AS SALAS DE CINEMA ESTÃO EM CRISE?
Como streaming, preço, filmes-evento e novos hábitos do
público estão transformando a experiência de ir ao cinema
Há alguns anos, qualquer discussão sobre o futuro das salas
de cinema parecia conduzir à mesma previsão. Primeiro a televisão, depois o
videocassete e o DVD, mais recentemente as televisões de grandes dimensões e,
finalmente, o streaming teriam tornado progressivamente desnecessário sair de
casa para assistir a um filme. A pandemia pareceu oferecer a confirmação
definitiva dessa trajetória quando fechou os cinemas, levou grandes lançamentos
diretamente às plataformas e obrigou Hollywood a experimentar modelos de
distribuição que até então pareciam improváveis. Quando as salas reabriram,
portanto, havia razões para imaginar que o público não retornaria da mesma
maneira.
Ele realmente não retornou. Mas a consequência não foi
exatamente aquela que se poderia esperar.
Em 2019, último ano completo antes da pandemia, os cinemas
brasileiros receberam cerca de 176 milhões de espectadores. Em 2025, foram
aproximadamente 113 milhões. A diferença é suficientemente grande para afastar
a ideia de que estamos apenas diante de uma recuperação mais demorada. Seis
anos depois, incluindo todo o período de normalização das atividades sociais, o
brasileiro continuava indo ao cinema com frequência significativamente menor.
Seria natural imaginar que essa redução estivesse sendo
acompanhada pelo fechamento de salas. Ocorreu, entretanto, algo bastante
diferente. O parque exibidor brasileiro recuperou-se e chegou a mais de 3.500
salas, praticamente o mesmo patamar, e em algumas medições ligeiramente
superior, ao existente antes da pandemia. A quantidade de sessões também
permaneceu elevada.
A resposta talvez esteja menos em uma suposta recuperação do
antigo hábito de ir ao cinema e mais na transformação da própria função
econômica e cultural das salas. Os cinemas não parecem estar desaparecendo. O
que pode estar mudando é a razão pela qual as pessoas ainda decidem
frequentá-los.
A concorrência mudou muito mais do que as salas
Quando se compara 2019 com o presente, é tentador colocar
toda a transformação na conta do streaming. A explicação é correta, mas
insuficiente, porque o que se modificou não foi apenas a quantidade de filmes
disponíveis em casa. Formou-se um ecossistema doméstico de entretenimento muito
mais amplo, capaz de disputar simultaneamente o dinheiro e o tempo que poderiam
ser dedicados a uma saída ao cinema.
Esse mercado, porém, fragmentou-se. Disney+, Prime Video,
Max, Paramount+, Globoplay e outros serviços passaram a disputar conteúdos e
assinantes, enquanto filmes desejados pelo mesmo consumidor ficaram
distribuídos entre diferentes catálogos. A televisão por streaming incorporou
ainda transmissões esportivas, inclusive campeonatos de futebol cujos direitos
também passaram a ser divididos entre diferentes empresas.
Para uma parcela do público brasileiro, a pirataria ofereceu
uma resposta a essa fragmentação. Os antigos DVDs vendidos informalmente
perderam importância, mas TV boxes e serviços ilegais de IPTV reduziram
enormemente a barreira técnica que existia nos tempos dos torrents e downloads.
O consumidor pode encontrar em uma única interface filmes, séries, canais e
transmissões esportivas que, legalmente, exigiriam diferentes assinaturas.
Não conseguimos demonstrar com dados comparáveis a percepção
de que esse tipo de pirataria avançou significativamente sobre parcelas das
classes B e C que anteriormente haviam migrado para os serviços legais. Por
isso, essa afirmação não deve ser apresentada como conclusão. O que os dados
permitem afirmar é que existe um contingente relevante de consumidores
híbridos, que mantém serviços legais e simultaneamente utiliza meios ilegais, e
que preço, conveniência e disponibilidade do conteúdo influenciam a decisão de
recorrer à pirataria.
Para a economia das salas, contudo, a origem legal ou ilegal
dessa abundância doméstica é apenas parte da questão. O resultado é que o
cinema passou a competir com uma casa na qual existe uma quantidade quase
inesgotável de entretenimento. E, como ninguém ganhou horas adicionais no dia
para consumir tudo isso, a disputa deixou de ocorrer apenas pelo orçamento.
