Quando uma grande oportunidade pode significar abrir mão
do próprio cinema
Imagine receber o convite para dirigir Star Wars, Harry
Potter ou um grande filme de estúdio. Orçamento milionário, distribuição
mundial, estrelas à disposição e a possibilidade de alcançar uma audiência que
dificilmente um projeto pessoal conseguiria reunir.
Para a maioria dos cineastas, pareceria a oportunidade de
uma vida. Alguns disseram não.
David Lynch foi procurado por George Lucas para dirigir O
Retorno de Jedi. Depois de O Homem Elefante, Hollywood havia
descoberto que aquele diretor surgido do universo estranho de Eraserhead
também conseguia trabalhar em uma produção de maior alcance. Lynch, porém,
percebeu que entraria em um mundo que já pertencia a outra pessoa. Recusou.
Pouco depois aceitaria Duna e experimentaria justamente aquilo que
parecia temer: realizar uma grande produção sem possuir plenamente o controle
sobre o resultado.
Pedro Almodóvar viveu dilema semelhante por outros caminhos.
Depois que seu cinema conquistou projeção internacional, surgiram propostas
americanas, entre elas Mudança de Hábito. Mais tarde, ele se
interessaria por O Segredo de Brokeback Mountain, mas novamente
permaneceria fora de Hollywood. O problema não era desprezo pelo cinema
americano. Almodóvar simplesmente duvidava que as promessas de liberdade
criativa sobrevivessem às pressões inevitáveis de uma grande produção.
Para Mira Nair, a escolha foi ainda mais concreta. A
diretora de Monsoon Wedding teve a possibilidade de entrar no universo
de Harry Potter, mas preferiu realizar The Namesake. Sua
justificativa explica muito sobre o que está em jogo nessas decisões: a
franquia encontraria outro diretor, enquanto aquele projeto pessoal precisava
particularmente dela.
Wong Kar-wai também recebeu propostas lucrativas dos grandes
estúdios e preferiu continuar trabalhando de outra maneira. Sua preocupação
estava relacionada ao próprio significado de receber dezenas de milhões de
dólares para fazer um filme. Um orçamento dessa dimensão traz possibilidades,
mas também expectativas. Quem investe muito precisa alcançar muita gente. Para
um diretor acostumado a descobrir seus filmes durante o processo, isso poderia
alterar não apenas a escala da produção, mas sua própria maneira de criar.
Bong Joon-ho enfrentou uma questão parecida quando, depois
de O Hospedeiro, começaram a surgir propostas para franquias e
blockbusters. Bong não rejeitaria grandes produções ao longo da carreira. O que
procurou preservar foi algo mais específico: controle criativo, especialmente
sobre a versão final de seus filmes. Crescer interessava. Tornar-se apenas o
profissional encarregado de executar uma propriedade de outra pessoa, não.
Guillermo del Toro oferece talvez o exemplo mais curioso.
Ele recusou Se7en mesmo reconhecendo que tinha diante de si um ótimo
roteiro. Considerou que a história exigia uma sensibilidade diferente da sua.
David Fincher acabou dirigindo o filme. A decisão mostra que preservar uma
identidade artística nem sempre significa rejeitar projetos ruins. Às vezes
significa reconhecer que um excelente filme deveria ser realizado por outro
cineasta.
Michael Haneke encontrou outra contradição. Depois de
conquistar prestígio internacional, começou a receber propostas americanas que
pouco pareciam ter a ver com os filmes responsáveis por aquele prestígio.
Hollywood queria o diretor premiado, mas isso não significava necessariamente
que soubesse o que fazer com seu cinema.
As histórias são diferentes porque os sete cineastas não
mantêm a mesma relação com Hollywood. Alguns acabaram realizando produções
americanas. Outros trabalharam com grandes orçamentos e estrelas
internacionais. Nenhum desses casos precisa ser transformado numa oposição
simplista entre pureza artística e cinema comercial.
Existe uma questão mais interessante.
Um diretor constrói sua filmografia também com os filmes que
decide não fazer. Cada projeto ocupa anos de trabalho, aproxima determinados
colaboradores, modifica uma carreira e inevitavelmente impede que outra obra
seja realizada naquele mesmo período. Dizer sim a um filme significa dizer não
a muitos outros.
Por isso é tão divertido imaginar O Retorno de Jedi
de David Lynch, Mudança de Hábito de Almodóvar, um Harry Potter
de Mira Nair ou Se7en de Guillermo del Toro. Mas talvez essas
possibilidades nunca realizadas revelem algo mais importante do que simples
histórias alternativas do cinema.
Hollywood ofereceu a esses diretores filmes maiores. Cada um
precisou decidir se, dentro deles, ainda conseguiria fazer o seu próprio
cinema.
Quer conhecer melhor essas sete histórias e descobrir o
que cada diretor decidiu preservar ao dizer não?
A investigação completa está na Biblioteca da Filmoteca,
na seção se7e.