Nos dois primeiros episódios deste percurso, começamos a
enfrentar uma sensação bastante comum diante de certos filmes: depois de algum
tempo, parece que pouca coisa está acontecendo e nossa atenção começa a
procurar uma razão para continuar.
Em Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo,
experimentamos uma primeira mudança de perspectiva ao distinguir aquilo que
acontece daquilo que muda. José Renato atravessava estradas, realizava seu
trabalho e encontrava pessoas, mas aos poucos percebíamos que outra
transformação estava ocorrendo enquanto esses acontecimentos se sucediam. A
primeira chave, O QUE ACONTECE × O QUE MUDA, nos ajudou a perceber que
uma narrativa pode apresentar poucos acontecimentos sem permanecer imóvel.
Depois, A Tartaruga Vermelha retirou um apoio
importante. As palavras praticamente desapareceram e passamos a observar de
onde vinha nossa vontade de continuar quando os personagens já não podiam
explicar aquilo que pensavam, sentiam ou pretendiam fazer. A pergunta O QUE
ME FAZ QUERER SABER O QUE VEM DEPOIS? nos permitiu acompanhar as mudanças
da própria curiosidade durante a sessão.
Quando a história deixa de fazer todo o trabalho
Grande parte das histórias que assistimos cria uma força que
empurra nossa atenção para a frente. Um personagem deseja alguma coisa, um
problema precisa ser resolvido, um conflito se desenvolve, uma informação é
escondida, uma ameaça se aproxima. Mesmo sem formular conscientemente as
perguntas, queremos descobrir se alguém conseguirá aquilo que deseja, quem fez
determinada coisa, como um conflito terminará ou o que acontecerá depois.
Quando essa curiosidade está funcionando, a narrativa
realiza grande parte do trabalho necessário para manter nossa atenção. Uma cena
nos conduz à seguinte porque queremos descobrir a continuação.
Por isso, percebemos facilmente quando esse mecanismo
enfraquece. Uma conversa se prolonga sem produzir uma revelação importante. Um
personagem caminha. Uma paisagem permanece diante de nós. Pessoas realizam
atividades cotidianas. O filme observa durante algum tempo um rosto, uma casa,
uma plantação, uma rua. Os minutos passam e aquilo que costumamos chamar de
história parece avançar muito pouco.
O que pode existir quando a história pouco avança?
Imagine que você esteja assistindo à biografia de um músico que admira. A história não está lhe interessando particularmente, mas em determinado momento começa uma apresentação musical. Durante quatro ou cinco minutos, quase nada acontece do ponto de vista narrativo. Mesmo assim, você continua interessado porque gosta daquela música e deseja ouvi-la. A narrativa praticamente parou, mas sua experiência não.
Talvez você já tenha vivido muitas situações semelhantes sem pensar nelas dessa maneira. Isso acontece porque a história é apenas uma das coisas que um filme pode nos oferecer. Às vezes gostamos simplesmente de olhar. Uma paisagem, uma cidade, um rosto, uma determinada luz, uma casa, uma roupa ou um movimento podem tornar interessante o tempo que passamos diante da tela. Não precisamos conhecer fotografia cinematográfica para perceber que alguma coisa nos dá prazer visual.
Em outros momentos, aquilo que ouvimos sustenta a
experiência. Pode ser uma música, uma voz, os sons de determinado ambiente ou
até o silêncio. A história pode estar quase parada e, ainda assim, queremos
continuar ouvindo.
Também podemos encontrar interesse em observar pessoas. Há
personagens e atores que despertam nossa atenção mesmo quando não estão fazendo
nada decisivo para a narrativa. Uma expressão, um gesto, uma maneira de falar,
andar, olhar ou permanecer em silêncio podem fazer com que desejemos continuar
observando aquela presença.
Alguns filmes nos oferecem ainda o prazer de permanecer
temporariamente em outro mundo. Pode ser uma cidade que desconhecemos, uma
época distante, uma comunidade, uma casa, uma estrada ou uma maneira de viver
muito diferente da nossa. O interesse não precisa estar apenas na pergunta
sobre o que acontecerá ali. Às vezes gostamos simplesmente de estar ali durante
algum tempo.
