TRILHA 1 - PASSOS PARA AMPLIAR A CULTURA CINÉFILA


Capítulo 5 - Como observar um filme



Acompanhar um filme parece uma atividade natural, mas exige que reconheçamos personagens, retenhamos informações, estabeleçamos relações e percebamos transformações enquanto a narrativa avança. Desenvolver essa capacidade faz parte da formação do olhar e, como veremos, depende sobretudo da experiência acumulada diante dos filmes.

QUANDO PERDEMOS O FIO DE UM FILME

Provavelmente isso já aconteceu com você. O filme começa e acompanhamos sem dificuldade aquilo que está acontecendo. Os personagens são apresentados, começamos a compreender as relações entre eles e sabemos, pelo menos em linhas gerais, qual situação está movimentando a história.

Então surge um personagem que talvez já tivesse sido mencionado. Alguém toma uma decisão cuja motivação não conseguimos compreender inteiramente. Uma conversa faz referência a um acontecimento anterior que não lembramos bem. Percebemos que determinada relação mudou, mas não sabemos exatamente quando isso aconteceu. Talvez tenha ocorrido um salto no tempo sem que o tenhamos percebido imediatamente.

Em algum momento aparece uma sensação bastante conhecida: acho que perdi alguma coisa.

Às vezes conseguimos reconstruir rapidamente o caminho. Uma informação posterior esclarece a dúvida, lembramos de uma cena anterior ou simplesmente percebemos que o próprio filme ainda não havia explicado aquilo que tentávamos compreender.

Em outras ocasiões, porém, a dificuldade aumenta. Uma informação que não assimilamos passa a ser necessária para compreender outra, que por sua vez será importante para a cena seguinte. Pouco a pouco, começamos a perder as relações que mantinham a narrativa organizada.

Podemos continuar diante da tela até os créditos. Continuamos vendo imagens, ouvindo diálogos e reconhecendo acontecimentos isolados. Mas já não estamos acompanhando verdadeiramente o filme.

Por que isso acontece?

A pergunta nos leva a uma capacidade sobre a qual raramente pensamos: observar um filme.

ACOMPANHAR UM FILME É MAIS COMPLEXO DO QUE PARECE

Quando assistimos a um filme, não recebemos uma história pronta que simplesmente vai sendo depositada em nossa memória. A narrativa chega aos poucos, distribuída entre cenas que acrescentam informações, modificam aquilo que sabíamos anteriormente e criam expectativas sobre o que ainda poderá acontecer.

Enquanto isso, realizamos uma quantidade considerável de operações sem sequer perceber.

Precisamos reconhecer personagens e guardar alguma informação sobre eles. Aos poucos descobrimos quem conhece quem, quais relações existem entre aquelas pessoas, o que cada uma deseja e quais acontecimentos anteriores ajudam a explicar suas atitudes. Quando uma nova informação aparece, precisamos relacioná-la ao que já sabemos.

Também formulamos hipóteses. Podemos suspeitar que alguém esteja mentindo, imaginar a razão de determinado comportamento ou acreditar que compreendemos a relação entre dois acontecimentos. Mais tarde, o filme pode confirmar nossa hipótese, modificá-la ou mostrar que estávamos enganados. Precisamos então reorganizar aquilo que pensávamos saber.

Na maior parte do tempo, fazemos tudo isso naturalmente. Não assistimos pensando conscientemente que precisamos armazenar uma informação para recuperá-la quarenta minutos depois. Simplesmente acompanhamos.

É justamente por isso que raramente percebemos a existência dessa capacidade até encontrarmos um filme que exige mais dela.

NEM TODOS OS FILMES EXIGEM A MESMA COISA DO ESPECTADOR

Há narrativas que facilitam bastante nosso trabalho. Os personagens principais são apresentados claramente, suas relações são explicadas, os acontecimentos seguem uma ordem cronológica facilmente reconhecível e as informações importantes costumam ser reforçadas quando necessário.

Outros filmes confiam mais na participação do espectador. Podem apresentar muitos personagens em pouco tempo, omitir acontecimentos, realizar saltos temporais, fornecer uma informação apenas uma vez ou deixar que determinadas relações sejam compreendidas por aquilo que os personagens fazem, sem que ninguém precise explicá-las em um diálogo.

