CAPÍTULO 1: Quando parece que nada acontece

Episódio 3: Cinzas no Paraíso


Nos dois primeiros episódios deste percurso, começamos a enfrentar uma sensação bastante comum diante de certos filmes: depois de algum tempo, parece que pouca coisa está acontecendo e nossa atenção começa a procurar uma razão para continuar.

Em Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo, experimentamos uma primeira mudança de perspectiva ao distinguir aquilo que acontece daquilo que muda. José Renato atravessava estradas, realizava seu trabalho e encontrava pessoas, mas aos poucos percebíamos que outra transformação estava ocorrendo enquanto esses acontecimentos se sucediam. A primeira chave, O QUE ACONTECE × O QUE MUDA, nos ajudou a perceber que uma narrativa pode apresentar poucos acontecimentos sem permanecer imóvel.

Depois, A Tartaruga Vermelha retirou um apoio importante. As palavras praticamente desapareceram e passamos a observar de onde vinha nossa vontade de continuar quando os personagens já não podiam explicar aquilo que pensavam, sentiam ou pretendiam fazer. A pergunta O QUE ME FAZ QUERER SABER O QUE VEM DEPOIS? nos permitiu acompanhar as mudanças da própria curiosidade durante a sessão.

Agora vamos acrescentar uma possibilidade diferente, porque talvez chegue um momento em que nem mesmo aquilo que vem depois seja a principal razão para permanecermos diante de um filme.

Quando a história deixa de fazer todo o trabalho

Grande parte das histórias que assistimos cria uma força que empurra nossa atenção para a frente. Um personagem deseja alguma coisa, um problema precisa ser resolvido, um conflito se desenvolve, uma informação é escondida, uma ameaça se aproxima. Mesmo sem formular conscientemente as perguntas, queremos descobrir se alguém conseguirá aquilo que deseja, quem fez determinada coisa, como um conflito terminará ou o que acontecerá depois.

Quando essa curiosidade está funcionando, a narrativa realiza grande parte do trabalho necessário para manter nossa atenção. Uma cena nos conduz à seguinte porque queremos descobrir a continuação.

Por isso, percebemos facilmente quando esse mecanismo enfraquece. Uma conversa se prolonga sem produzir uma revelação importante. Um personagem caminha. Uma paisagem permanece diante de nós. Pessoas realizam atividades cotidianas. O filme observa durante algum tempo um rosto, uma casa, uma plantação, uma rua. Os minutos passam e aquilo que costumamos chamar de história parece avançar muito pouco.

É frequentemente nesse momento que nasce a sensação que estamos investigando neste capítulo: parece que nada está acontecendo. Mas existe uma diferença importante entre dizer que a história está avançando pouco e concluir que o filme deixou de oferecer alguma coisa que possa nos interessar. É essa diferença que vamos experimentar agora.

O que pode existir quando a história pouco avança?

Imagine que você esteja assistindo à biografia de um músico que admira. A história não está lhe interessando particularmente, mas em determinado momento começa uma apresentação musical. Durante quatro ou cinco minutos, quase nada acontece do ponto de vista narrativo. Mesmo assim, você continua interessado porque gosta daquela música e deseja ouvi-la. A narrativa praticamente parou, mas sua experiência não.

Talvez você já tenha vivido muitas situações semelhantes sem pensar nelas dessa maneira. Isso acontece porque a história é apenas uma das coisas que um filme pode nos oferecer. Às vezes gostamos simplesmente de olhar. Uma paisagem, uma cidade, um rosto, uma determinada luz, uma casa, uma roupa ou um movimento podem tornar interessante o tempo que passamos diante da tela. Não precisamos conhecer fotografia cinematográfica para perceber que alguma coisa nos dá prazer visual.

Em outros momentos, aquilo que ouvimos sustenta a experiência. Pode ser uma música, uma voz, os sons de determinado ambiente ou até o silêncio. A história pode estar quase parada e, ainda assim, queremos continuar ouvindo.

Também podemos encontrar interesse em observar pessoas. Há personagens e atores que despertam nossa atenção mesmo quando não estão fazendo nada decisivo para a narrativa. Uma expressão, um gesto, uma maneira de falar, andar, olhar ou permanecer em silêncio podem fazer com que desejemos continuar observando aquela presença.

Alguns filmes nos oferecem ainda o prazer de permanecer temporariamente em outro mundo. Pode ser uma cidade que desconhecemos, uma época distante, uma comunidade, uma casa, uma estrada ou uma maneira de viver muito diferente da nossa. O interesse não precisa estar apenas na pergunta sobre o que acontecerá ali. Às vezes gostamos simplesmente de estar ali durante algum tempo.