As próprias relações entre as pessoas também podem sustentar
nossa atenção. Nem sempre precisamos esperar uma separação, uma reconciliação
ou um confronto. Observar duas pessoas convivendo, aproximando-se, afastando-se
ou deixando de dizer alguma coisa pode tornar uma cena interessante antes mesmo
que essa relação produza um acontecimento.
Há ainda o prazer da descoberta. Um filme pode nos
apresentar uma profissão, um ritual, uma cultura, uma época, um comportamento
ou alguma coisa que desconhecíamos. Nesse caso, nossa curiosidade pode estar
dirigida menos ao destino dos personagens do que ao mundo que estamos
conhecendo.
E existe uma possibilidade mais difícil de nomear. Alguns
filmes nos interessam por aquilo que sentimos enquanto estamos diante deles.
Podemos experimentar tranquilidade, melancolia, tensão, estranheza, beleza,
nostalgia, encantamento ou alguma sensação que sequer conseguimos definir com
precisão. Durante aquele tempo, talvez não estejamos esperando que alguma coisa
aconteça. Estamos interessados na própria experiência que o filme está
produzindo em nós.
Isso não significa que encontraremos alguma coisa
Há uma ressalva importante. Saber que essas possibilidades
existem não significa que todas elas funcionarão para todos os espectadores.
Imagine um filme em que boa parte do interesse esteja numa
longa discussão filosófica. Para alguém familiarizado com aquelas questões,
vinte minutos de conversa podem ser fascinantes. Para outro espectador, sem
referências suficientes para acompanhar o debate, a mesma sequência pode
parecer quase inacessível.
Algo semelhante pode acontecer diante de uma recriação histórica repleta de detalhes que fascinam quem conhece aquele período e passam despercebidos para quem não o conhece. Uma interpretação muito discreta pode ser extremamente interessante para alguém habituado a observar pequenas alterações de comportamento e não produzir o mesmo efeito em outra pessoa. Isso não significa que uma delas saiba assistir ao filme e a outra não.
Um filme oferece possibilidades de interesse, mas essas
possibilidades precisam encontrar alguma coisa no espectador. Nosso repertório,
nossos conhecimentos, nossas experiências, nossos interesses e nossa
familiaridade com determinadas formas de cinema participam desse encontro.
Algumas portas já estão abertas. Outras podem se abrir
quando adquirimos repertório, informação ou experiência. Algumas talvez
permaneçam fechadas porque aquilo simplesmente não nos interessa.
O terceiro desafio
Para realizar essa experiência, assistiremos a Cinzas no
Paraíso, filme realizado por Terrence Malick em 1978.
Não precisamos conhecer previamente Malick nem estudar como
o filme foi realizado. Também não vamos analisar sua fotografia, sua música,
suas interpretações ou sua construção narrativa. Nosso interesse neste momento
não está em descobrir como o cinema produz determinado efeito, mas em perceber
se conseguimos encontrar diferentes fontes de interesse enquanto assistimos.
O filme dura aproximadamente 94 minutos. Depois de duas experiências de 75 e 80 minutos, portanto, a duração ainda permanecerá em um território relativamente confortável. A dificuldade acrescentada desta vez será outra.
Até agora, perguntamos principalmente o que estava
acontecendo, o que estava mudando e o que nos fazia querer descobrir aquilo que
viria depois. Agora queremos descobrir o que acontece quando nossa atenção
deixa de depender tanto dessa força que nos empurra para a frente.
Nossa nova chave será: O QUE MAIS ESTE FILME ESTÁ ME OFERECENDO?
Prepare seu Caderno de Experiência
Abra o Caderno de Experiência do Episódio 3, copie
integralmente seu conteúdo e cole em um documento do Word ou em outro editor de
texto. Salve o arquivo e mantenha-o disponível.
Preencha somente o bloco ANTES DE COMEÇAR. Não leia
antecipadamente as perguntas das etapas seguintes e, depois de avançar, não
modifique suas respostas anteriores.