Isso não estabelece qualquer hierarquia de qualidade. Uma narrativa extremamente simples pode produzir um grande filme, enquanto uma estrutura complicada não transforma automaticamente uma obra em algo mais sofisticado. Estamos falando apenas de diferentes formas e graus de exigência.

Essa diferença se torna particularmente importante quando ampliamos nosso repertório. Durante muito tempo podemos permanecer próximos de formas narrativas que conhecemos bem. Quando começamos a descobrir outros períodos, cinematografias, movimentos e autores, algumas convenções que pareciam naturais deixam de existir.

Um filme pode explicar menos do que esperamos, dedicar tempo a acontecimentos que inicialmente parecem pouco importantes ou confiar que conseguiremos estabelecer determinadas relações sozinhos.

Nesses encontros, uma frase aparece com frequência: “não entendi o filme”.

Mas talvez precisemos descobrir primeiro o que exatamente não entendemos.

NEM TODA CONFUSÃO SIGNIFICA QUE PERDEMOS ALGUMA COISA

No capítulo anterior, Como assistir melhor, discutimos uma situação importante: nem toda dúvida precisa ser resolvida enquanto o filme está acontecendo. Algumas informações somente ganharão sentido posteriormente, certas perguntas permanecerão deliberadamente abertas durante boa parte da narrativa e há filmes que trabalham justamente com nossa incerteza.

Agora podemos avançar nessa questão.

Existem pelo menos duas razões muito diferentes pelas quais podemos não compreender alguma coisa durante um filme.

A primeira é simples: o filme ainda não nos forneceu as informações necessárias. Não sabemos quem é determinada pessoa porque ainda não deveríamos saber. Não compreendemos uma decisão porque uma informação importante será apresentada mais tarde. Não conseguimos estabelecer a relação entre duas cenas porque o filme ainda está construindo essa relação.

Nesse caso, nossa dúvida pertence à própria experiência proposta pela obra.

Mas existe outra possibilidade: o filme já apresentou a informação necessária e ela passou despercebida. Talvez a tenhamos compreendido quando apareceu, mas não a conservamos. Ou talvez tenhamos guardado duas informações sem perceber que precisávamos relacioná-las.

As duas situações podem produzir exatamente a mesma sensação: não estou entendendo.

Aprender a acompanhar filmes mais exigentes envolve também desenvolver alguma tolerância diante dessa incerteza. Nem sempre precisamos interromper a sessão, voltar alguns minutos ou procurar uma explicação. Às vezes, a atitude mais adequada é continuar assistindo e permitir que o próprio filme revele se aquela dúvida fazia parte de sua construção.

Há uma diferença importante entre ainda não saber e ter perdido alguma coisa. Tornar-se progressivamente mais capaz de conviver com a primeira situação e reconhecer a segunda faz parte do desenvolvimento do olhar.

O QUE QUEREMOS DIZER QUANDO FALAMOS EM OBSERVAR UM FILME

A palavra “observar” pode sugerir um espectador procurando enquadramentos, movimentos de câmera, objetos importantes, mudanças de iluminação, símbolos ou qualquer detalhe que talvez esconda algum significado.

Não é disso que estamos falando.

Observar melhor também não significa abandonar a experiência para analisar conscientemente tudo aquilo que aparece na tela. Como vimos no capítulo anterior, transformar a sessão em uma busca permanente por informações e significados pode produzir justamente o efeito contrário.

Neste momento da Trilha, podemos utilizar uma definição mais simples:

Observar um filme é desenvolver progressivamente a capacidade de acompanhar as informações, relações e transformações que ele apresenta, inclusive quando não são explicadas diretamente, para compreender melhor aquilo que está acontecendo.

O cinema não transmite informações apenas através dos diálogos ou dos acontecimentos mais evidentes. Podemos perceber que uma relação mudou pela maneira como duas pessoas passaram a se comportar. A reação de um personagem pode revelar que ele sabe algo que imaginávamos desconhecer. Podemos compreender que algum acontecimento ocorreu mesmo que o filme não o tenha mostrado, porque estamos vendo suas consequências.