Passou também a ocorrer pelo tempo.
As séries tiveram papel especialmente importante nesse
processo. Uma pessoa que começa uma temporada de oito episódios pode dedicar a
ela dez horas que, anteriormente, estariam disponíveis para outras formas de
entretenimento. O futebol ao vivo ocupa horários determinados. Redes sociais,
YouTube e videogames acrescentam outras disputas. Até mesmo dentro do streaming
existe uma pressão temporal: diante de uma lista extensa de filmes que se
pretende assistir, aquele que está prestes a deixar uma plataforma pode ganhar
prioridade sobre outro que acabou de chegar aos cinemas.
A sala de exibição, portanto, já não disputa apenas a
preferência por determinado filme. Ela precisa convencer o consumidor de que
vale a pena interromper todas essas alternativas, sair de casa, deslocar-se até
um complexo, pagar pelo ingresso e dedicar algumas horas àquela experiência
específica.
A diferença entre querer assistir e precisar assistir
agora
Essa mudança ajuda a compreender um fenômeno importante que
aparece nos dados brasileiros. Embora o público total tenha diminuído, uma
parcela crescente desse público está se concentrando em poucos títulos.
Ao mesmo tempo, gêneros historicamente associados ao chamado
filme médio perderam força nas salas americanas. Dramas adultos, comédias e
dramatizações baseadas em fatos reais passaram a representar parcelas menores
da bilheteria, embora continuem capazes de produzir sucessos quando algum
título se transforma em acontecimento.
É justamente essa exceção que ajuda a compreender melhor o
fenômeno. O que parece separar os filmes não é simplesmente orçamento, gênero
ou quantidade de efeitos especiais. Barbie tornou-se um acontecimento
cultural, Oppenheimer transformou até a forma de projeção em parte da
experiência, e Ainda Estou Aqui levou milhões de brasileiros aos cinemas
sem possuir as características tradicionais de um blockbuster hollywoodiano. Em
circunstâncias muito diferentes, todos conseguiram criar algo que se tornou
cada vez mais valioso para a exibição: urgência.
A distinção fundamental talvez esteja entre o filme que o
espectador deseja assistir e aquele que acredita precisar assistir naquele
momento. O primeiro pode esperar. O segundo corre o risco de perder parte de
seu valor quando a conversa social passa, quando os amigos já assistiram,
quando os spoilers circulam ou quando deixa de ser um acontecimento para se
tornar apenas mais um título disponível em uma plataforma.
Essa transformação ajuda a explicar por que a concorrência
entre cinema e streaming não precisa terminar com a vitória absoluta de um
sobre o outro. O streaming é extraordinariamente eficiente na oferta de
abundância e conveniência. A sala pode encontrar sua vantagem justamente onde
esses atributos são insuficientes: na capacidade de transformar determinados
filmes em acontecimentos.
A experiência não termina quando as luzes se acendem
Há também uma dimensão social que frequentemente desaparece
das análises sobre a crise das salas. Durante boa parte do século XX, ir ao
cinema nunca significou apenas assistir a um filme. As pessoas encontravam
amigos nas filas, namorados marcavam encontros, famílias saíam juntas e
determinados filmes adquiriam outra dimensão quando centenas de espectadores
riam, se assustavam ou se emocionavam simultaneamente.
O streaming levou o filme para dentro de casa, mas não
substituiu completamente essa função social. As redes sociais acrescentaram,
inclusive, uma nova camada ao fenômeno. A experiência presencial pode agora ser
transformada em experiência compartilhada antes e depois da sessão.
O caso de Barbie tornou isso particularmente visível.
Vestir-se de rosa, reunir amigos, fotografar-se diante das instalações
promocionais e participar da enorme conversa cultural que cercou o lançamento
fizeram parte da experiência para uma parcela do público. Em Oppenheimer,
o fenômeno assumiu outra forma: assistir em IMAX ou em película de 70 mm passou
a funcionar quase como uma declaração de que não bastava conhecer o filme, era
importante tê-lo visto de determinada maneira.
Seria precipitado concluir que o público frequenta cinemas
para obter fotografias ou likes. Não encontramos evidências que permitam
sustentar uma afirmação tão simples. O que pesquisas com públicos mais jovens
mostram é algo mais interessante: socialização, fandom, participação coletiva e
sensação de acontecimento continuam tendo valor mesmo para gerações que
cresceram cercadas por streaming.
