FILMOTECA - Revista de Cinema: Pág. 10


Repertório de Autores

Alfred Hitchcock



O CINEASTA QUE TRANSFORMOU O ESPECTADOR EM PERSONAGEM

Poucos cineastas são tão imediatamente reconhecíveis quanto Alfred Hitchcock. Sua silhueta, o humor macabro, os assassinatos e a fama de “mestre do suspense” fizeram dele um dos diretores mais populares da história. Mas talvez essa mesma popularidade tenha ajudado a esconder aquilo que existe de mais interessante em seu cinema. Hitchcock não passou décadas apenas tentando descobrir novas maneiras de assustar o público. Sua investigação era mais profunda: como controlar aquilo que o espectador vê, sabe, espera e sente?

É por isso que assistir a Hitchcock prestando atenção somente à história significa perder boa parte do que seus filmes têm a oferecer. Em Janela Indiscreta, por exemplo, acompanhamos um fotógrafo imobilizado que observa os vizinhos pelas janelas de seu apartamento. Aos poucos, aquilo que poderia ser apenas uma trama sobre a suspeita de um assassinato transforma-se em outra experiência. Jeff observa aquelas pessoas sem que elas saibam. Nós fazemos exatamente o mesmo. Hitchcock não está apenas mostrando um voyeur. Está fazendo com que compartilhemos seu olhar.

Essa relação entre personagem, câmera e espectador atravessa sua filmografia. Hitchcock compreendeu que o suspense depende menos da quantidade de acontecimentos do que da maneira como a informação é distribuída. Se sabemos que existe um perigo que o personagem desconhece, a espera pode ser mais angustiante do que o próprio acontecimento. Se sabemos tão pouco quanto ele, investigamos ao seu lado. Se recebemos uma informação enganosa, construímos uma interpretação que o filme posteriormente pode destruir.

Por isso, objetos aparentemente banais tornam-se tão importantes em seus filmes. Uma chave, um copo, uma bolsa ou uma porta podem concentrar nossa atenção porque Hitchcock decidiu previamente aquilo que sabemos sobre eles. O mesmo acontece com janelas, corredores, escadas e quartos. O espaço deixa de funcionar apenas como cenário e passa a determinar quem pode observar, esconder-se, escapar ou ser descoberto.

Em Psicose, essa manipulação chega a um ponto ainda mais desconfortável. Hitchcock modifica nossas identificações ao longo da narrativa e consegue fazer com que, por alguns instantes, desejemos o sucesso de ações que racionalmente deveríamos condenar. Não somos apenas espectadores de um dilema moral. Somos colocados dentro dele.

Talvez esteja aí uma das razões pelas quais Hitchcock permanece tão importante para quem deseja compreender a linguagem cinematográfica. Seus filmes mostram com extraordinária clareza que assistir ao cinema não é simplesmente receber imagens. Enquanto vemos um filme, formulamos hipóteses, antecipamos acontecimentos, relacionamos planos, interpretamos gestos e reagimos emocionalmente às informações que recebemos.

Hitchcock construiu grande parte de seu cinema a partir dessa atividade invisível.

Por trás dos crimes, perseguições, identidades trocadas e mistérios, existe quase sempre outro filme acontecendo: aquele que Hitchcock realiza dentro da cabeça do espectador.

Na Biblioteca da FILMOTECA, Repertório de Autores - Alfred Hitchcock investiga sua trajetória, a evolução de sua obra, seus grandes temas e, principalmente, a linguagem com que transformou o ato de olhar em matéria cinematográfica.

Porque conhecer Hitchcock não significa apenas descobrir como funciona o suspense.

Significa começar a perceber como um filme pode dirigir também quem está diante da tela.