O público vai menos ao cinema, mas as salas não
desapareceram. Por trás desse aparente paradoxo está uma transformação na
maneira como escolhemos quais filmes ainda merecem ser vistos fora de casa.
A contradição ajuda a entender o momento vivido pelo setor.
O problema talvez não seja simplesmente o desaparecimento das salas, mas a
transformação da função que elas exercem na vida do espectador.
Desde 2019, a concorrência doméstica tornou-se muito mais
poderosa. O streaming se fragmentou entre várias plataformas, séries passaram a
consumir parcela importante do tempo disponível para entretenimento,
transmissões esportivas entraram nessa disputa e a pirataria também se
modernizou. Filmes que antes dependiam de downloads podem hoje aparecer em
interfaces ilegais semelhantes às plataformas convencionais.
Os números ajudam a responder. Em 2019, os cinco filmes de
maior público concentravam cerca de 35% dos ingressos vendidos no Brasil. Em
2024, essa participação se aproximou de 47%. Entre os vinte primeiros, a
concentração passou de aproximadamente 68% para mais de 75%. O público diminuiu
e, simultaneamente, passou a se concentrar mais nos grandes acontecimentos.
Isso não significa que apenas blockbusters funcionem. Barbie
transformou-se em fenômeno cultural, Oppenheimer fez da própria
tecnologia de projeção parte da experiência e Ainda Estou Aqui levou
milhões de brasileiros às salas sem ser uma superprodução hollywoodiana. O
elemento comum não era o orçamento, mas a capacidade de produzir urgência.
Para determinados filmes, esperar pelo streaming parece
razoável. Para outros, assistir enquanto todos estão falando sobre eles faz
parte da própria experiência.
Essa mudança tem consequências econômicas. Com menor
frequência, as exibidoras procuram aumentar a receita obtida em cada visita.
Formatos premium, salas VIP, IMAX, melhores poltronas e alimentação ganham
importância. Os balanços de grandes redes americanas mostram aumento da receita
por espectador mesmo sem recuperação completa do público.
No Brasil, não existem informações financeiras públicas
suficientes para afirmar se esse novo modelo remunera adequadamente o capital
investido. Há, porém, um limite evidente para a estratégia de cobrar mais:
cinema é lazer e possui inúmeros substitutos. Quanto maior o custo da saída,
mais seletivo tende a ficar o consumidor. E, quanto maior a seletividade, mais
importante se torna oferecer um filme que pareça justificar aquela despesa.
A economia das salas lembra, nesse aspecto, um negócio
aparentemente muito distante do cinema: uma fábrica de suco de laranja.
A fábrica precisa ter capacidade para processar a fruta
durante a safra, mesmo sabendo que parte dessa estrutura ficará ociosa em
outros meses. Uma rede de cinemas enfrenta problema semelhante. Precisa dispor
de salas suficientes para receber uma multidão quando chega um grande
lançamento, embora essa demanda possa desaparecer poucas semanas depois.
É por isso que a regularidade dos grandes lançamentos
importa tanto. Os estúdios acompanham cuidadosamente o calendário dos
concorrentes e alteram datas para evitar que filmes de enorme potencial
disputem simultaneamente público, horários nobres e telas premium. Não basta
produzir grandes acontecimentos. É preciso distribuí-los ao longo do ano.
O grande filme-evento ajuda a justificar a capacidade
instalada. Os demais ajudam a utilizá-la entre os picos.
Há, entretanto, uma dependência que nenhuma reforma de
cinema consegue eliminar. A exibidora pode instalar melhores equipamentos,
oferecer poltronas mais confortáveis e aperfeiçoar sua bomboniere, mas não
consegue fabricar o filme capaz de lotar suas salas.
As greves de atores e roteiristas de 2023 deixaram essa
relação particularmente visível. A paralisação atrasou produções, enfraqueceu o
calendário posterior e o problema chegou aos resultados das redes exibidoras. A
infraestrutura continuava disponível, mas faltava parte do produto necessário
para ocupá-la.
A dependência funciona nos dois sentidos. Hollywood também
precisa das salas. A bilheteria ajuda a recuperar os grandes investimentos,
enquanto a estreia cinematográfica transforma um filme em acontecimento, amplia
sua repercussão e aumenta seu valor nas janelas seguintes. Por isso, apesar da
expansão do streaming, os grandes estúdios continuam investindo em lançamentos
cinematográficos.
O quadro das salas, portanto, é preocupante, mas está longe
de indicar simplesmente seu desaparecimento. Há menos espectadores, menor
frequência e maior concentração em poucos filmes, mas a infraestrutura
permanece, os grandes acontecimentos continuam mobilizando multidões e
Hollywood ainda possui fortes razões econômicas para preservar essa relação.
Talvez o que esteja desaparecendo seja outra coisa.
Durante décadas, íamos ao cinema porque era ali que os novos
filmes estavam. Hoje eles acabarão chegando às nossas casas. A sala precisa,
portanto, oferecer uma razão adicional para que não esperemos.
A sala de cinema pode estar deixando de ser o lugar onde
vamos simplesmente assistir a filmes para se tornar o lugar onde escolhemos
viver determinados filmes.
E, se esse for realmente o caminho, seu futuro dependerá
menos da quantidade de filmes disponíveis e cada vez mais da capacidade da
indústria de continuar produzindo aqueles que o público considera importantes
demais para assistir depois.
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