O quarto movimento da travessia
Entre o Enigma e a Cura acompanha um percurso em
cinco movimentos. Primeiro, o sujeito se perde diante daquilo que rompe a
estabilidade de sua identidade. Depois, percebe que certos comportamentos e
conflitos retornam como repetição. No terceiro movimento, a palavra introduz a possibilidade
de narrar a experiência e produzir algum deslocamento. O quarto bloco parte
justamente do ponto em que essa possibilidade deixa de ser apenas individual:
falar pode abrir caminhos, mas é na relação com o outro que aquilo que foi dito
encontra escuta, resistência, diferença e, eventualmente, condições para
transformar a maneira como o sofrimento é vivido.
Essa passagem é importante porque impede que a jornada seja
entendida como um processo puramente interior. Ninguém reorganiza completamente
a própria experiência em isolamento. Aquilo que pensamos sobre nós mesmos
também foi construído nas relações que tivemos, nas expectativas que recebemos,
nas perdas que enfrentamos e nas maneiras pelas quais fomos reconhecidos ou
recusados pelos outros. O vínculo, portanto, não aparece aqui como solução
romântica para o sofrimento, mas como um espaço no qual algo que parecia
imutável pode adquirir outra configuração.
É essa a ideia que aproxima os cinco filmes de Elaboração
e Vínculo. Em todos eles, o encontro modifica alguma coisa, mas a curadoria
evita sugerir que toda relação necessariamente cura. O percurso começa com
vínculos capazes de oferecer suporte relativamente concreto, avança para
relações que transformam profundamente os sujeitos e termina diante de uma
constatação mais difícil: existem sofrimentos que nem mesmo a presença do outro
consegue reparar completamente. A progressão vai, portanto, do vínculo como
suporte ao vínculo como transformação e, finalmente, ao vínculo como limite.
Em O Discurso do Rei, essa função aparece de maneira particularmente clara. A gagueira de George VI poderia ser tratada apenas como dificuldade técnica, mas o filme gradualmente revela que falar envolve também sua relação com autoridade, exposição, medo e confiança. Lionel Logue não oferece apenas exercícios de dicção. A relação construída entre os dois cria um espaço no qual o rei pode experimentar a palavra de outra maneira. A melhora não acontece independentemente do vínculo, mas dentro dele.
Intocáveis retira essa transformação do espaço terapêutico e a coloca na experiência cotidiana. Philippe continua tetraplégico, e o filme não pretende apresentar a amizade como solução para sua condição. O que muda é a maneira como a vida pode ser habitada. Driss introduz movimento, risco, humor e espontaneidade em uma existência que havia se tornado fortemente organizada em torno do limite. A relação não elimina aquilo que não pode ser modificado, mas altera o campo de possibilidades ao redor dele.
Com Ela, Spike Jonze torna a questão mais ambígua ao perguntar o que acontece quando o vínculo existe sem a presença física do outro. A relação entre Theodore e Samantha não é menos capaz de produzir afeto porque se desenvolve entre um homem e um sistema operacional. Theodore se modifica por meio dela, revê experiências anteriores e encontra novas possibilidades emocionais. Ao mesmo tempo, o próprio vínculo se transforma enquanto acontece e acaba revelando sua impossibilidade de permanecer como havia sido imaginado. A relação produz mudança, mas não oferece permanência.
Em Columbus, a transformação torna-se ainda mais discreta. Casey e Jin não entram na vida um do outro para resolver problemas nem para assumir a responsabilidade pelo destino alheio. A relação funciona de maneira mais sutil: cada um oferece ao outro uma perspectiva a partir da qual aquilo que parecia estabelecido pode ser reconsiderado. Conversas, silêncios e a própria atenção compartilhada aos espaços da cidade criam pequenas alterações na forma como ambos enxergam suas escolhas. O vínculo não conduz a uma grande ruptura, mas torna possível um deslocamento interior que talvez não acontecesse sem aquele encontro.
A progressão encontra seu ponto mais radical em Manchesterà Beira-Mar. Kenneth Lonergan recusa justamente a expectativa que os filmes anteriores poderiam ter criado. Lee encontra pessoas que o amam, vínculos que permanecem disponíveis e razões concretas para reconstruir sua vida. Nada disso, porém, é suficiente para apagar aquilo que aconteceu. O outro pode acolher, acompanhar e oferecer possibilidades, mas existem experiências cuja intensidade estabelece um limite para aquilo que a relação consegue transformar. A ausência de uma grande catarse não significa que nada tenha mudado. Significa apenas que a mudança possível pode ser muito menor do que aquela que gostaríamos de encontrar. É justamente esse limite que encerra o bloco.
Vistos em conjunto, os cinco filmes constroem uma ideia de
vínculo muito distante da noção simplificadora de que precisamos apenas
encontrar a pessoa certa para superar nossos conflitos. O outro pode sustentar
a palavra, devolver movimento à experiência, provocar transformações profundas
ou simplesmente criar um espaço no qual seja possível olhar para a própria vida
de outra maneira. Mas também pode chegar até uma fronteira além da qual não
consegue avançar. A elaboração acontece na relação sem que isso transforme a
relação em garantia de cura.
Essa constatação prepara o último movimento de Entre o
Enigma e a Cura. Depois de perder-se, repetir, falar e relacionar-se, o
sujeito não chega a um ponto em que tudo finalmente se resolve. A travessia
conduz a uma possibilidade mais modesta e talvez mais humana: transformar-se
sem deixar de carregar aquilo que não pôde ser inteiramente solucionado. No
quinto e último bloco, a pergunta já não será como eliminar o enigma, mas como
continuar vivendo quando compreendemos que alguma parte dele permanecerá
conosco.