A chamada instagramização das experiências fora de casa pode
ser entendida nesse contexto. O consumidor não busca necessariamente uma
atividade apenas porque ela pode ser publicada, mas a possibilidade de mostrar
que participou de algo acrescenta uma dimensão social à experiência. Grandes
musicais compreenderam muito bem esse fenômeno, assim como restaurantes,
exposições e eventos esportivos. Para o cinema, ele reforça uma característica
que sempre existiu: algumas sessões valem mais porque significam participar de
alguma coisa junto com outras pessoas.
Por isso, espetáculo, urgência e participação social podem
ser mais importantes para compreender o futuro das salas do que simplesmente
perguntar se as pessoas ainda gostam de assistir a filmes numa tela grande.
O problema econômico de um público que vai menos vezes
Para as exibidoras, entretanto, transformar o cinema em
experiência não é apenas uma questão de posicionamento cultural. Existe um
problema econômico concreto por trás dessa mudança.
Uma sala possui custos que não desaparecem quando o público
diminui. O aluguel continua sendo pago, equipamentos precisam ser mantidos,
funcionários são necessários e a estrutura do complexo permanece disponível
independentemente de uma sessão receber cinquenta espectadores ou cinco. Quando
a frequência diminui, portanto, torna-se necessário encontrar maneiras de obter
mais receita de cada pessoa que ainda decide comparecer.
Não dispomos de demonstrações financeiras das exibidoras
brasileiras que permitam afirmar que a mesma estratégia esteja remunerando
adequadamente o capital investido no país. Podemos observar preços, número de
sessões, quantidade de salas e público, mas não sabemos com precisão se o
negócio brasileiro está produzindo retornos atraentes ou apenas retornos
suficientes para preservar a operação.
Há, contudo, um limite econômico que vale em qualquer
mercado. A queda de volume não pode ser compensada indefinidamente pelo aumento
de preço, porque a demanda por cinema é sensível ao custo da experiência.
Quanto mais caro se torna o conjunto formado por ingresso, alimentação,
transporte e eventualmente estacionamento, mais alternativas aparecem dentro do
orçamento de lazer do consumidor.
Esse mecanismo pode contribuir para a própria transformação
que estamos observando. Quem antes ia ao cinema duas vezes por mês talvez não
deixe completamente de frequentá-lo quando os custos aumentam, mas pode passar
a ir uma vez. E, tendo de escolher, tende a reservar essa saída para o filme
que promete maior diferença em relação àquilo que poderia assistir em casa. A
tentativa de compensar menor frequência com maior receita por visita pode,
portanto, reforçar a seletividade do público e aumentar ainda mais a
importância dos filmes-evento.
A fábrica que precisa estar pronta quando chega a safra
Uma analogia com uma indústria aparentemente distante do
cinema ajuda a compreender o desafio das exibidoras. Uma fábrica de suco de
laranja precisa ser dimensionada para processar a fruta durante os meses da
safra. Como a laranja é perecível, não seria possível construir a fábrica
considerando apenas o volume médio distribuído pelos doze meses do ano. É
preciso possuir capacidade suficiente quando a fruta chega, mesmo sabendo que
parte dessa estrutura permanecerá ociosa fora daquele período.
A comparação, entretanto, revela também uma diferença
importante. A indústria de suco consegue transformar uma matéria-prima
perecível em um produto muito menos perecível. O suco concentrado pode ser
estocado, permitindo que uma grande safra forme reservas capazes de compensar
parcialmente uma safra futura menor. A indústria de exibição não dispõe de
mecanismo equivalente. Um ano extraordinário de blockbusters pode gerar caixa e
fortalecer o balanço das empresas, mas não cria um estoque de espectadores que possa
ser utilizado quando o calendário seguinte for fraco.
Isso torna a regularidade da oferta especialmente
importante. Uma safra ruim de grandes filmes não pode ser integralmente
compensada por estoque e tampouco por preços mais altos, porque, como vimos,
existe um limite para aquilo que o público aceita pagar. Quando faltam filmes
capazes de produzir grandes picos de demanda, parte da capacidade instalada
simplesmente permanece ociosa.