Aquilo que você perceber espontaneamente durante a primeira
parte será especialmente importante neste episódio. Precisamos distingui-lo
daquilo que talvez aconteça depois de nossa intervenção.
PARTE 1 | Onde meu interesse aparece sozinho?
Assista desde o início até o momento em que Abby aceita
permanecer na fazenda, desde que Bill e Linda também possam ficar.
Dependendo da versão utilizada, essa passagem ocorre
aproximadamente aos 32 minutos. Utilize o acontecimento narrativo como
referência principal, e não a minutagem.
Até chegar ali, não faça nenhum exercício. Não procure
fotografia, música, atuação, paisagens ou qualquer outra coisa porque foram
mencionadas anteriormente. Assista da maneira como normalmente assistiria.
Quando Abby confirmar que ficará e a sequência terminar,
interrompa o filme.
Abra o Caderno e responda somente ao bloco DEPOIS DA
PARTE 1.
Depois retorne a esta página.
O que estava fazendo você permanecer?
Agora temos um registro importante porque ele foi produzido
antes de qualquer tentativa deliberada de modificar sua atenção.
Talvez aquilo que mais o interessava fosse descobrir o que
aconteceria com Bill, Abby, Linda e o fazendeiro. Se foi assim, a narrativa
estava realizando muito bem seu trabalho.
Talvez, porém, seu Caderno revele que outras coisas já
estavam participando da experiência. Você pode ter gostado de olhar
determinadas imagens, ouvir alguma coisa, observar um personagem ou
simplesmente permanecer naquele ambiente.
Nesse caso, você já estava encontrando espontaneamente
outras fontes de interesse. Não precisamos ensinar aquilo que você já faz.
Mas talvez sua experiência tenha sido diferente. Você pode
ter começado a sentir que o filme demorava, que algumas passagens poderiam
terminar mais cedo ou que a história não oferecia razões suficientes para
sustentar sua atenção.
PARTE 2 | Quando uma porta fecha, procure outra
Continue o filme.
Desta vez, quando perceber que sua curiosidade pela história
não é suficiente para manter seu interesse, não conclua imediatamente que
precisa apenas esperar até que alguma coisa aconteça.
Experimente procurar em outro lugar.
Talvez exista alguma coisa que lhe dê prazer olhar ou ouvir.
Talvez uma pessoa lhe interesse independentemente do que fará depois. Talvez
você goste de permanecer naquele lugar ou naquela época. Talvez uma relação
entre duas pessoas desperte sua atenção. Talvez esteja descobrindo alguma
coisa. Talvez o filme esteja provocando uma sensação que você queira continuar
experimentando.
Não percorra mentalmente essa lista enquanto assiste. Isso transformaria o filme num exercício de identificação. Use essas possibilidades apenas quando sentir necessidade delas.
E não tente convencer-se de que encontrou alguma coisa. Se
nada lhe interessar, continue registrando honestamente sua experiência.
Assista até a breve conversa que antecede a chegada do circo
aéreo, pouco antes de os aviões começarem a modificar a atmosfera da fazenda.
Dependendo da versão, essa passagem ocorre aproximadamente aos 55 minutos.
Interrompa o filme antes da chegada dos aviões e responda
somente ao bloco DEPOIS DA PARTE 2.
Depois retorne a esta página.
A procura mudou alguma coisa?
A segunda parada nos permite fazer uma comparação que seria
impossível se tivéssemos deixado toda a reflexão para depois do filme. Na
primeira parte, você assistiu a Cinzas no Paraíso sem nenhuma orientação
específica sobre onde procurar interesse. Na segunda, entrou no filme sabendo
que, caso a narrativa deixasse de ser suficiente para sustentar sua atenção,
poderia procurar outras razões para permanecer diante dele.
Compare agora as duas experiências sem tentar encontrar uma
evolução onde talvez ela não exista. É possível que a proposta não tenha
modificado sua maneira de assistir porque você já prestava atenção
espontaneamente a muitas das coisas que mencionamos. Nesse caso, a experiência
serviu menos para acrescentar uma possibilidade do que para tornar consciente
algo que já fazia parte da sua relação com o cinema.
