QUANDO O BRASIL TENTOU CONSTRUIR UMA INDÚSTRIA DE CINEMA
Nas primeiras décadas do século XX, o Brasil já havia
demonstrado que conseguia fazer filmes. O problema era outro: como
transformar produções esporádicas em uma atividade permanente, com estúdios,
profissionais, distribuição e público?
A Cinédia, fundada por Adhemar Gonzaga em 1930, foi
uma das primeiras grandes expressões dessa ambição. A ideia de manter um
estúdio significava tentar substituir a produção ocasional por uma estrutura
permanente, capaz de reunir equipamentos, técnicos e artistas e produzir com
maior regularidade. Ao mesmo tempo, o cinema sonoro criava uma oportunidade
importante: se Hollywood dominava as telas, o Brasil possuía algo que os filmes
estrangeiros não poderiam reproduzir inteiramente, sua música, seu humor, seus
artistas populares e sua relação direta com a cultura do país.
Essa aproximação se tornaria ainda mais importante com a Atlântida
Cinematográfica, fundada em 1941, e com a consolidação da chanchada.
Misturando comédia, música, carnaval, estrelas do rádio e referências ao
cotidiano brasileiro, esses filmes encontraram algo que a cinematografia
nacional procurava havia muito tempo: um público numeroso.
Durante décadas, a chanchada foi tratada por parte da
crítica como uma manifestação menor do cinema brasileiro. Vista historicamente,
porém, sua importância é difícil de ignorar. Ela mostrou que o cinema nacional
podia estabelecer uma comunicação popular própria, inclusive apropriando-se das
convenções de Hollywood para parodiá-las. Oscarito e Grande Otelo não
precisavam competir com as estrelas americanas tentando imitá-las.
Representavam outro tipo de relação entre o espectador e a tela.
No final dos anos 1940, surgiria uma tentativa bastante
diferente. A Companhia Cinematográfica Vera Cruz, fundada em São
Bernardo do Campo em 1949, pretendia demonstrar que o Brasil também poderia
realizar filmes com estrutura industrial sofisticada. Grandes instalações,
equipamentos modernos, profissionais estrangeiros e investimentos elevados
faziam parte de um projeto que buscava aproximar tecnicamente o cinema
brasileiro dos padrões internacionais.
Durante algum tempo, pareceu possível. O Cangaceiro,
de Lima Barreto, lançado em 1953, alcançou repercussão internacional e foi
premiado no Festival de Cannes. O cinema brasileiro mostrava que poderia
produzir obras capazes de circular muito além de suas fronteiras.
Mas a experiência da Vera Cruz revelou um problema que se
tornaria recorrente em nossa história cinematográfica: fazer bons filmes não
basta para construir uma indústria.
Produções caras precisam recuperar seus investimentos. Para
isso, precisam chegar às salas, permanecer em cartaz, alcançar espectadores e
gerar receitas. A Vera Cruz dominava cada vez melhor a produção, mas continuava
vulnerável em outras partes da cadeia cinematográfica. Poucos anos depois de
sua fundação, enfrentava graves dificuldades financeiras.
Atlântida e Vera Cruz acabaram representando duas respostas
diferentes para uma mesma questão. Uma encontrou força na comédia popular, na
música e em custos relativamente controlados. A outra apostou em grandes
estúdios, profissionalização e maior sofisticação técnica. Nenhuma conseguiu
resolver definitivamente o problema da industrialização do cinema brasileiro.
Ainda assim, seria equivocado considerar essas experiências
fracassadas. Entre os anos 1930 e 1950, o Brasil criou estúdios, formou
profissionais, revelou estrelas, consolidou gêneros, conquistou espectadores e
demonstrou que seus filmes podiam alcançar reconhecimento internacional.
O que permaneceu sem solução foi a construção de uma
estrutura capaz de transformar essas conquistas em continuidade.
Essa dificuldade ajudaria a preparar a próxima grande
transformação. Uma nova geração começaria a questionar se o objetivo deveria
realmente ser construir uma espécie de Hollywood brasileira. Talvez fosse
possível partir das próprias limitações econômicas do país e transformá-las em
outra maneira de pensar e realizar cinema.
A busca por uma indústria ainda não havia terminado.
Mas o cinema brasileiro estava prestes a mudar a
pergunta.
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