Repertório de Autores

Alfred Hitchcock



O cineasta que transformou o espectador em personagem

Poucos diretores alcançaram uma presença pública comparável à de Alfred Hitchcock. Sua silhueta tornou-se imediatamente reconhecível, suas breves aparições nos próprios filmes transformaram-se numa espécie de jogo com o público, seu humor macabro encontrou na televisão um espaço privilegiado e a expressão “mestre do suspense” acabou associada definitivamente ao seu nome. Hitchcock tornou-se, assim, algo relativamente raro na história do cinema: um diretor conhecido não apenas por seus filmes, mas também como personagem de sua própria obra pública.

Essa popularidade talvez tenha contribuído para simplificar durante muito tempo aquilo que havia de mais complexo em seu cinema. Defini-lo como um extraordinário criador de suspense não está errado, mas diz pouco sobre a extensão de sua contribuição. Outros cineastas construíram grandes cenas de tensão antes e depois dele. O que distingue Hitchcock é a persistência com que transformou o suspense em parte de uma investigação muito mais ampla sobre as possibilidades do cinema e, especialmente, sobre a relação que uma obra estabelece com quem a assiste.

Ao longo de quase seis décadas de carreira, Hitchcock experimentou maneiras de controlar aquilo que o público conhece, desconhece, espera, imagina e teme. Seus filmes frequentemente nos obrigam a conviver com informações incompletas, suspeitas, falsas aparências e expectativas que podem ou não se confirmar. Em vez de simplesmente registrar acontecimentos diante da câmera, ele organiza cuidadosamente nossa aproximação a esses acontecimentos, determinando quando uma informação aparece, de que maneira ela é apresentada e durante quanto tempo teremos de conviver com suas possíveis consequências.

É nesse sentido que o espectador ocupa uma posição tão importante em sua obra. Assassinatos, perseguições, espionagem, identidades trocadas e mistérios fornecem a matéria narrativa de muitos filmes, mas por trás dessas histórias existe uma preocupação constante com a experiência de assistir. Hitchcock não se interessa apenas pelo que acontece com seus personagens. Interessa-se também pelo que acontece conosco enquanto os acompanhamos.

DA INGLATERRA A HOLLYWOOD

Alfred Joseph Hitchcock nasceu em 1899, em Leytonstone, então nos arredores de Londres. Sua entrada no cinema não ocorreu diretamente pela direção. Trabalhou com intertítulos, cenografia, roteiros e direção de arte, atividades que contribuíram para uma formação profundamente ligada à construção visual do filme.

Outro contato importante ocorreu na década de 1920, quando trabalhou na Alemanha e acompanhou de perto uma cinematografia que explorava intensamente as possibilidades expressivas da imagem, da iluminação, dos cenários e da composição. Essa experiência deixaria marcas perceptíveis em seus primeiros trabalhos e ajudaria a consolidar uma concepção de cinema na qual a imagem não deveria simplesmente ilustrar uma história já existente, mas participar ativamente de sua construção.

Seu primeiro longa-metragem como diretor foi The Pleasure Garden, realizado em 1925 e lançado no ano seguinte. Seria em O Pensionista (1927) The Lodger: A Story of the London Fog, porém, que várias preocupações posteriormente associadas a Hitchcock começariam a aparecer de maneira mais reconhecível. A história de um misterioso inquilino suspeito de envolvimento numa série de crimes permitiu ao jovem diretor trabalhar com temas que retornariam sob diferentes formas ao longo da carreira, entre eles a suspeita, a culpa, a sexualidade, a ambiguidade das aparências e a situação do indivíduo que passa a ser visto pelos outros como alguém que talvez não seja.

Hitchcock pertence também à geração que atravessou uma das transformações fundamentais da história do cinema: a passagem do período silencioso para o sonoro. Blackmail, de 1929, tornou-se seu primeiro filme falado e demonstrou que seu interesse pela linguagem cinematográfica não estava restrito às possibilidades da imagem. O som poderia igualmente selecionar informações, criar expectativas e modificar a percepção de uma situação.