Também pode ter acontecido algo diferente. Talvez uma imagem
que antes funcionaria apenas como cenário tenha começado a interessá-lo por si
mesma, ou você tenha percebido que a música, a presença de um personagem, o
ambiente da fazenda, uma relação ou determinada sensação estavam ocupando parte
do espaço deixado pela diminuição de sua curiosidade narrativa. O importante
não é identificar qual desses elementos estava presente, mas perceber se alguma
coisa ganhou valor porque você dirigiu sua atenção para um lugar que
normalmente ocuparia uma posição secundária.
Naturalmente, existe ainda uma terceira possibilidade. Você
pode ter procurado essas outras fontes de interesse e não encontrado nenhuma
que compensasse sua falta de envolvimento com a história. Isso não significa
que tenha realizado mal o exercício. Conhecer outros lugares onde um filme pode
nos interessar não garante que encontraremos neles alguma coisa que desejemos
receber.
PARTE 3 | Agora apenas assista
Assista ao restante do filme sem novas interrupções e sem
transformar aquilo que fizemos até aqui em uma lista mental que precise
acompanhá-lo. Se alguma das possibilidades descobertas na segunda parte
continuar atraindo sua atenção, permita que isso aconteça naturalmente. Se a
própria narrativa voltar a ocupar o centro de seu interesse, também não há
razão para afastá-la.
A diferença é que você chega a esta última parte dispondo de
um território um pouco maior para sua atenção. Não precisa escolher
conscientemente entre história, imagens, sons, pessoas, ambientes ou sensações.
Queremos descobrir se alguma dessas possibilidades, depois de ter sido
percebida, consegue participar espontaneamente da experiência.
Quando a história pouco avançou, sua experiência também
parou?
Agora podemos voltar à questão que nos trouxe até Cinzas
no Paraíso. Durante o filme, naturalmente houve acontecimentos e
transformações. Nunca estivemos tentando demonstrar que sua narrativa não
avançava, mas observar aqueles períodos em que esse avanço talvez não fosse
suficiente, sozinho, para manter nossa atenção.
O Caderno preservou três momentos diferentes dessa relação.
Primeiro registramos aquilo que espontaneamente atraía você. Depois
introduzimos a possibilidade de procurar deliberadamente outras fontes de
interesse. Finalmente, retiramos o exercício e deixamos que o restante da
sessão acontecesse sem uma tarefa específica. Essa sequência nos permite
observar não apenas se você gostou do filme, mas se houve alguma alteração na
maneira como encontrou razões para permanecer diante dele.
Talvez você tenha descoberto que sempre prestou atenção a
muitas outras coisas além da história e apenas nunca tivesse pensado nelas
dessa maneira. Talvez alguma possibilidade tenha adquirido importância depois
de nossa intervenção. Também pode ter ocorrido algo mais discreto: você
continuou achando o filme lento, mas alguns períodos que antes seriam
experimentados apenas como espera passaram a conter alguma coisa que lhe
interessava.
Nada disso precisa ter acontecido. É perfeitamente possível
chegar ao final reconhecendo tudo aquilo que o filme lhe ofereceu e concluir
que nenhuma dessas possibilidades foi suficiente para tornar a experiência
interessante. Essa conclusão é tão legítima quanto qualquer outra, porque nosso
objetivo nunca foi encontrar argumentos para convencer você de que deveria
gostar de Cinzas no Paraíso.
Por que uma mesma cena pode ser fascinante para alguém e
vazia para outra pessoa?
A experiência também nos permite retornar a uma questão
apresentada antes do filme. Aquilo que uma obra oferece não chega igualmente a
todos os espectadores, porque assistir não é apenas receber passivamente alguma
coisa que já está pronta na tela. O interesse surge do encontro entre o filme e
aquilo que cada pessoa consegue reconhecer, compreender, sentir ou valorizar.
