Existe uma sensação bastante difundida entre os espectadores de que Hollywood está produzindo franquias demais. Continuações sucedem continuações, personagens conhecidos retornam em novas versões, filmes antigos são refeitos e livros, quadrinhos e videogames populares são transformados em grandes produções. Quando observamos os lançamentos que dominam a publicidade e ocupam as principais salas de cinema, pode parecer que a indústria abandonou as histórias originais. Mas talvez estejamos fazendo a pergunta errada.
Hollywood continua produzindo filmes originais, assim como produções de pequeno e médio orçamento que não pertencem a universos previamente estabelecidos. O fenômeno mais interessante aparece quando observamos não quantos filmes de cada tipo são produzidos, mas onde os grandes estúdios colocam suas maiores apostas financeiras.Nesse território, a concentração é impressionante. Entre as produções cinematográficas lançadas em 2025 que identificamos com orçamento reportado de pelo menos US$ 150 milhões, apenas uma partia de uma propriedade narrativa inteiramente original. Todas as demais estavam associadas, de diferentes maneiras, a algo que o público já conhecia.
Quanto maior a aposta, maior o problema
No capítulo anterior desta série, vimos como um blockbuster é financiado e por que o risco de uma grande produção pode ser dividido entre diferentes participantes. Mas dividir o risco não significa eliminá-lo.Um filme de US$ 150 milhões ou US$ 200 milhões ainda precisa
encontrar um público gigantesco para justificar o investimento. Além do
orçamento de produção, existem os gastos de marketing e distribuição, enquanto
apenas uma parcela da bilheteria retorna efetivamente aos responsáveis pelo
filme.
E existe um problema que nenhuma estrutura financeira
consegue resolver completamente: ninguém sabe antecipadamente qual será a
reação do público.
Hollywood dispõe de pesquisas de mercado, sessões-teste, análises de dados e mais de um século de experiência comercial. Mesmo assim, filmes considerados apostas seguras fracassam, enquanto projetos aparentemente improváveis algumas vezes se transformam em fenômenos. Quanto maior o orçamento, mais incômoda se torna essa incerteza.
Imagine um estúdio avaliando dois projetos de US$ 200 milhões. O primeiro apresenta uma história que ninguém conhece, personagens inteiramente novos e um universo que precisará conquistar seu público desde o início. O segundo parte de personagens conhecidos, possui resultados anteriores que podem ser analisados e conta com uma marca reconhecida em diversos mercados. Nenhum dos dois oferece garantia de sucesso.
O que aconteceu com os grandes orçamentos de 2025?
Os lançamentos de 2025 oferecem um retrato particularmente claro dessa lógica. Em nosso levantamento, identificamos 15 produções cinematográficas lançadas naquele ano com orçamento reportado igual ou superior a US$ 150 milhões.
Dessas 15 grandes apostas, 14 estavam apoiadas em alguma propriedade previamente conhecida. O grupo inclui continuações, franquias, reboots, remakes, adaptações e projetos associados a marcas que já possuíam reconhecimento antes do lançamento do filme. Apenas uma, Elio, da Pixar, partia de uma propriedade narrativa inteiramente original.Isso representa aproximadamente 93% das produções da
amostra apoiadas em algum tipo de reconhecimento prévio, contra cerca de 7%
de propriedade narrativa original.
É importante compreender exatamente o que esse número
significa.
Ele não demonstra que 93% dos filmes produzidos por
Hollywood sejam franquias. Não demonstra que uma franquia necessariamente
arrecade mais do que um filme original. Tampouco significa que os grandes
estúdios tenham deixado de financiar novas histórias.
O dado mostra algo muito mais específico: quando o orçamento de produção alcançou pelo menos US$ 150 milhões, começar com uma propriedade narrativa inteiramente nova tornou-se excepcional.
O valor de não começar do zero
Uma propriedade conhecida oferece algo muito valioso antes
mesmo de a primeira cena ser filmada: informação.
Quando existem filmes anteriores, o estúdio pode estudar
resultados de bilheteria, mercados internacionais, perfil dos espectadores e
desempenho de personagens. Quando a propriedade vem dos livros, quadrinhos ou
videogames, pode existir uma comunidade de fãs formada muito antes de Hollywood
adquirir seus direitos.
O reconhecimento também interfere na maneira como o filme chega ao mercado. Um novo Batman, Superman ou Jurassic World não precisa explicar ao público quem são seus personagens fundamentais. Mesmo pessoas que não acompanharam os filmes anteriores podem reconhecer imediatamente aquela propriedade.
A Minecraft Movie ajuda a compreender por que essa
lógica é mais ampla do que simplesmente produzir continuações. O filme não era
sequência de uma franquia cinematográfica. Era o primeiro longa-metragem
baseado no jogo. Mas seria difícil tratá-lo economicamente como uma aposta
equivalente a uma história completamente desconhecida. Minecraft já possuía uma
enorme base mundial de jogadores e uma marca reconhecida antes que o filme
existisse.
É por isso que os estúdios não procuram apenas franquias
cinematográficas. Procuram propriedades intelectuais capazes de trazer alguma
coisa consigo: personagens conhecidos, uma história popular, uma comunidade de
fãs, uma memória cultural ou simplesmente um nome que milhões de pessoas
reconheçam.
