POR QUE ALGUNS FILMES PARECEM DIFÍCEIS DEMAIS?
A experiência não amplia apenas nosso repertório. Ela
também pode modificar nossa capacidade de acompanhar e compreender filmes. Essa
constatação está levando a Formação de Cinéfilos a uma nova etapa.
Duas pessoas assistem ao mesmo filme. Para uma delas, a
narrativa parece perfeitamente compreensível. A outra começa acompanhando a
história, mas em algum momento perde uma informação, deixa de compreender a
relação entre dois personagens e já não sabe exatamente por que determinada
decisão foi tomada. Continua assistindo, mas alguma coisa se rompeu. No final,
talvez resuma a experiência dizendo que o filme era confuso.
Alguns filmes facilitam bastante esse trabalho. Outros
explicam menos, apresentam mais personagens, utilizam elipses, alteram a
cronologia ou esperam que determinadas relações sejam percebidas sem que
ninguém precise verbalizá-las. Isso não torna necessariamente um filme melhor
do que outro, mas pode torná-lo mais exigente para o espectador.
O REPERTÓRIO TAMBÉM MUDA A MANEIRA COMO ASSISTIMOS
Quando falamos em desenvolver repertório, normalmente
pensamos em ampliar nosso conhecimento sobre cinema. Assistimos a mais
diretores, épocas, países, movimentos e formas de narrativa e passamos a
possuir mais referências para compreender aquilo que encontramos.
Mas a experiência acumulada parece produzir também outro
aprendizado. Depois de muitos filmes, certas operações tornam-se mais naturais.
Conseguimos conviver melhor com informações incompletas, perceber relações
menos explícitas, acompanhar elipses e reconhecer estruturas narrativas que
anteriormente poderiam nos deixar perdidos.
Isso ajuda a explicar uma experiência comum entre cinéfilos.
Voltamos anos depois a um filme que parecia extremamente difícil e descobrimos
que agora conseguimos acompanhá-lo com muito mais facilidade. O filme
permaneceu igual. O espectador acumulou experiências que modificaram sua
maneira de assistir.
Essa constatação levou a uma pergunta importante durante a
preparação do novo capítulo da Trilha 1 da FORMAÇÃO DE CINÉFILOS: se
essa capacidade se desenvolve principalmente pela experiência, seria possível
tornar essa experiência mais formativa?
NÃO SE APRENDE A OBSERVAR APENAS LENDO SOBRE OBSERVAÇÃO
O Capítulo 5 da Trilha 1, Como observar um filme,
parte justamente desse problema. Seria contraditório apresentar algumas
recomendações sobre como prestar atenção e imaginar que, ao terminar a leitura,
alguém teria aprendido a observar melhor.
Observação exige prática. E a mesma questão surgirá no
próximo capítulo, dedicado à interpretação.
A comparação com o ensino de literatura ajuda a compreender
o caminho que pretendemos seguir. Um estudante pode aprender princípios de
interpretação de texto em uma aula, mas sua capacidade de interpretar se
desenvolve ao longo de anos, enfrentando textos diferentes e progressivamente
mais complexos. Enquanto isso, continua estudando as demais disciplinas.
Queremos transportar esse princípio para o cinema.
UMA NOVA ETAPA DA FORMAÇÃO
Depois da publicação do Capítulo 6, Como interpretar um
filme, a Formação de Cinéfilos ganhará uma nova seção: OBSERVAÇÃO E
INTERPRETAÇÃO DE FILMES, um desdobramento da própria Trilha 1.
As Trilhas continuarão avançando normalmente, enquanto
observação e interpretação serão trabalhadas paralelamente ao longo da
formação, utilizando trechos e filmes completos com graus progressivos de
complexidade. A metodologia ainda está sendo desenvolvida e será apresentada
quando a nova seção for lançada.
Não existe um atalho capaz de substituir dezenas ou centenas
de experiências diante dos filmes. O que podemos tentar fazer é tornar parte
dessas experiências mais consciente e formativa, reduzindo o caminho necessário
para desenvolver determinadas capacidades.
Talvez isso também mude nossa relação com aqueles filmes que
um dia consideramos difíceis demais. Em vez de concluirmos que determinado
cinema simplesmente “não é para nós”, podemos considerar outra possibilidade: talvez
ainda estejamos nos preparando para ele.
O Capítulo 5 - Como observar um filme já está
disponível na Biblioteca da FILMOTECA.