Em que momento começou a queda de Brian De
Palma? A pergunta parece admitir uma data precisa, talvez localizada depois do
período em que Carrie, a Estranha, Um Tiro na Noite e Scarface
converteram o diretor em um dos nomes mais reconhecíveis do cinema
norte-americano. Os dados do CLC Balanced Rating, entretanto, sugerem uma
resposta menos imediata. A trajetória não passa diretamente do apogeu ao
declínio. Antes que público e crítica reduzissem conjuntamente sua avaliação, a
filmografia perdeu regularidade, viu o consenso se romper e ainda produziu
retornos expressivos. De Palma, portanto, não caiu apenas uma vez. Sua carreira
sofreu duas rupturas diferentes, separadas por mais de uma década.
A análise considera os trinta longas de ficção dirigidos entre 1968 e 2019. Quatro deles não possuem dados críticos suficientes para o cálculo completo, o que deixa vinte e seis filmes pontuados. Para facilitar a comparação, todas as notas de público e crítica foram convertidas para a escala de zero a dez, a mesma utilizada pelo CLC Score. O objetivo não é transformar a obra em uma classificação definitiva, mas observar como sua recepção se modifica ao longo do tempo e que história emerge quando os resultados deixam de ser vistos isoladamente.
A formação de um autor
Entre 1968 e 1974, De Palma ainda procura a
forma pela qual suas obsessões poderiam se converter em linguagem. A média de
6,66 reúne experiências muito diferentes, da sátira política de Quem Anda
Cantando Nossas Mulheres e Olá, Mamãe! ao suspense de Irmãs Diabólicas e à
exuberância de O Fantasma do Paraíso. A progressão não é contínua, mas o final
do período indica que a identidade autoral começava a se tornar reconhecível.
Irmãs Diabólicas alcança 7,10 e O Fantasma do Paraíso chega a 7,40, os
primeiros resultados acima de sete.
Público e crítica também se mantêm próximos
nessa fase, com médias de 6,62 e 6,71. Essa concordância não significa que
todos os filmes tenham sido recebidos da mesma maneira, mas mostra que ainda
não existia uma distância sistemática entre os dois componentes. De Palma
estava construindo uma assinatura feita de voyeurismo, manipulação do olhar,
violência estilizada, referências ao cinema clássico e dispositivos formais que
colocavam o espectador em posição instável. À medida que essa assinatura se
tornava mais clara, os resultados cresciam dos dois lados.
O apogeu como consenso em alto nível
De 1976 a 1984, a média sobe para 7,30, o
melhor resultado entre todas as fases. Mais importante do que a presença de
filmes consagrados é a regularidade do conjunto. Nenhum dos sete títulos
pontuados fica abaixo de 6,5, e três dos quatro maiores CLC Scores de toda a
carreira pertencem ao período: Carrie, a Estranha, com 8,01; Um Tiro na Noite,
com 8,10; e Scarface, com 7,78. Mesmo obras menos celebradas, como Trágica
Obsessão e A Fúria, permanecem em uma faixa relativamente sólida.
Essa também é a etapa em que público e crítica
alcançam suas médias mais altas, respectivamente 7,40 e 7,21. O apogeu de De
Palma não resulta apenas de alguns picos, mas de um reconhecimento sustentado
que atravessa diferentes gêneros, escalas de produção e registros narrativos. O
diretor consegue conciliar o rigor formal de seus thrillers com o alcance
popular de projetos maiores, sem que uma dimensão precise eliminar a outra.
Scarface, contudo, introduz uma fissura dentro
do próprio auge. Sua nota de público chega a 8,57, enquanto a crítica fica em
6,98, diferença de 1,59 ponto. O CLC Score elevado poderia ocultar esse
desacordo se fosse observado sozinho. Visto em retrospecto, o filme antecipa um
comportamento que se tornaria frequente na fase seguinte: a capacidade de De
Palma de manter forte adesão popular mesmo quando a crítica passa a responder
com maior resistência.
