O CINEASTA QUE TRANSFORMOU O ESPECTADOR EM PERSONAGEM
Poucos cineastas são tão imediatamente reconhecíveis quanto
Alfred Hitchcock. Sua silhueta, o humor macabro, os assassinatos e a fama de
“mestre do suspense” fizeram dele um dos diretores mais populares da história.
Mas talvez essa mesma popularidade tenha ajudado a esconder aquilo que existe
de mais interessante em seu cinema. Hitchcock não passou décadas apenas
tentando descobrir novas maneiras de assustar o público. Sua investigação era
mais profunda: como controlar aquilo que o espectador vê, sabe, espera e
sente?
Essa relação entre personagem, câmera e espectador atravessa
sua filmografia. Hitchcock compreendeu que o suspense depende menos da
quantidade de acontecimentos do que da maneira como a informação é distribuída.
Se sabemos que existe um perigo que o personagem desconhece, a espera pode ser
mais angustiante do que o próprio acontecimento. Se sabemos tão pouco quanto
ele, investigamos ao seu lado. Se recebemos uma informação enganosa,
construímos uma interpretação que o filme posteriormente pode destruir.
Por isso, objetos aparentemente banais tornam-se tão
importantes em seus filmes. Uma chave, um copo, uma bolsa ou uma porta podem
concentrar nossa atenção porque Hitchcock decidiu previamente aquilo que
sabemos sobre eles. O mesmo acontece com janelas, corredores, escadas e
quartos. O espaço deixa de funcionar apenas como cenário e passa a determinar
quem pode observar, esconder-se, escapar ou ser descoberto.
Em Psicose, essa manipulação chega a um ponto ainda
mais desconfortável. Hitchcock modifica nossas identificações ao longo da
narrativa e consegue fazer com que, por alguns instantes, desejemos o sucesso
de ações que racionalmente deveríamos condenar. Não somos apenas espectadores
de um dilema moral. Somos colocados dentro dele.
Talvez esteja aí uma das razões pelas quais Hitchcock
permanece tão importante para quem deseja compreender a linguagem
cinematográfica. Seus filmes mostram com extraordinária clareza que assistir ao
cinema não é simplesmente receber imagens. Enquanto vemos um filme, formulamos
hipóteses, antecipamos acontecimentos, relacionamos planos, interpretamos
gestos e reagimos emocionalmente às informações que recebemos.
Hitchcock construiu grande parte de seu cinema a partir
dessa atividade invisível.
Por trás dos crimes, perseguições, identidades trocadas e
mistérios, existe quase sempre outro filme acontecendo: aquele que Hitchcock
realiza dentro da cabeça do espectador.
Na Biblioteca da FILMOTECA, Repertório de Autores - Alfred Hitchcock investiga sua trajetória, a evolução de sua obra, seus
grandes temas e, principalmente, a linguagem com que transformou o ato de olhar
em matéria cinematográfica.
Porque conhecer Hitchcock não significa apenas descobrir
como funciona o suspense.
Significa começar a perceber como um filme pode dirigir
também quem está diante da tela.