As próprias relações entre as pessoas também podem sustentar nossa atenção. Nem sempre precisamos esperar uma separação, uma reconciliação ou um confronto. Observar duas pessoas convivendo, aproximando-se, afastando-se ou deixando de dizer alguma coisa pode tornar uma cena interessante antes mesmo que essa relação produza um acontecimento.

Há ainda o prazer da descoberta. Um filme pode nos apresentar uma profissão, um ritual, uma cultura, uma época, um comportamento ou alguma coisa que desconhecíamos. Nesse caso, nossa curiosidade pode estar dirigida menos ao destino dos personagens do que ao mundo que estamos conhecendo.

E existe uma possibilidade mais difícil de nomear. Alguns filmes nos interessam por aquilo que sentimos enquanto estamos diante deles. Podemos experimentar tranquilidade, melancolia, tensão, estranheza, beleza, nostalgia, encantamento ou alguma sensação que sequer conseguimos definir com precisão. Durante aquele tempo, talvez não estejamos esperando que alguma coisa aconteça. Estamos interessados na própria experiência que o filme está produzindo em nós.

Essas possibilidades não formam uma lista completa, nem precisam receber nomes enquanto assistimos. Elas servem apenas para revelar uma ideia bastante simples: quando a história deixa de fazer todo o trabalho, talvez existam outros lugares dentro do filme onde nossa atenção possa encontrar interesse.

Isso não significa que encontraremos alguma coisa

Há uma ressalva importante. Saber que essas possibilidades existem não significa que todas elas funcionarão para todos os espectadores.

Imagine um filme em que boa parte do interesse esteja numa longa discussão filosófica. Para alguém familiarizado com aquelas questões, vinte minutos de conversa podem ser fascinantes. Para outro espectador, sem referências suficientes para acompanhar o debate, a mesma sequência pode parecer quase inacessível.

Algo semelhante pode acontecer diante de uma recriação histórica repleta de detalhes que fascinam quem conhece aquele período e passam despercebidos para quem não o conhece. Uma interpretação muito discreta pode ser extremamente interessante para alguém habituado a observar pequenas alterações de comportamento e não produzir o mesmo efeito em outra pessoa. Isso não significa que uma delas saiba assistir ao filme e a outra não.

Um filme oferece possibilidades de interesse, mas essas possibilidades precisam encontrar alguma coisa no espectador. Nosso repertório, nossos conhecimentos, nossas experiências, nossos interesses e nossa familiaridade com determinadas formas de cinema participam desse encontro.

Algumas portas já estão abertas. Outras podem se abrir quando adquirimos repertório, informação ou experiência. Algumas talvez permaneçam fechadas porque aquilo simplesmente não nos interessa.

UM NOVO OLHAR não pretende obrigá-lo a atravessar nenhuma delas. Nossa intervenção será muito mais modesta: antes de concluir que não existe nada ali para você, vamos aumentar a quantidade de lugares onde você sabe procurar.

O terceiro desafio

Para realizar essa experiência, assistiremos a Cinzas no Paraíso, filme realizado por Terrence Malick em 1978.

Não precisamos conhecer previamente Malick nem estudar como o filme foi realizado. Também não vamos analisar sua fotografia, sua música, suas interpretações ou sua construção narrativa. Nosso interesse neste momento não está em descobrir como o cinema produz determinado efeito, mas em perceber se conseguimos encontrar diferentes fontes de interesse enquanto assistimos.

O filme dura aproximadamente 94 minutos. Depois de duas experiências de 75 e 80 minutos, portanto, a duração ainda permanecerá em um território relativamente confortável. A dificuldade acrescentada desta vez será outra.

Até agora, perguntamos principalmente o que estava acontecendo, o que estava mudando e o que nos fazia querer descobrir aquilo que viria depois. Agora queremos descobrir o que acontece quando nossa atenção deixa de depender tanto dessa força que nos empurra para a frente.

Nossa nova chave será: O QUE MAIS ESTE FILME ESTÁ ME OFERECENDO?

Não tente responder imediatamente. Primeiro vamos descobrir como você assiste sem essa intervenção.

Prepare seu Caderno de Experiência

Abra o Caderno de Experiência do Episódio 3, copie integralmente seu conteúdo e cole em um documento do Word ou em outro editor de texto. Salve o arquivo e mantenha-o disponível.