Quando acompanhamos um filme com facilidade, fazemos inúmeras inferências desse tipo sem perceber. Desenvolver a observação significa tornar-se progressivamente capaz de realizar essas operações também quando o filme exige mais de nós.

O FILME ESTÁ CONSTANTEMENTE MODIFICANDO AQUILO QUE SABEMOS

Podemos imaginar nossa compreensão de uma narrativa como algo que permanece em movimento durante toda a sessão. Em determinado momento sabemos algumas coisas sobre os personagens e acontecimentos, suspeitamos de outras e ignoramos muitas. A cena seguinte acrescenta alguma informação e modifica esse conjunto.

Talvez descubramos que um personagem mentiu. Uma atitude que anteriormente parecia incompreensível passa então a fazer sentido. Talvez uma informação nova nos obrigue a reconsiderar uma cena muito anterior. Em outros casos, aquilo que parecia apenas um detalhe acaba se tornando necessário para compreender uma decisão importante.

É por isso que um filme não existe apenas no instante que estamos vendo. Aquilo que aconteceu anteriormente permanece trabalhando dentro da experiência.

Uma informação apresentada aos vinte minutos pode ser necessária para compreender uma cena aos setenta. Um personagem aparentemente secundário pode reaparecer muito depois. Uma relação estabelecida discretamente no início pode explicar um conflito que somente se tornará evidente na parte final.

Quando conseguimos manter e atualizar essas relações, o filme avança e nossa compreensão avança com ele. Quando muitas delas começam a se romper, experimentamos aquela sensação descrita no início deste capítulo: ainda estamos diante da tela, mas já não conseguimos organizar inteiramente aquilo que vemos.

A EXPERIÊNCIA TAMBÉM MODIFICA NOSSA MANEIRA DE ASSISTIR

Nos capítulos anteriores falamos várias vezes sobre repertório. Mas existe um efeito da experiência acumulada que talvez seja menos evidente: assistir a filmes também modifica nossa própria capacidade de assistir.

Com o tempo, certas operações que anteriormente exigiam esforço podem começar a acontecer com maior naturalidade. Tornamo-nos mais confortáveis diante de informações incompletas, reconhecemos determinadas relações sem precisar que sejam verbalizadas, compreendemos melhor elipses e conseguimos acompanhar estruturas narrativas diferentes daquelas com as quais estávamos acostumados.

Isso ajuda a explicar uma experiência interessante. Às vezes voltamos, anos depois, a um filme que anteriormente parecia extremamente difícil e descobrimos que agora conseguimos acompanhá-lo com muito mais facilidade. Algumas relações que pareciam obscuras tornam-se claras e certas escolhas narrativas que nos confundiam já não representam a mesma dificuldade.

O filme continua sendo o mesmo. Quem mudou foi o espectador.

Nossa capacidade de observação, portanto, não precisa ser considerada uma característica fixa. Não existem simplesmente pessoas que “entendem filmes” e outras que não conseguem entendê-los. Há experiência acumulada, familiaridade com diferentes formas narrativas e capacidades que podem continuar se desenvolvendo.

É POSSÍVEL APRENDER A OBSERVAR MELHOR?

Se essa capacidade pode se desenvolver, parece natural perguntar se podemos aprender a desenvolvê-la de maneira mais consciente.

A resposta exige alguma cautela. Podemos explicar como uma narrativa distribui informações, mostrar por que às vezes perdemos determinadas relações e discutir maneiras de lidar com a sensação de confusão. Nenhuma dessas explicações, entretanto, substitui a experiência diante dos próprios filmes.

Seria contraditório imaginar que alguém pudesse desenvolver uma grande capacidade de observação simplesmente lendo orientações sobre como observar. Da mesma maneira que não construímos repertório sem assistir a filmes, não desenvolvemos plenamente essa capacidade sem enfrentar narrativas, perder informações, reconstruir relações, encontrar dificuldades e aprender progressivamente com essas experiências.