Durante os anos 1930, obras como O Homem que Sabia Demais, Os 39 Degraus, Sabotagem e A Dama Oculta consolidaram sua reputação no cinema britânico. Quando partiu para Hollywood, em 1939, Hitchcock já possuía uma carreira considerável e uma identidade artística em formação. A mudança não representou, portanto, o nascimento de um novo cineasta, mas a entrada de um diretor experiente em uma indústria capaz de lhe proporcionar outros recursos, estrelas de projeção internacional e condições diferentes para ampliar experiências que já vinha desenvolvendo.

Nos Estados Unidos, trabalharia com intérpretes como Cary Grant, Ingrid Bergman, James Stewart e Grace Kelly e realizaria grande parte dos filmes pelos quais continua conhecido. Ao morrer, em 1980, havia dirigido mais de cinquenta longas e atravessado períodos muito diferentes da história do cinema. Poucos autores conseguiram manter durante tanto tempo uma continuidade comparável de preocupações sem deixar de transformar a maneira de abordá-las.

UMA OBRA EM PERMANENTE INVESTIGAÇÃO

A filmografia de Hitchcock não precisa ser compreendida como a repetição de uma fórmula. Sua coerência aparece menos na presença obrigatória dos mesmos elementos do que no retorno a determinados problemas, examinados sob circunstâncias diferentes.

Os filmes britânicos oferecem um primeiro laboratório dessa investigação. The Lodger explora suspeita e identidade; Blackmail experimenta dramaticamente o som; Os 39 Degraus desenvolve a figura do indivíduo comum lançado involuntariamente numa situação extraordinária, perseguido por forças que não compreende inteiramente e obrigado a deslocar-se continuamente enquanto tenta sobreviver e provar quem realmente é. Essa estrutura reapareceria transformada em diferentes momentos da carreira, chegando a uma de suas expressões mais célebres em Intriga Internacional.

A chegada a Hollywood ampliou as possibilidades dessa pesquisa. Filmes como Rebecca, Correspondente Estrangeiro, Suspeita, Sabotador, A Sombra de uma Dúvida e Interlúdio revelam um diretor interessado tanto na eficiência narrativa quanto na possibilidade de reorganizar continuamente a relação entre personagens, câmera e público.

Em Festim Diabólico, realizado em 1948, essa vontade de experimentar tornou-se particularmente evidente. Hitchcock procurou criar a impressão de que quase todo o filme transcorria num fluxo contínuo. Como os rolos de película não permitiam tomadas com aquela duração, foi necessário ocultar parte dos cortes por meio de soluções visuais. O próprio diretor seria posteriormente crítico em relação a alguns aspectos da experiência, mas o filme permanece revelador de uma característica importante de sua trajetória: Hitchcock não se limitava a aperfeiçoar mecanismos já dominados. Continuava colocando-os à prova.

É sobretudo entre o início dos anos 1950 e os primeiros anos da década seguinte que essa trajetória alcança uma concentração excepcional. Em pouco mais de uma década surgem Pacto Sinistro, Disque M para Matar, Janela Indiscreta, Ladrão de Casaca, O Homem que Sabia Demais, O Homem Errado, Um Corpo que Cai, Intriga Internacional, Psicose e Os Pássaros.

Reunidos retrospectivamente, esses filmes podem produzir a impressão de uma unidade absoluta, mas são obras bastante diferentes. Há histórias de perseguição, dramas psicológicos, crimes, romances atravessados por obsessões, experiências espaciais rigorosas e narrativas nas quais acontecimentos aparentemente inexplicáveis invadem o cotidiano. O que lhes confere continuidade não é uma fórmula narrativa única, mas uma maneira recorrente de interrogar personagens, imagens e espectadores.

CULPA, IDENTIDADE E APARÊNCIAS

A culpa ocupa posição importante nesse universo, embora raramente apareça como uma divisão simples entre culpados e inocentes. Hitchcock se interessa justamente pelas situações em que essas categorias deixam de coincidir perfeitamente.

O motivo do “homem errado”, recorrente em diferentes momentos de sua obra, é uma das manifestações mais claras dessa inquietação. Um indivíduo pode ser confundido com outro, acusado de algo que não fez ou envolvido numa conspiração cuja lógica desconhece. A identidade, que parecia uma certeza íntima, torna-se repentinamente insuficiente. Saber quem somos não garante que os outros nos reconheçam dessa maneira.

