: a longa sobrevivência de um cineasta que já não dominava a recepção como antes, mas ainda conseguia, filme após filme, demonstrar que sua história não havia terminado. 

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