A primeira queda rompe o consenso
Entre 1986 e 1996, a média recua para 6,45, mas
o número geral não descreve adequadamente o que acontece. De Palma alterna Quem
Tudo Quer, Tudo Perde, com 5,66, Os Intocáveis, com 7,93, Pecados de Guerra,
com 7,41, A Fogueira das Vaidades, com 4,36, e O Pagamento Final, com 7,52. A
queda, portanto, não elimina os grandes resultados. Ela elimina a regularidade
que havia caracterizado o período anterior.
Ao separar os componentes, aparece uma mudança
ainda mais reveladora. A média do público recua de 7,40 para 6,90, enquanto a
da crítica cai de 7,21 para 5,99. A distância entre os dois grupos,
praticamente irrelevante nas fases anteriores, aproxima-se agora de um ponto. A
Fogueira das Vaidades apresenta o maior desacordo de toda a filmografia
pontuada, com 5,54 do público e 3,18 da crítica. Em O Pagamento Final, a
diferença também é expressiva: 8,19 contra 6,84.
Seria impreciso chamar esse período apenas de
decadência. Os Intocáveis demonstra que De Palma ainda podia reunir novamente
público e crítica em torno de um grande êxito, e Pecados de Guerra confirma que
a repercussão positiva não dependia apenas do espetáculo comercial. O que se
desfaz é a expectativa de continuidade. Cada filme passa a representar um novo
teste, e os resultados deixam de autorizar previsões seguras sobre o seguinte.
A primeira queda da carreira é, antes de tudo, uma ruptura do consenso e da
estabilidade.
A segunda queda elimina os grandes
retornos
A partir de Olhos de Serpente, em 1998, a
transformação assume outra natureza. Os sete filmes do período final permanecem
abaixo de 6,2, e a média cai para 5,40. Femme Fatale, com 6,13, é o melhor
resultado de uma fase que inclui Missão: Marte, Dália Negra, Guerra Sem Cortes,
Paixão e Domino. Pela primeira vez, uma sequência tão extensa não produz nenhum
retorno à faixa dos grandes reconhecimentos.
Agora, não é apenas a crítica que recua. O
público desce de 6,90 para 5,79, enquanto a crítica passa de 5,99 para 5,00.
Ainda existe vantagem média do público, mas ela já não sustenta novos picos. A
divergência permanece, porém ocorre em patamares inferiores para os dois
grupos. Se a fase anterior mostrava uma carreira capaz de se recompor em meio à
instabilidade, esta revela o enfraquecimento da própria capacidade de
recuperação.
Isso não torna os últimos filmes irrelevantes
nem encerra a discussão estética sobre eles. Femme Fatale, por exemplo,
continua sendo defendido por parte da crítica e admirado por espectadores
interessados na radicalização maneirista do diretor. O Balanced Rating mede
recepção agregada, não substitui a leitura das obras e tampouco determina o que
merece ser redescoberto. Sua contribuição está em mostrar que as exceções
tardias já não alteram o desenho geral com a força necessária para produzir um
novo ciclo de reconhecimento.
Uma carreira que caiu duas vezes
A trajetória de Brian De Palma pode ser
organizada em quatro movimentos: formação, consagração, ruptura do consenso e
declínio conjunto da recepção. Essa divisão, porém, ganha sentido apenas quando
compreendemos que as duas últimas fases não descrevem o mesmo fenômeno. Depois
de 1984, desaparece a regularidade, a crítica se afasta mais rapidamente e a
filmografia passa a oscilar entre fracassos e recuperações. Depois de 1996,
desaparecem também as recuperações capazes de recolocar um filme entre os pontos
altos da carreira.
Os números ajudam, assim, a corrigir duas
simplificações. A primeira seria localizar todo o valor de De Palma em um auge
breve, pois seus resultados expressivos atravessam mais de vinte anos, de Irmãs
Diabólicas a O Pagamento Final. A segunda seria tratar tudo o que vem depois de
Dublê de Corpo como uma descida uniforme, ignorando que Os Intocáveis, Pecados
de Guerra e O Pagamento Final interrompem repetidamente essa narrativa.