Preencha somente o bloco ANTES DE COMEÇAR. Não leia antecipadamente as perguntas das etapas seguintes e, depois de avançar, não modifique suas respostas anteriores.

Aquilo que você perceber espontaneamente durante a primeira parte será especialmente importante neste episódio. Precisamos distingui-lo daquilo que talvez aconteça depois de nossa intervenção.

Depois de preencher o primeiro bloco, comece o filme.

PARTE 1 | Onde meu interesse aparece sozinho?

Assista desde o início até o momento em que Abby aceita permanecer na fazenda, desde que Bill e Linda também possam ficar.

Dependendo da versão utilizada, essa passagem ocorre aproximadamente aos 32 minutos. Utilize o acontecimento narrativo como referência principal, e não a minutagem.

Até chegar ali, não faça nenhum exercício. Não procure fotografia, música, atuação, paisagens ou qualquer outra coisa porque foram mencionadas anteriormente. Assista da maneira como normalmente assistiria.

Quando Abby confirmar que ficará e a sequência terminar, interrompa o filme.

Abra o Caderno e responda somente ao bloco DEPOIS DA PARTE 1.

Depois retorne a esta página.

O que estava fazendo você permanecer?

Agora temos um registro importante porque ele foi produzido antes de qualquer tentativa deliberada de modificar sua atenção.

Talvez aquilo que mais o interessava fosse descobrir o que aconteceria com Bill, Abby, Linda e o fazendeiro. Se foi assim, a narrativa estava realizando muito bem seu trabalho.

Talvez, porém, seu Caderno revele que outras coisas já estavam participando da experiência. Você pode ter gostado de olhar determinadas imagens, ouvir alguma coisa, observar um personagem ou simplesmente permanecer naquele ambiente.

Nesse caso, você já estava encontrando espontaneamente outras fontes de interesse. Não precisamos ensinar aquilo que você já faz.

Mas talvez sua experiência tenha sido diferente. Você pode ter começado a sentir que o filme demorava, que algumas passagens poderiam terminar mais cedo ou que a história não oferecia razões suficientes para sustentar sua atenção.

É principalmente para essa situação que preparamos nossa próxima experiência.

PARTE 2 | Quando uma porta fecha, procure outra

Continue o filme.

Desta vez, quando perceber que sua curiosidade pela história não é suficiente para manter seu interesse, não conclua imediatamente que precisa apenas esperar até que alguma coisa aconteça.

Experimente procurar em outro lugar.

Talvez exista alguma coisa que lhe dê prazer olhar ou ouvir. Talvez uma pessoa lhe interesse independentemente do que fará depois. Talvez você goste de permanecer naquele lugar ou naquela época. Talvez uma relação entre duas pessoas desperte sua atenção. Talvez esteja descobrindo alguma coisa. Talvez o filme esteja provocando uma sensação que você queira continuar experimentando.

Não percorra mentalmente essa lista enquanto assiste. Isso transformaria o filme num exercício de identificação. Use essas possibilidades apenas quando sentir necessidade delas.

E não tente convencer-se de que encontrou alguma coisa. Se nada lhe interessar, continue registrando honestamente sua experiência.

Assista até a breve conversa que antecede a chegada do circo aéreo, pouco antes de os aviões começarem a modificar a atmosfera da fazenda. Dependendo da versão, essa passagem ocorre aproximadamente aos 55 minutos.

Interrompa o filme antes da chegada dos aviões e responda somente ao bloco DEPOIS DA PARTE 2.

Depois retorne a esta página. 

A procura mudou alguma coisa?

A segunda parada nos permite fazer uma comparação que seria impossível se tivéssemos deixado toda a reflexão para depois do filme. Na primeira parte, você assistiu a Cinzas no Paraíso sem nenhuma orientação específica sobre onde procurar interesse. Na segunda, entrou no filme sabendo que, caso a narrativa deixasse de ser suficiente para sustentar sua atenção, poderia procurar outras razões para permanecer diante dele.

Compare agora as duas experiências sem tentar encontrar uma evolução onde talvez ela não exista. É possível que a proposta não tenha modificado sua maneira de assistir porque você já prestava atenção espontaneamente a muitas das coisas que mencionamos. Nesse caso, a experiência serviu menos para acrescentar uma possibilidade do que para tornar consciente algo que já fazia parte da sua relação com o cinema.

