FILMOTECA - Revista de Cinema: Pág. 4
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Além dos Filmes

As salas de cinema estão em crise?



O público vai menos ao cinema, mas as salas não desapareceram. Por trás desse aparente paradoxo está uma transformação na maneira como escolhemos quais filmes ainda merecem ser vistos fora de casa.

Em 2019, os cinemas brasileiros receberam cerca de 176 milhões de espectadores. Em 2025, foram aproximadamente 113 milhões. Seria razoável imaginar que uma perda dessa dimensão tivesse provocado uma forte redução do parque exibidor. Ocorreu, porém, algo diferente: o Brasil continua com mais de 3.500 salas, em patamar semelhante ou ligeiramente superior ao anterior à pandemia.

A contradição ajuda a entender o momento vivido pelo setor. O problema talvez não seja simplesmente o desaparecimento das salas, mas a transformação da função que elas exercem na vida do espectador.

Desde 2019, a concorrência doméstica tornou-se muito mais poderosa. O streaming se fragmentou entre várias plataformas, séries passaram a consumir parcela importante do tempo disponível para entretenimento, transmissões esportivas entraram nessa disputa e a pirataria também se modernizou. Filmes que antes dependiam de downloads podem hoje aparecer em interfaces ilegais semelhantes às plataformas convencionais.

Nesse ambiente de abundância, o cinema passou a disputar duas coisas cada vez mais escassas: dinheiro e tempo. E uma pergunta ganhou importância na decisão do espectador: se este filme estará disponível em casa daqui a algum tempo, por que preciso assisti-lo agora?

Os números ajudam a responder. Em 2019, os cinco filmes de maior público concentravam cerca de 35% dos ingressos vendidos no Brasil. Em 2024, essa participação se aproximou de 47%. Entre os vinte primeiros, a concentração passou de aproximadamente 68% para mais de 75%. O público diminuiu e, simultaneamente, passou a se concentrar mais nos grandes acontecimentos.

Isso não significa que apenas blockbusters funcionem. Barbie transformou-se em fenômeno cultural, Oppenheimer fez da própria tecnologia de projeção parte da experiência e Ainda Estou Aqui levou milhões de brasileiros às salas sem ser uma superprodução hollywoodiana. O elemento comum não era o orçamento, mas a capacidade de produzir urgência.

Para determinados filmes, esperar pelo streaming parece razoável. Para outros, assistir enquanto todos estão falando sobre eles faz parte da própria experiência.

Há ainda uma dimensão social. Ir ao cinema sempre foi também encontrar pessoas e compartilhar emoções com uma plateia. As redes sociais acrescentaram outra camada a esse comportamento. A sessão pode começar antes da projeção e continuar depois dela, nas fotografias, comentários, fandoms e conversas que transformam um lançamento em acontecimento cultural.

Essa mudança tem consequências econômicas. Com menor frequência, as exibidoras procuram aumentar a receita obtida em cada visita. Formatos premium, salas VIP, IMAX, melhores poltronas e alimentação ganham importância. Os balanços de grandes redes americanas mostram aumento da receita por espectador mesmo sem recuperação completa do público.

No Brasil, não existem informações financeiras públicas suficientes para afirmar se esse novo modelo remunera adequadamente o capital investido. Há, porém, um limite evidente para a estratégia de cobrar mais: cinema é lazer e possui inúmeros substitutos. Quanto maior o custo da saída, mais seletivo tende a ficar o consumidor. E, quanto maior a seletividade, mais importante se torna oferecer um filme que pareça justificar aquela despesa.

A economia das salas lembra, nesse aspecto, um negócio aparentemente muito distante do cinema: uma fábrica de suco de laranja.

A fábrica precisa ter capacidade para processar a fruta durante a safra, mesmo sabendo que parte dessa estrutura ficará ociosa em outros meses. Uma rede de cinemas enfrenta problema semelhante. Precisa dispor de salas suficientes para receber uma multidão quando chega um grande lançamento, embora essa demanda possa desaparecer poucas semanas depois.

Existe uma diferença importante. Uma grande safra de laranja pode ser transformada em suco concentrado e formar estoques para compensar uma safra futura menor. O sucesso de um blockbuster não pode ser estocado. Uma poltrona vazia não será vendida amanhã e um ano excepcional de bilheteria não produz espectadores para preencher as salas no ano seguinte.

É por isso que a regularidade dos grandes lançamentos importa tanto. Os estúdios acompanham cuidadosamente o calendário dos concorrentes e alteram datas para evitar que filmes de enorme potencial disputem simultaneamente público, horários nobres e telas premium. Não basta produzir grandes acontecimentos. É preciso distribuí-los ao longo do ano.

Isso não torna o filme médio inútil para a sala. Sua função econômica pode simplesmente ser outra. Se a infraestrutura já precisa existir para receber os grandes picos, dramas, comédias, filmes brasileiros, produções independentes e títulos de nicho podem ocupar parte da capacidade disponível nos períodos de menor procura. Eles não precisam produzir a receita de um blockbuster para contribuir para os custos de uma sala que, sem eles, poderia permanecer ociosa.

O grande filme-evento ajuda a justificar a capacidade instalada. Os demais ajudam a utilizá-la entre os picos.

Há, entretanto, uma dependência que nenhuma reforma de cinema consegue eliminar. A exibidora pode instalar melhores equipamentos, oferecer poltronas mais confortáveis e aperfeiçoar sua bomboniere, mas não consegue fabricar o filme capaz de lotar suas salas.

Essa função continua pertencendo principalmente a Hollywood.

As greves de atores e roteiristas de 2023 deixaram essa relação particularmente visível. A paralisação atrasou produções, enfraqueceu o calendário posterior e o problema chegou aos resultados das redes exibidoras. A infraestrutura continuava disponível, mas faltava parte do produto necessário para ocupá-la.

A dependência funciona nos dois sentidos. Hollywood também precisa das salas. A bilheteria ajuda a recuperar os grandes investimentos, enquanto a estreia cinematográfica transforma um filme em acontecimento, amplia sua repercussão e aumenta seu valor nas janelas seguintes. Por isso, apesar da expansão do streaming, os grandes estúdios continuam investindo em lançamentos cinematográficos.

O quadro das salas, portanto, é preocupante, mas está longe de indicar simplesmente seu desaparecimento. Há menos espectadores, menor frequência e maior concentração em poucos filmes, mas a infraestrutura permanece, os grandes acontecimentos continuam mobilizando multidões e Hollywood ainda possui fortes razões econômicas para preservar essa relação.

Talvez o que esteja desaparecendo seja outra coisa.

Durante décadas, íamos ao cinema porque era ali que os novos filmes estavam. Hoje eles acabarão chegando às nossas casas. A sala precisa, portanto, oferecer uma razão adicional para que não esperemos.

A sala de cinema pode estar deixando de ser o lugar onde vamos simplesmente assistir a filmes para se tornar o lugar onde escolhemos viver determinados filmes.

E, se esse for realmente o caminho, seu futuro dependerá menos da quantidade de filmes disponíveis e cada vez mais da capacidade da indústria de continuar produzindo aqueles que o público considera importantes demais para assistir depois.

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