Essa instabilidade está presente tanto em filmes de aventura e perseguição quanto em obras mais sombrias. Em O Homem Errado, Hitchcock aproxima-se de um caso real e abandona boa parte do humor associado a outros trabalhos para acompanhar as consequências devastadoras de uma acusação equivocada. Em Intriga Internacional, a confusão de identidade assume a forma de uma aventura vertiginosa. O ponto de partida é semelhante, mas as experiências cinematográficas produzidas a partir dele são radicalmente diferentes.

A tensão entre aparência e realidade também atravessa sua filmografia. Casas respeitáveis podem esconder violência, ambientes familiares podem tornar-se ameaçadores e personagens aparentemente comuns podem revelar desejos ou comportamentos inesperados. Em A Sombra de uma Dúvida, por exemplo, a chegada de um homem admirado pela família perturba gradualmente a imagem de segurança de uma pequena comunidade americana. O que parecia familiar começa a admitir outra leitura.

Esse interesse pelas aparências não se limita aos mistérios policiais. Em vários filmes, a própria relação amorosa está atravessada por dúvidas sobre identidade, desejo e representação. Um Corpo que Cai leva essa questão a um de seus pontos extremos ao aproximar paixão, memória e tentativa de reconstrução de uma imagem perdida. A pessoa amada deixa de poder ser separada da imagem que alguém deseja encontrar nela.

O cinema de Hitchcock retorna, assim, a personagens que não conhecem inteiramente os outros e, muitas vezes, tampouco conhecem inteiramente a si próprios.

O OLHAR COMO MATÉRIA DO CINEMA

Entre as preocupações recorrentes de Hitchcock, poucas possuem relação tão direta com a própria natureza do cinema quanto o ato de olhar. Seus filmes são povoados por pessoas que observam, investigam, seguem, espionam, procuram indícios ou tentam compreender aquilo que aparece diante delas.

Esse interesse não deve ser reduzido ao voyeurismo, embora o voyeurismo seja importante em algumas obras. O problema é mais amplo. Ver nunca significa simplesmente receber uma informação neutra. Aquilo que uma pessoa vê depende da posição em que se encontra, do conhecimento que já possui, daquilo que deseja encontrar e das informações às quais não tem acesso.

Hitchcock explorou intensamente essa condição porque ela coincide com uma das possibilidades fundamentais do cinema. A câmera também estabelece posições. Ela aproxima ou afasta, revela ou esconde, seleciona uma parcela do espaço e deixa outra fora do quadro. A montagem, por sua vez, determina relações entre imagens que não possuíam necessariamente o mesmo significado quando consideradas isoladamente.

Uma estrutura visual recorrente em sua obra parte dessa relação entre quem olha e aquilo que é visto. Um personagem dirige sua atenção a alguma coisa, o filme apresenta o objeto desse olhar e a imagem seguinte pode devolver ao espectador o rosto daquele personagem. A sucessão produz uma relação entre percepção e interpretação. A imagem de um rosto passa a carregar um significado que não possuía anteriormente porque agora sabemos alguma coisa sobre aquilo que ele observa.

O procedimento pertence à gramática básica do cinema e não foi inventado por Hitchcock. O que distingue seu trabalho é a intensidade e a variedade com que explorou suas possibilidades dramáticas. O ponto de vista pode aproximar o público de um personagem, limitar aquilo que sabemos, induzir uma interpretação ou fazer com que uma informação aparentemente segura se revele incompleta.

Em Um Corpo que Cai, por exemplo, a questão do olhar está ligada à obsessão e à construção de uma imagem desejada. Em Psicose, nossa relação com os personagens sofre deslocamentos que modificam sucessivamente nossa posição diante da narrativa. Em outros filmes, acompanhar aquilo que alguém vê pode produzir identificação, suspeita ou medo.

Hitchcock percebeu que mostrar alguma coisa é também decidir de onde ela será vista.