Por que parece que Hollywood só faz franquias?
Filmes de grande orçamento precisam alcançar públicos
enormes. Por isso, costumam estar associados a campanhas de divulgação de
grande escala e a lançamentos amplos, capazes de ocupar simultaneamente
milhares de salas e diversos mercados internacionais.
Trailers, publicidade, redes sociais, entrevistas, ações promocionais, parcerias comerciais e cobertura da imprensa transformam os maiores lançamentos em acontecimentos culturais. Se as propriedades conhecidas estão desproporcionalmente presentes entre os filmes de maior orçamento, é natural que também estejam muito presentes entre os títulos que disputam com maior intensidade a atenção do espectador. Isso pode produzir uma espécie de ilusão de quantidade.
As franquias não precisam representar a maioria de todos os
filmes realizados para parecerem dominantes. Elas precisam ocupar uma parcela
muito grande daquilo que Hollywood transforma em grande evento.
Um filme pode ser apenas uma parte do negócio
Existe outra razão para que algumas propriedades justifiquem
investimentos tão grandes.
Para os conglomerados contemporâneos, determinados
personagens e universos não geram valor apenas nas salas de cinema. Eles podem
circular pelo streaming, televisão, games, brinquedos, roupas, livros, produtos
colecionáveis, licenciamento e, em alguns casos, parques temáticos e
experiências presenciais.
O filme passa a fazer parte de um ativo maior.
Essa lógica alcançou uma de suas formas mais sofisticadas
com os universos cinematográficos. O Universo Cinematográfico Marvel demonstrou
que diferentes filmes poderiam alimentar o interesse uns pelos outros.
Personagens apresentados em uma produção reapareciam em outra, histórias
individuais conduziam a encontros maiores e cada sucesso ajudava a preparar o
mercado para lançamentos posteriores.
Para o estúdio, a perspectiva é muito mais atraente do que
simplesmente produzir um grande filme. Uma propriedade bem administrada pode
sustentar uma sequência de negócios durante muitos anos.
Conhecido não significa seguro
Não são. Os próprios lançamentos de 2025 oferecem exemplos suficientes. Tron: Ares, pertencente a uma franquia estabelecida, teve orçamento reportado em aproximadamente US$ 180 milhões e terminou com bilheteria mundial próxima de US$ 142 milhões. Branca de Neve, apoiado em uma das propriedades mais reconhecíveis da história da Disney, também arrecadou mundialmente menos do que seu orçamento de produção reportado.
O reconhecimento prévio não obriga ninguém a comprar um ingresso. Uma franquia pode perder relevância. Uma sequência pode chegar depois que o interesse desapareceu. Um remake pode ser rejeitado. Um universo pode cansar o público. Uma marca conhecida pode simplesmente produzir um filme que poucas pessoas desejam assistir.
E onde ficam as histórias originais?
A concentração das maiores apostas em propriedades conhecidas não significa que Hollywood tenha abandonado a originalidade. Significa que o risco parece estar sendo distribuído de maneira diferente.
Filmes originais continuam sendo produzidos, mas tendem a
disputar investimentos em outras escalas. Um projeto de US$ 20 milhões, US$ 30
milhões ou US$ 50 milhões não precisa encontrar centenas de milhões de
espectadores para construir uma trajetória comercial satisfatória. Também pode
permitir que o estúdio assuma riscos que seriam muito mais difíceis de aceitar
em uma produção de US$ 200 milhões.
Surge, então, um paradoxo importante. Hollywood precisa de histórias novas para renovar personagens, gêneros e públicos. As franquias de amanhã precisam nascer em algum lugar. Ao mesmo tempo, quando o custo de uma produção cresce extraordinariamente, aumenta a pressão para utilizar propriedades que já oferecem algum grau de reconhecimento.
Para onde vai o grande dinheiro de Hollywood?
Talvez essa seja uma pergunta mais reveladora do que
simplesmente contar quantas franquias Hollywood produz.
O dado de 2025 oferece uma resposta bastante clara. Entre as
15 produções cinematográficas que identificamos com orçamento reportado de pelo
menos US$ 150 milhões, apenas uma partia de uma propriedade narrativa
inteiramente original.
Não significa que as outras 14 fossem investimentos seguros.
Algumas foram enormes sucessos. Outras tiveram resultados decepcionantes.
Significa que, antes de saber o resultado, os responsáveis por colocar centenas
de milhões de dólares nesses projetos quase sempre escolheram começar com
alguma coisa que o público já conhecia.
Esse é o mecanismo invisível por trás de boa parte das franquias contemporâneas. Quanto maior o dinheiro em risco, maior parece ser a resistência de Hollywood a começar do zero.
E como essas grandes apostas precisam alcançar públicos
igualmente grandes, surge a próxima etapa da engrenagem. Depois de financiar um
filme e decidir onde colocar seus maiores investimentos, Hollywood precisa
fazê-lo chegar a milhares de salas, em dezenas de países, no momento
considerado mais favorável.
No próximo capítulo de Mecanismos Invisíveis do Cinema:
Como um filme chega aos cinemas?