A resposta para a pergunta inicial depende,
portanto, do que chamamos de queda. Se ela significa perder consistência e
consenso, começa em 1986. Se significa deixar de produzir filmes amplamente
reconhecidos por público e crítica, torna-se visível somente a partir de 1998.
Entre uma ruptura e outra existe uma década decisiva, durante a qual De Palma
já não domina a recepção como antes, mas ainda consegue reabrir o jogo. É nesse
intervalo, mais do que em uma simples oposição entre auge e decadência, que o
desenho particular de sua carreira se revela.
As quatro fases em números
|
Fase |
Filmes |
Público |
Crítica |
CLC Score |
|
1968 a 1974
Formação |
5 |
6,62 |
6,71 |
6,66 |
|
1976 a
1984 Consagração |
7 |
7,40 |
7,21 |
7,30 |
|
1986 a 1996
Ruptura do consenso |
7 |
6,90 |
5,99 |
6,45 |
|
1998 a
2019 Declínio da recepção |
7 |
5,79 |
5,00 |
5,40 |
Filmografia e ratings
As notas de público e crítica abaixo já estão
convertidas para a escala de zero a dez. A indicação sem nota identifica os
filmes para os quais não havia dados críticos suficientes e, por consequência,
não foi possível calcular o CLC Score.
|
Filme |
Ano |
Público |
Crítica |
CLC Score |
|
Murder à la Mod |
1968 |
5,74 |
Sem nota |
Sem nota |
|
Quem
Anda Cantando Nossas Mulheres |
1968 |
5,96 |
6,40 |
6,18 |
|
Festa de Casamento |
1969 |
5,12 |
Sem nota |
Sem nota |
|
Dionysus |
1970 |
5,86 |
Sem nota |
Sem nota |
|
Olá, Mamãe! |
1970 |
6,61 |
6,80 |
6,71 |
|
O
Homem de Duas Vidas |
1972 |
5,66 |
6,20 |
5,93 |
|
Irmãs Diabólicas |
1972 |
7,04 |
7,16 |
7,10 |
|
O Fantasma do
Paraíso |
1974 |
7,81 |
6,98 |
7,40 |
|
Trágica Obsessão |
1976 |
6,99 |
6,06 |
6,53 |
|
Carrie, a
Estranha |
1976 |
7,50 |
8,52 |
8,01 |
|
A Fúria |
1978 |
6,47 |
6,72 |
6,60 |
|
Terapia de
Doidos |
1979 |
5,50 |
Sem nota |
Sem nota |
|
Vestida para Matar |
1980 |
7,26 |
7,20 |
7,23 |
|
Um Tiro na
Noite |
1981 |
7,80 |
8,40 |
8,10 |
|
Scarface |
1983 |
8,57 |
6,98 |
7,78 |
|
Dublê de Corpo |
1984 |
7,20 |
6,58 |
6,89 |
|
Quem Tudo Quer, Tudo Perde |
1986 |
5,76 |
5,56 |
5,66 |
|
Os Intocáveis |
1987 |
8,00 |
7,86 |
7,93 |
|
Pecados de Guerra |
1989 |
7,35 |
7,46 |
7,41 |
|
A Fogueira das
Vaidades |
1990 |
5,54 |
3,18 |
4,36 |
|
Síndrome de Caim |
1992 |
6,33 |
4,72 |
5,53 |
|
O Pagamento
Final |
1993 |
8,19 |
6,84 |
7,52 |
|
Missão Impossível |
1996 |
7,16 |
6,30 |
6,73 |
|
Olhos de
Serpente |
1998 |
6,40 |
5,28 |
5,84 |
|
Missão Marte |
2000 |
5,73 |
3,88 |
4,81 |
|
Femme Fatale |
2002 |
6,42 |
5,84 |
6,13 |
|
Dália Negra |
2006 |
5,54 |
5,02 |
5,28 |
|
Guerra Sem
Cortes |
2007 |
6,45 |
5,28 |
5,87 |
|
Paixão |
2012 |
5,41 |
5,48 |
5,45 |
|
Domino
A Hora da Vingança |
2019 |
4,57 |
4,24 |
4,41 |