Hollywood procura administrar esse problema por meio do
calendário. Os grandes estúdios acompanham atentamente as datas escolhidas
pelos concorrentes e frequentemente antecipam ou adiam lançamentos para evitar
que produções de enorme potencial comercial disputem simultaneamente as mesmas
salas, os horários mais valorizados e a renda disponível do público. Essa
administração se torna ainda mais importante nas telas premium, porque dois
filmes concebidos para explorar fortemente IMAX ou outros formatos especiais
não podem ocupar plenamente o mesmo equipamento ao mesmo tempo.
Não basta, portanto, que Hollywood produza determinada
quantidade de filmes-evento durante o ano. É desejável que eles cheguem às
salas com alguma regularidade. Se vários grandes títulos forem concentrados em
poucas semanas e depois houver um longo período sem atrações equivalentes, a
indústria pode ter capacidade insuficiente durante o pico e excessiva durante o
vale.
O calendário cinematográfico funciona, nesse sentido, como
uma tentativa de distribuir melhor a safra.
E o que fazer com a fábrica entre uma safra e outra?
É nesse ponto que o filme médio, aparentemente ameaçado pela
concentração da bilheteria, adquire uma função econômica diferente.
A própria estrutura econômica da distribuição ajuda nesse
processo. A parcela da bilheteria destinada ao distribuidor costuma variar
conforme contratos e desempenho, e grandes exibidoras americanas informam que
títulos de menor arrecadação podem representar percentuais de aluguel de filme
inferiores aos grandes sucessos. Isso torna possível manter produtos com
públicos relativamente pequenos quando o custo de oportunidade da sala também é
baixo.
A questão, portanto, não é necessariamente se o filme médio
continuará passando pelos cinemas. Ele pode continuar tendo uma função
relevante justamente porque ajuda a monetizar a capacidade instalada entre os
grandes picos. O que parece estar diminuindo é sua capacidade de justificar
sozinho a expansão dessa infraestrutura.
Essa diferença é importante. O filme-evento pode ajudar a
justificar a existência da capacidade; o filme médio ajuda a utilizá-la quando
essa capacidade não está sendo exigida pelos grandes lançamentos. Filmes de
nicho, por sua vez, podem ocupar frações ainda menores da estrutura e atender
públicos específicos que dificilmente lotariam grandes auditórios, mas podem
tornar economicamente úteis salas menores e horários de pouca procura.
Essa lógica ajuda a explicar por que os multiplexes oferecem
uma flexibilidade que os antigos grandes cinemas não possuíam. Dividir a
capacidade entre várias salas permite deslocar rapidamente sessões conforme a
demanda, reduzir o espaço destinado a um filme que perde público e ampliar
aquele que surpreende. A digitalização da projeção tornou essa administração
ainda mais simples.
O filme médio pode ter perdido protagonismo na bilheteria
sem ter perdido completamente sua utilidade para o exibidor.
Hollywood e as salas continuam no mesmo barco
Existe, porém, algo que nenhuma estratégia de programação,
reforma de poltronas ou aumento das vendas de pipoca consegue resolver: a
exibidora não fabrica o produto que provoca seus maiores picos de demanda.
Essa função continua pertencendo principalmente a Hollywood.
O resultado nunca é garantido. Hollywood produz fracassos
caros e frequentemente descobre que reconhecimento de marca não basta para
mobilizar o público. Mas nenhuma outra indústria cinematográfica consegue hoje
fornecer ao mercado brasileiro, com a mesma regularidade, uma sequência de
produtos concebidos para gerar grandes picos de demanda.
As greves de roteiristas e atores de 2023 ofereceram uma
demonstração quase involuntária dessa interdependência. A paralisação da
produção provocou adiamentos, enfraqueceu o calendário posterior e os efeitos
apareceram meses depois nos resultados das exibidoras. A infraestrutura estava
disponível, mas parte da safra que deveria alimentá-la não havia chegado.
A dependência, contudo, funciona nas duas direções.
Hollywood também possui interesse econômico na preservação das salas. A
exploração cinematográfica continua produzindo receitas importantes para os
grandes filmes, cria visibilidade, transforma lançamentos em acontecimentos
culturais e aumenta o valor do produto nas janelas seguintes. A experiência dos
lançamentos simultâneos e diretos no streaming durante a pandemia não levou os
grandes estúdios a abandonar a janela cinematográfica. Ao contrário, a estreia
em salas voltou a ocupar posição central na exploração de muitos dos filmes de
maior investimento.