Também pode ter acontecido algo diferente. Talvez uma imagem que antes funcionaria apenas como cenário tenha começado a interessá-lo por si mesma, ou você tenha percebido que a música, a presença de um personagem, o ambiente da fazenda, uma relação ou determinada sensação estavam ocupando parte do espaço deixado pela diminuição de sua curiosidade narrativa. O importante não é identificar qual desses elementos estava presente, mas perceber se alguma coisa ganhou valor porque você dirigiu sua atenção para um lugar que normalmente ocuparia uma posição secundária.

Naturalmente, existe ainda uma terceira possibilidade. Você pode ter procurado essas outras fontes de interesse e não encontrado nenhuma que compensasse sua falta de envolvimento com a história. Isso não significa que tenha realizado mal o exercício. Conhecer outros lugares onde um filme pode nos interessar não garante que encontraremos neles alguma coisa que desejemos receber.

Na parte final, vamos retirar novamente a intervenção. Você já sabe que essas possibilidades existem e já experimentou procurá-las deliberadamente. Agora interessa descobrir o que acontece quando deixa de procurar.

PARTE 3 | Agora apenas assista

Assista ao restante do filme sem novas interrupções e sem transformar aquilo que fizemos até aqui em uma lista mental que precise acompanhá-lo. Se alguma das possibilidades descobertas na segunda parte continuar atraindo sua atenção, permita que isso aconteça naturalmente. Se a própria narrativa voltar a ocupar o centro de seu interesse, também não há razão para afastá-la.

A diferença é que você chega a esta última parte dispondo de um território um pouco maior para sua atenção. Não precisa escolher conscientemente entre história, imagens, sons, pessoas, ambientes ou sensações. Queremos descobrir se alguma dessas possibilidades, depois de ter sido percebida, consegue participar espontaneamente da experiência.

Quando o filme terminar, permaneça alguns minutos com aquilo que acabou de assistir antes de procurar críticas, vídeos, explicações ou informações sobre a obra. Abra primeiro o Caderno e preencha, nesta ordem, DEPOIS DA PARTE 3, VOLTANDO AO PRIMEIRO OLHAR e MEU NOVO OLHAR. Somente depois retorne a esta página.

Quando a história pouco avançou, sua experiência também parou?

Agora podemos voltar à questão que nos trouxe até Cinzas no Paraíso. Durante o filme, naturalmente houve acontecimentos e transformações. Nunca estivemos tentando demonstrar que sua narrativa não avançava, mas observar aqueles períodos em que esse avanço talvez não fosse suficiente, sozinho, para manter nossa atenção.

O Caderno preservou três momentos diferentes dessa relação. Primeiro registramos aquilo que espontaneamente atraía você. Depois introduzimos a possibilidade de procurar deliberadamente outras fontes de interesse. Finalmente, retiramos o exercício e deixamos que o restante da sessão acontecesse sem uma tarefa específica. Essa sequência nos permite observar não apenas se você gostou do filme, mas se houve alguma alteração na maneira como encontrou razões para permanecer diante dele.

Talvez você tenha descoberto que sempre prestou atenção a muitas outras coisas além da história e apenas nunca tivesse pensado nelas dessa maneira. Talvez alguma possibilidade tenha adquirido importância depois de nossa intervenção. Também pode ter ocorrido algo mais discreto: você continuou achando o filme lento, mas alguns períodos que antes seriam experimentados apenas como espera passaram a conter alguma coisa que lhe interessava.

Nada disso precisa ter acontecido. É perfeitamente possível chegar ao final reconhecendo tudo aquilo que o filme lhe ofereceu e concluir que nenhuma dessas possibilidades foi suficiente para tornar a experiência interessante. Essa conclusão é tão legítima quanto qualquer outra, porque nosso objetivo nunca foi encontrar argumentos para convencer você de que deveria gostar de Cinzas no Paraíso.

O deslocamento que procuramos é anterior ao gosto. Queríamos descobrir se existe alguma diferença entre sentir que a história está avançando pouco e concluir imediatamente que aquele tempo não contém nada que possa nos interessar.

Por que uma mesma cena pode ser fascinante para alguém e vazia para outra pessoa?

A experiência também nos permite retornar a uma questão apresentada antes do filme. Aquilo que uma obra oferece não chega igualmente a todos os espectadores, porque assistir não é apenas receber passivamente alguma coisa que já está pronta na tela. O interesse surge do encontro entre o filme e aquilo que cada pessoa consegue reconhecer, compreender, sentir ou valorizar.