Isso não significa que o aprendizado precise acontecer inteiramente ao acaso.

Se sabemos que a experiência é necessária, podemos perguntar como torná-la mais formativa. Em vez de esperar apenas que a repetição produza resultados ao longo dos anos, podemos utilizar filmes, cenas e situações progressivamente mais desafiadoras para exercitar nossa capacidade de acompanhar informações, reconhecer relações e perceber transformações.

Não existe um atalho capaz de substituir a experiência.

Mas podemos fazer com que parte dessa experiência produza mais aprendizado.

ESTE CAPÍTULO É O COMEÇO DE UM NOVO PERCURSO

Até aqui, a Trilha apresentou principalmente ideias, hábitos e caminhos que podem ampliar nossa cultura cinéfila. A partir deste capítulo, entramos também no desenvolvimento de capacidades que dependem cada vez mais da prática diante dos próprios filmes.

Começamos pela capacidade de observar. No Capítulo 6, acrescentaremos outro movimento: interpretar. No Capítulo 7, chegaremos ao terceiro: comparar.

Não são três capacidades independentes.

OBSERVAR. INTERPRETAR. COMPARAR.

Quando observamos, acompanhamos aquilo que o filme apresenta, percebendo informações, relações e transformações. Quando interpretamos, estabelecemos relações entre aquilo que conseguimos observar e construímos possíveis sentidos. Quando comparamos, colocamos observações e interpretações diante de outras cenas, outros filmes e outras escolhas cinematográficas, criando novas possibilidades de compreensão.

Nenhum desses movimentos se desenvolve plenamente apenas através da leitura. Os conceitos podem orientar nossa experiência, chamar atenção para determinados problemas e oferecer instrumentos para enfrentá-los. Mas é diante dos filmes que essas capacidades realmente se desenvolvem.

Depois do Capítulo 7, esse percurso ganhará uma dimensão prática. Filmes, cenas e trechos serão utilizados para exercitar progressivamente essas capacidades, começando pela relação entre observar e interpretar e incorporando posteriormente a comparação.

Não pretendemos substituir a experiência necessária para formar o olhar. Queremos fazer com que essa experiência possa produzir mais aprendizado.

COMPREENDER O QUE ACONTECE AINDA NÃO É INTERPRETAR

Há uma razão para começarmos pela observação.

Podemos chegar ao final de um filme sabendo quem são os personagens, compreendendo suas motivações, reconhecendo como suas relações se transformaram e percebendo de que maneira os acontecimentos conduziram ao desfecho.

Nesse sentido, acompanhamos a narrativa.

Ainda assim, podemos sair da sessão com uma dúvida de natureza completamente diferente.

Talvez saibamos perfeitamente o que aconteceu, mas ainda não saibamos o que fazer com aquilo que aconteceu.

É nesse momento que começamos a perguntar por que determinadas situações foram colocadas em relação, o que uma transformação pode revelar, que ideias atravessam aquela história ou por que duas pessoas podem assistir ao mesmo filme e construir leituras diferentes.

Estamos deixando o território predominante deste capítulo e nos aproximando do segundo movimento.

No próximo capítulo, Como interpretar um filme, investigaremos a passagem entre aquilo que conseguimos observar e os sentidos que podemos construir a partir dessas observações.

Depois, a comparação acrescentará uma nova possibilidade. Uma cena pode iluminar outra. Dois personagens podem revelar diferenças que não percebíamos quando considerados isoladamente. Dois filmes podem enfrentar problemas semelhantes por meio de escolhas completamente distintas.

Somente depois desses três capítulos teremos reunido os fundamentos para iniciar essa etapa prática.

Por enquanto, podemos guardar uma ideia fundamental. Observar melhor não significa perceber tudo aquilo que existe em um filme nem transformar cada sessão em atividade de estudo. Significa desenvolver, experiência após experiência, uma capacidade cada vez maior de acompanhar aquilo que o cinema coloca diante de nós, reconhecendo quando uma dúvida faz parte da própria narrativa e quando alguma informação necessária pode ter escapado pelo caminho.

Essa capacidade não será construída em um capítulo.

Ela começa a ser construída aqui.