FILMOTECA - Revista de Cinema: Pág. 11


É do Brasil

Cinema Brasileiro: A Busca Por Uma Indústria



QUANDO O BRASIL TENTOU CONSTRUIR UMA INDÚSTRIA DE CINEMA

Nas primeiras décadas do século XX, o Brasil já havia demonstrado que conseguia fazer filmes. O problema era outro: como transformar produções esporádicas em uma atividade permanente, com estúdios, profissionais, distribuição e público?

Entre os anos 1930 e 1950, diferentes projetos tentaram responder a essa pergunta. Foi o período em que o cinema brasileiro começou a buscar algo maior do que simplesmente realizar filmes. Queria construir uma indústria.

A Cinédia, fundada por Adhemar Gonzaga em 1930, foi uma das primeiras grandes expressões dessa ambição. A ideia de manter um estúdio significava tentar substituir a produção ocasional por uma estrutura permanente, capaz de reunir equipamentos, técnicos e artistas e produzir com maior regularidade. Ao mesmo tempo, o cinema sonoro criava uma oportunidade importante: se Hollywood dominava as telas, o Brasil possuía algo que os filmes estrangeiros não poderiam reproduzir inteiramente, sua música, seu humor, seus artistas populares e sua relação direta com a cultura do país.

Essa aproximação se tornaria ainda mais importante com a Atlântida Cinematográfica, fundada em 1941, e com a consolidação da chanchada. Misturando comédia, música, carnaval, estrelas do rádio e referências ao cotidiano brasileiro, esses filmes encontraram algo que a cinematografia nacional procurava havia muito tempo: um público numeroso.

Durante décadas, a chanchada foi tratada por parte da crítica como uma manifestação menor do cinema brasileiro. Vista historicamente, porém, sua importância é difícil de ignorar. Ela mostrou que o cinema nacional podia estabelecer uma comunicação popular própria, inclusive apropriando-se das convenções de Hollywood para parodiá-las. Oscarito e Grande Otelo não precisavam competir com as estrelas americanas tentando imitá-las. Representavam outro tipo de relação entre o espectador e a tela.

No final dos anos 1940, surgiria uma tentativa bastante diferente. A Companhia Cinematográfica Vera Cruz, fundada em São Bernardo do Campo em 1949, pretendia demonstrar que o Brasil também poderia realizar filmes com estrutura industrial sofisticada. Grandes instalações, equipamentos modernos, profissionais estrangeiros e investimentos elevados faziam parte de um projeto que buscava aproximar tecnicamente o cinema brasileiro dos padrões internacionais.

Durante algum tempo, pareceu possível. O Cangaceiro, de Lima Barreto, lançado em 1953, alcançou repercussão internacional e foi premiado no Festival de Cannes. O cinema brasileiro mostrava que poderia produzir obras capazes de circular muito além de suas fronteiras.

Mas a experiência da Vera Cruz revelou um problema que se tornaria recorrente em nossa história cinematográfica: fazer bons filmes não basta para construir uma indústria.

Produções caras precisam recuperar seus investimentos. Para isso, precisam chegar às salas, permanecer em cartaz, alcançar espectadores e gerar receitas. A Vera Cruz dominava cada vez melhor a produção, mas continuava vulnerável em outras partes da cadeia cinematográfica. Poucos anos depois de sua fundação, enfrentava graves dificuldades financeiras.

Atlântida e Vera Cruz acabaram representando duas respostas diferentes para uma mesma questão. Uma encontrou força na comédia popular, na música e em custos relativamente controlados. A outra apostou em grandes estúdios, profissionalização e maior sofisticação técnica. Nenhuma conseguiu resolver definitivamente o problema da industrialização do cinema brasileiro.

Ainda assim, seria equivocado considerar essas experiências fracassadas. Entre os anos 1930 e 1950, o Brasil criou estúdios, formou profissionais, revelou estrelas, consolidou gêneros, conquistou espectadores e demonstrou que seus filmes podiam alcançar reconhecimento internacional.

O que permaneceu sem solução foi a construção de uma estrutura capaz de transformar essas conquistas em continuidade.

Essa dificuldade ajudaria a preparar a próxima grande transformação. Uma nova geração começaria a questionar se o objetivo deveria realmente ser construir uma espécie de Hollywood brasileira. Talvez fosse possível partir das próprias limitações econômicas do país e transformá-las em outra maneira de pensar e realizar cinema.

A busca por uma indústria ainda não havia terminado.

Mas o cinema brasileiro estava prestes a mudar a pergunta.


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