A relação pode ser resumida como uma simbiose. Hollywood
fornece os acontecimentos que utilizam intensamente a capacidade das salas; as
salas oferecem a escala, a experiência coletiva e a receita que ajudam a
transformar esses filmes em fenômenos globais. Quando a safra é boa, ambos se
beneficiam. Quando faltam grandes filmes, ambos sentem os efeitos.
Isso não significa que Hollywood seja teoricamente
insubstituível. O anime japonês já demonstrou capacidade de transformar fandoms
em grandes acontecimentos cinematográficos internacionais. A China possui uma
indústria capaz de produzir blockbusters gigantescos para seu mercado
doméstico. O cinema brasileiro eventualmente cria fenômenos nacionais, como
aconteceu com Ainda Estou Aqui. Outras cinematografias também podem
ocupar parcelas dessa demanda.
O que ainda não existe é outra indústria capaz de fornecer
ao mercado brasileiro, de maneira contínua e em escala comparável, o volume de
filmes-evento produzido pelo sistema hollywoodiano. Por enquanto, portanto, a
sobrevivência econômica das grandes redes de exibição continua profundamente
ligada à capacidade de Hollywood de produzir e distribuir regularmente filmes
que o público considere importantes demais para esperar.
Talvez não esteja desaparecendo a sala, mas uma maneira
de usá-la
Depois de observar público, streaming, pirataria, preços,
concentração de bilheteria, comportamento social, capacidade instalada e
relação com Hollywood, a pergunta inicial admite uma resposta menos dramática
do que a previsão recorrente sobre a morte das salas, mas também menos
confortável do que imaginar que tudo voltará ao que era antes da pandemia.
Há sinais claros de fragilidade. O brasileiro frequenta
menos o cinema, a ocupação média caiu e uma parcela crescente da bilheteria
depende de poucos títulos. A necessidade de aumentar a receita por espectador
encontra limites na renda disponível e na quantidade de alternativas
domésticas. Uma sequência ruim de lançamentos pode deixar milhares de salas com
capacidade difícil de monetizar.
Ao mesmo tempo, não estamos diante de uma infraestrutura em
desmonte. O número de salas permanece elevado, grandes lançamentos continuam
produzindo multidões, formatos premium encontram consumidores dispostos a pagar
mais e os próprios estúdios continuam investindo na exploração cinematográfica
de suas principais produções.
Talvez, portanto, a transformação mais importante esteja
ocorrendo na relação entre o espectador e a sala.
Quando assistir a um lançamento dependia de ir ao cinema, a
sala vendia principalmente acesso ao filme. Hoje esse acesso deixou de
ser escasso. Quase todo espectador sabe que terá outras oportunidades de
assistir à obra, legal ou ilegalmente, algum tempo depois. Para justificar a
saída, a sala precisa oferecer algo que sobreviva a essa abundância: escala,
tecnologia, encontro, ritual, urgência e participação em um acontecimento
cultural.
Isso não condena necessariamente os filmes médios ao
desaparecimento das telas, porque eles continuam podendo contribuir para a
utilização de uma infraestrutura construída para atender aos grandes picos. Mas
altera aquilo que parece justificar economicamente a existência dessa
infraestrutura.
Por isso, talvez seja impreciso dizer que as salas de cinema
estão simplesmente em decadência. O que os dados sugerem é uma transição para
um modelo mais dependente de acontecimentos, mais concentrado, mais caro por
visita e, justamente por isso, mais vulnerável à capacidade da indústria de
continuar produzindo filmes que façam o público considerar aquela saída
especial.
Durante grande parte da história do cinema, fomos à sala
porque era ali que os filmes estavam. Agora os filmes estão em toda parte.
A sala pode estar deixando de ser o lugar onde vamos
simplesmente assistir a filmes para se tornar o lugar onde escolhemos viver
determinados filmes.
Se essa transformação continuar, uma nova pergunta
inevitavelmente surgirá. Uma indústria de exibição cada vez mais dependente de
acontecimentos precisará de uma oferta regular deles. Hoje, Hollywood continua
sendo seu principal fornecedor. Saber de onde poderão vir esses filmes nos
próximos dez anos, e quem financiará todos os outros que não nasceram para ser
eventos, já pertence a outra investigação.