Quando a história não basta: o que mais pode nos prender
a um filme?
No terceiro episódio de UM NOVO OLHAR, Cinzas no
Paraíso, de Terrence Malick, conduz o espectador a uma experiência que
começa com uma pergunta aparentemente simples: quando uma história avança
pouco, o que ainda pode fazer valer o tempo passado diante de um filme?
Nos dois primeiros episódios do capítulo Quando parece
que nada acontece, o percurso procurou enfrentar gradualmente uma das
resistências mais comuns diante de certos tipos de cinema. Primeiro, Viajo
Porque Preciso, Volto Porque Te Amo propôs distinguir acontecimentos de
mudanças, mostrando que um filme pode apresentar poucos fatos e ainda assim
acompanhar transformações importantes. Depois, A Tartaruga Vermelha
praticamente eliminou as palavras e levou o espectador a perceber de onde vinha
sua curiosidade quando os diálogos deixavam de explicar personagens,
sentimentos e intenções.
Uma história interessante é uma poderosa fonte de prazer
cinematográfico, mas está longe de ser a única. Podemos permanecer interessados
porque gostamos daquilo que vemos, porque uma música nos envolve, porque a
presença de um ator nos fascina, porque queremos observar uma relação, porque
aquele filme nos permite habitar durante algum tempo outro lugar ou outra
época. Podemos continuar porque estamos descobrindo um mundo que desconhecíamos
ou simplesmente porque gostamos da sensação que a experiência produz em nós.
O episódio não pretende transformar essas possibilidades
numa aula sobre linguagem cinematográfica. O participante não precisará
aprender fotografia, montagem, atuação ou utilização do som. A proposta é
anterior: ampliar os lugares nos quais ele sabe procurar interesse quando a
narrativa deixa de fazer todo o trabalho.
Por isso, UM NOVO OLHAR não propõe ensinar o espectador a
gostar de Cinzas no Paraíso. O objetivo é aumentar a quantidade de
portas que ele poderá experimentar antes de concluir que não existe nada
naquele filme capaz de interessá-lo.
Depois da sessão, o Caderno se transforma na base para uma
conversa orientada com inteligência artificial. A IA não analisa o filme nem
explica Malick. Ela ajuda o participante a comparar aquilo que já fazia
espontaneamente, o que eventualmente percebeu depois da intervenção e o que
permaneceu disponível quando deixou de procurar conscientemente.
Ao final, não importa se Cinzas no Paraíso se tornou
um filme admirado. A descoberta pretendida é outra. Diante de uma narrativa que
avança pouco, talvez o espectador já não precise formular imediatamente a
conhecida sentença de que “nada acontece”. Antes dela, poderá fazer uma
pergunta nova:
O que mais este filme está me oferecendo?
O Episódio 3 de UM NOVO OLHAR, com o ensaio, a
experiência guiada, o Caderno de Experiência e o Prompt Filmoteca para a
conversa com IA, já está disponível na Biblioteca da Filmoteca.