Por isso, uma conversa sobre determinado assunto pode sustentar longos minutos para alguém profundamente interessado nele e parecer interminável para outra pessoa. Uma recriação histórica pode ser repleta de pequenas descobertas para quem conhece aquele período, enquanto grande parte dessa riqueza permanece invisível para quem não possui as mesmas referências. O mesmo vale para uma interpretação discreta, uma composição musical, uma maneira particular de utilizar as imagens ou qualquer outra possibilidade oferecida pelo filme.

Essa diferença não precisa ser transformada numa classificação entre espectadores mais ou menos capazes. Ela revela apenas que nosso olhar possui uma história. Aquilo que estudamos, vivemos, assistimos e aprendemos modifica gradualmente a quantidade de coisas que conseguimos encontrar dentro de uma obra. Um filme que hoje nos oferece poucas entradas pode produzir uma experiência diferente alguns anos depois, assim como uma obra que compreendemos perfeitamente pode continuar não nos interessando.

É nesse pequeno espaço que UM NOVO OLHAR pretende atuar. Não podemos fabricar interesse, mas podemos ampliar o campo no qual ele tem a possibilidade de surgir. Ao mostrar que a narrativa é apenas uma das fontes de prazer de um filme, acrescentamos alguns lugares onde o espectador pode procurar antes de decidir que aquela experiência não tem nada a lhe oferecer.

O que Cinzas no Paraíso acrescentou ao nosso percurso?

Quando iniciamos este capítulo com Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo, nossa atenção ainda estava muito próxima daquilo que normalmente chamamos de acontecimentos. A primeira experiência introduziu uma distinção que ampliou esse território: enquanto poucas coisas acontecem, muitas coisas podem estar mudando.

A Tartaruga Vermelha acrescentou uma dificuldade diferente. Com a palavra praticamente ausente, observamos de onde vinha nossa curiosidade e percebemos que a vontade de continuar também pode mudar durante um filme. Ainda estávamos, entretanto, bastante orientados para o futuro da narrativa, procurando aquilo que nos fazia querer saber o que viria depois.

Cinzas no Paraíso nos trouxe para outro lugar. Desta vez, experimentamos a possibilidade de que nem todo interesse precise estar voltado para o futuro. Uma parte importante da experiência cinematográfica pode estar justamente no tempo que passamos diante daquilo que está presente agora, mesmo quando esse momento não parece necessário para fazer a história chegar rapidamente ao próximo acontecimento.

É por isso que a nova pergunta não substitui as anteriores. Ela se acrescenta a elas. Diante de um filme em que a narrativa parece perder força, continuamos podendo observar o que está mudando e aquilo que ainda desperta nossa curiosidade pelo que virá, mas agora dispomos também de outra possibilidade: O QUE MAIS ESTE FILME ESTÁ ME OFERECENDO?

A resposta pode estar numa imagem, numa música, numa pessoa, numa relação, num ambiente, numa descoberta ou numa sensação. Também pode ser que nenhuma dessas coisas nos interesse o suficiente. O ganho não está em encontrar obrigatoriamente uma resposta, mas em saber que existem mais lugares onde procurar.

O próximo desafio

Até aqui, trabalhamos com três filmes relativamente curtos, o que permitiu concentrar nossa atenção nas diferentes razões pelas quais a sensação de que “nada acontece” pode surgir. No próximo episódio, acrescentaremos uma dificuldade que até agora mantivemos sob controle: permaneceremos mais tempo diante do filme.

Era uma Vez em Tóquio, de Yasujirō Ozu, nos levará a um universo no qual a história é perfeitamente compreensível e acontecimentos importantes estão presentes, mas boa parte da experiência nasce da convivência com pessoas em situações aparentemente comuns. Conversas, visitas, refeições, deslocamentos e silêncios ocuparão um tempo que poderia ser reduzido se a única função do cinema fosse conduzir a narrativa de um acontecimento importante ao seguinte.

Chegaremos a esse filme, porém, depois de três experiências que talvez tenham modificado aquilo que entendemos por permanecer interessado. Já sabemos que mudanças podem acontecer sem grandes acontecimentos, que nossa curiosidade pode encontrar diferentes formas de se sustentar e que a história não precisa ser a única razão para considerar valioso o tempo passado diante de uma obra.

O quarto episódio poderá, então, nos colocar diante de uma questão que seria muito mais difícil no início deste percurso: quando o cinema decide dedicar seu tempo àquilo que normalmente chamaríamos apenas de vida cotidiana, será que ainda conseguimos perceber quanto pode estar acontecendo?