Por isso, uma conversa sobre determinado assunto pode
sustentar longos minutos para alguém profundamente interessado nele e parecer
interminável para outra pessoa. Uma recriação histórica pode ser repleta de
pequenas descobertas para quem conhece aquele período, enquanto grande parte
dessa riqueza permanece invisível para quem não possui as mesmas referências. O
mesmo vale para uma interpretação discreta, uma composição musical, uma maneira
particular de utilizar as imagens ou qualquer outra possibilidade oferecida
pelo filme.
Essa diferença não precisa ser transformada numa
classificação entre espectadores mais ou menos capazes. Ela revela apenas que
nosso olhar possui uma história. Aquilo que estudamos, vivemos, assistimos e
aprendemos modifica gradualmente a quantidade de coisas que conseguimos
encontrar dentro de uma obra. Um filme que hoje nos oferece poucas entradas
pode produzir uma experiência diferente alguns anos depois, assim como uma obra
que compreendemos perfeitamente pode continuar não nos interessando.
O que Cinzas no Paraíso acrescentou ao nosso
percurso?
Quando iniciamos este capítulo com Viajo Porque Preciso,
Volto Porque Te Amo, nossa atenção ainda estava muito próxima daquilo que
normalmente chamamos de acontecimentos. A primeira experiência introduziu uma
distinção que ampliou esse território: enquanto poucas coisas acontecem, muitas
coisas podem estar mudando.
A Tartaruga Vermelha acrescentou uma dificuldade
diferente. Com a palavra praticamente ausente, observamos de onde vinha nossa
curiosidade e percebemos que a vontade de continuar também pode mudar durante
um filme. Ainda estávamos, entretanto, bastante orientados para o futuro da
narrativa, procurando aquilo que nos fazia querer saber o que viria depois.
Cinzas no Paraíso nos trouxe para outro lugar. Desta
vez, experimentamos a possibilidade de que nem todo interesse precise estar
voltado para o futuro. Uma parte importante da experiência cinematográfica pode
estar justamente no tempo que passamos diante daquilo que está presente agora,
mesmo quando esse momento não parece necessário para fazer a história chegar
rapidamente ao próximo acontecimento.
É por isso que a nova pergunta não substitui as anteriores.
Ela se acrescenta a elas. Diante de um filme em que a narrativa parece perder
força, continuamos podendo observar o que está mudando e aquilo que ainda
desperta nossa curiosidade pelo que virá, mas agora dispomos também de outra
possibilidade: O QUE MAIS ESTE FILME ESTÁ ME OFERECENDO?
O próximo desafio
Até aqui, trabalhamos com três filmes relativamente curtos,
o que permitiu concentrar nossa atenção nas diferentes razões pelas quais a
sensação de que “nada acontece” pode surgir. No próximo episódio,
acrescentaremos uma dificuldade que até agora mantivemos sob controle:
permaneceremos mais tempo diante do filme.
Era uma Vez em Tóquio, de Yasujirō Ozu, nos levará a
um universo no qual a história é perfeitamente compreensível e acontecimentos
importantes estão presentes, mas boa parte da experiência nasce da convivência
com pessoas em situações aparentemente comuns. Conversas, visitas, refeições, deslocamentos
e silêncios ocuparão um tempo que poderia ser reduzido se a única função do
cinema fosse conduzir a narrativa de um acontecimento importante ao seguinte.
Chegaremos a esse filme, porém, depois de três experiências
que talvez tenham modificado aquilo que entendemos por permanecer interessado.
Já sabemos que mudanças podem acontecer sem grandes acontecimentos, que nossa
curiosidade pode encontrar diferentes formas de se sustentar e que a história
não precisa ser a única razão para considerar valioso o tempo passado diante de
uma obra.
O quarto episódio poderá, então, nos colocar diante de uma
questão que seria muito mais difícil no início deste percurso: quando o cinema
decide dedicar seu tempo àquilo que normalmente chamaríamos apenas de vida
cotidiana, será que ainda conseguimos perceber quanto pode estar acontecendo?