FILMOTECA - Revista de Cinema: Pág. 9


se7e

7 diretores que disseram não a Hollywood



Quando uma grande oportunidade pode significar abrir mão do próprio cinema

Imagine receber o convite para dirigir Star Wars, Harry Potter ou um grande filme de estúdio. Orçamento milionário, distribuição mundial, estrelas à disposição e a possibilidade de alcançar uma audiência que dificilmente um projeto pessoal conseguiria reunir.

Para a maioria dos cineastas, pareceria a oportunidade de uma vida. Alguns disseram não.

David Lynch foi procurado por George Lucas para dirigir O Retorno de Jedi. Depois de O Homem Elefante, Hollywood havia descoberto que aquele diretor surgido do universo estranho de Eraserhead também conseguia trabalhar em uma produção de maior alcance. Lynch, porém, percebeu que entraria em um mundo que já pertencia a outra pessoa. Recusou. Pouco depois aceitaria Duna e experimentaria justamente aquilo que parecia temer: realizar uma grande produção sem possuir plenamente o controle sobre o resultado.

Pedro Almodóvar viveu dilema semelhante por outros caminhos. Depois que seu cinema conquistou projeção internacional, surgiram propostas americanas, entre elas Mudança de Hábito. Mais tarde, ele se interessaria por O Segredo de Brokeback Mountain, mas novamente permaneceria fora de Hollywood. O problema não era desprezo pelo cinema americano. Almodóvar simplesmente duvidava que as promessas de liberdade criativa sobrevivessem às pressões inevitáveis de uma grande produção.

Para Mira Nair, a escolha foi ainda mais concreta. A diretora de Monsoon Wedding teve a possibilidade de entrar no universo de Harry Potter, mas preferiu realizar The Namesake. Sua justificativa explica muito sobre o que está em jogo nessas decisões: a franquia encontraria outro diretor, enquanto aquele projeto pessoal precisava particularmente dela.

Wong Kar-wai também recebeu propostas lucrativas dos grandes estúdios e preferiu continuar trabalhando de outra maneira. Sua preocupação estava relacionada ao próprio significado de receber dezenas de milhões de dólares para fazer um filme. Um orçamento dessa dimensão traz possibilidades, mas também expectativas. Quem investe muito precisa alcançar muita gente. Para um diretor acostumado a descobrir seus filmes durante o processo, isso poderia alterar não apenas a escala da produção, mas sua própria maneira de criar.

Bong Joon-ho enfrentou uma questão parecida quando, depois de O Hospedeiro, começaram a surgir propostas para franquias e blockbusters. Bong não rejeitaria grandes produções ao longo da carreira. O que procurou preservar foi algo mais específico: controle criativo, especialmente sobre a versão final de seus filmes. Crescer interessava. Tornar-se apenas o profissional encarregado de executar uma propriedade de outra pessoa, não.

Guillermo del Toro oferece talvez o exemplo mais curioso. Ele recusou Se7en mesmo reconhecendo que tinha diante de si um ótimo roteiro. Considerou que a história exigia uma sensibilidade diferente da sua. David Fincher acabou dirigindo o filme. A decisão mostra que preservar uma identidade artística nem sempre significa rejeitar projetos ruins. Às vezes significa reconhecer que um excelente filme deveria ser realizado por outro cineasta.

Michael Haneke encontrou outra contradição. Depois de conquistar prestígio internacional, começou a receber propostas americanas que pouco pareciam ter a ver com os filmes responsáveis por aquele prestígio. Hollywood queria o diretor premiado, mas isso não significava necessariamente que soubesse o que fazer com seu cinema.

As histórias são diferentes porque os sete cineastas não mantêm a mesma relação com Hollywood. Alguns acabaram realizando produções americanas. Outros trabalharam com grandes orçamentos e estrelas internacionais. Nenhum desses casos precisa ser transformado numa oposição simplista entre pureza artística e cinema comercial.

Existe uma questão mais interessante.

Um diretor constrói sua filmografia também com os filmes que decide não fazer. Cada projeto ocupa anos de trabalho, aproxima determinados colaboradores, modifica uma carreira e inevitavelmente impede que outra obra seja realizada naquele mesmo período. Dizer sim a um filme significa dizer não a muitos outros.

Por isso é tão divertido imaginar O Retorno de Jedi de David Lynch, Mudança de Hábito de Almodóvar, um Harry Potter de Mira Nair ou Se7en de Guillermo del Toro. Mas talvez essas possibilidades nunca realizadas revelem algo mais importante do que simples histórias alternativas do cinema.

Hollywood ofereceu a esses diretores filmes maiores. Cada um precisou decidir se, dentro deles, ainda conseguiria fazer o seu próprio cinema.

Quer conhecer melhor essas sete histórias e descobrir o que cada diretor decidiu preservar ao dizer não?

A investigação completa está na Biblioteca da Filmoteca, na seção se7e.