FILMOTECA - Revista de Cinema: Pág. 6


TEMPORADA 1 - O que realmente é Hollywood?

Capítulo 4. Por que os estúdios colocam tanto dinheiro nas franquias?


Existe uma sensação bastante difundida de que Hollywood produz franquias demais. Continuações, remakes, reboots, super-heróis e adaptações de propriedades conhecidas parecem ocupar cada vez mais espaço. Mas talvez a questão mais interessante não seja quantos desses filmes são realizados. O que chama a atenção é quanto dinheiro Hollywood está disposta a colocar neles.

Os lançamentos de 2025 oferecem um retrato revelador. Em nosso levantamento, identificamos 15 produções cinematográficas lançadas naquele ano com orçamento reportado de pelo menos US$ 150 milhões. Apenas uma, Elio, da Pixar, partia de uma propriedade narrativa inteiramente original. As outras 14 estavam associadas, de diferentes maneiras, a algo previamente conhecido pelo público: franquias, continuações, reboots, remakes, adaptações ou marcas estabelecidas.

Isso não significa que 14 de cada 15 filmes produzidos por Hollywood pertençam a franquias. Significa algo mais específico: quando a aposta chegou a pelo menos US$ 150 milhões, aproximadamente 93% das produções de nossa amostra não começaram do zero.

A explicação está na própria natureza do negócio. Um blockbuster exige um público gigantesco para justificar seu investimento, mas nenhum estúdio consegue prever com segurança quantas pessoas comprarão ingressos. Quanto maior o orçamento, maior o impacto dessa incerteza.

Uma propriedade conhecida oferece informações que uma história inteiramente nova ainda não possui. Filmes anteriores fornecem dados de bilheteria e permitem conhecer mercados onde determinada marca funciona melhor. Livros, quadrinhos e videogames podem chegar ao cinema trazendo comunidades de fãs já estabelecidas. Personagens conhecidos também possuem uma vantagem elementar: não precisam ser apresentados ao público pela primeira vez.

É por isso que a lógica vai muito além das continuações. A Minecraft Movie, por exemplo, inaugurou sua trajetória no cinema em 2025, mas dificilmente poderia ser considerado uma aposta em algo desconhecido. Antes do filme existir, Minecraft já era uma propriedade global reconhecida por milhões de pessoas.

Essa concentração dos grandes investimentos ajuda também a explicar por que temos a impressão de que Hollywood faz tantas franquias. Filmes de US$ 150 milhões ou US$ 200 milhões precisam alcançar públicos enormes e, por isso, costumam chegar acompanhados por grandes campanhas publicitárias, lançamentos internacionais e forte presença na mídia. Uma produção original de orçamento muito menor pode contar como um filme na estatística anual, assim como um blockbuster de US$ 200 milhões, mas dificilmente terá a mesma visibilidade. As franquias não precisam ser maioria para ocupar o centro das atenções.

Nada disso significa que sejam investimentos seguros. Tron: Ares, por exemplo, teve orçamento reportado próximo de US$ 180 milhões e arrecadou cerca de US$ 142 milhões mundialmente. Uma propriedade conhecida pode fornecer histórico, reconhecimento e um público potencial mais fácil de identificar, mas não pode obrigar esse público a comprar ingressos.

É justamente aí que está o mecanismo invisível. Hollywood continua produzindo histórias originais e assumindo riscos. O que os grandes orçamentos de 2025 sugerem é que, quando centenas de milhões de dólares entram em jogo, a disposição para apostar em uma propriedade completamente nova diminui drasticamente.

Quanto maior o dinheiro em risco, maior parece ser a resistência de Hollywood a começar do zero.

Na Biblioteca da FILMOTECA, o Capítulo 4 de Mecanismos Invisíveis do Cinema aprofunda essa investigação e mostra como risco, propriedade intelectual e grandes orçamentos ajudam a explicar para onde vai o dinheiro dos estúdios.