O CINEMA COMO ORGANIZAÇÃO DA INFORMAÇÃO

Essa concepção ajuda a compreender por que o suspense, em Hitchcock, não depende apenas da existência de um perigo. Sua força frequentemente nasce da maneira como as informações sobre esse perigo são distribuídas.

Uma situação pode assumir significados completamente diferentes conforme aquilo que o espectador sabe. Se uma ameaça surge inesperadamente, o impacto está na surpresa. Quando sua existência é conhecida antecipadamente, entretanto, o acontecimento futuro passa a contaminar o presente. Gestos banais podem adquirir importância, o tempo parece prolongar-se e a expectativa torna-se parte fundamental da cena.

Hitchcock tornou célebre essa distinção ao explicar a diferença entre surpresa e suspense por meio de uma situação hipotética envolvendo uma bomba. A importância do exemplo não está na anedota em si, mas na concepção de cinema que ela revela. O efeito dramático depende da relação entre acontecimento e conhecimento.

Isso significa que o suspense pode ser pensado como uma arquitetura da informação. Em determinados momentos, o público sabe algo que o personagem desconhece. Em outros, sabe apenas aquilo que ele sabe e precisa descobrir junto com ele. Há ainda situações em que aquilo que parecia conhecimento revela-se interpretação equivocada ou incompleta.

Essas variações permitem compreender por que filmes hitchcockianos muito diferentes conseguem produzir tensão sem recorrer aos mesmos mecanismos. A questão decisiva não é apenas a natureza da ameaça, mas a posição que ocupamos diante dela.

Nesse sentido, o tempo também se torna matéria narrativa. Esperar por alguma coisa cuja possibilidade conhecemos pode ser mais importante do que o próprio acontecimento. O suspense desloca o centro de interesse da ação para a antecipação da ação e transforma o espectador em participante dessa espera.

ESPAÇOS QUE PRODUZEM DRAMA

Hitchcock demonstrou igualmente uma capacidade particular de transformar espaços em elementos ativos da narrativa. Casas, escadas, corredores, quartos, hotéis, monumentos e paisagens não funcionam simplesmente como locais nos quais os acontecimentos são encenados. Sua organização determina possibilidades de ação e percepção.

Um espaço pode permitir que alguém veja sem ser visto. Pode impedir uma fuga, esconder uma ameaça, expor um personagem ou separar pessoas que precisam alcançar umas às outras. A arquitetura torna-se, assim, parte da dramaturgia.

Essa característica aparece de maneiras muito diferentes ao longo da filmografia. Festim Diabólico concentra praticamente toda a narrativa num apartamento. Disque M para Matar transforma um espaço doméstico aparentemente controlável em território de planejamento e perigo. Psicose faz do Bates Motel e da casa situada acima dele imagens inseparáveis da experiência do filme. Intriga Internacional, em contraste, atravessa grandes espaços públicos e paisagens monumentais, incorporando-os ao movimento incessante da perseguição.

Essa capacidade de pensar dramaticamente o espaço relaciona-se à formação visual de Hitchcock e à importância que atribuía ao planejamento. Seus filmes eram frequentemente concebidos com grande precisão antes das filmagens, e o roteiro, a cenografia, a posição da câmera e a montagem faziam parte de uma construção integrada.

Por isso, seus espaços raramente parecem indiferentes ao que acontece. Eles condicionam relações, distribuem informações e estabelecem limites para aquilo que personagens e espectadores podem conhecer.

OBJETOS, DETALHES E EXPECTATIVAS

O mesmo princípio pode transformar objetos aparentemente banais em elementos de enorme intensidade dramática. Chaves, copos, malas, cordas, documentos e outros pequenos objetos aparecem frequentemente destacados pela câmera.

Sua importância, porém, não reside necessariamente em algum significado simbólico oculto. Muitas vezes ela nasce simplesmente daquilo que sabemos sobre eles.

Em Interlúdio, um objeto aparentemente comum pode concentrar uma quantidade extraordinária de tensão porque o público conhece sua importância para os personagens. Em outros filmes, um detalhe visual adquire progressivamente significado à medida que novas informações são acrescentadas.

Hitchcock compreendeu que o cinema pode modificar nossa relação com as coisas sem precisar modificá-las fisicamente. Basta alterar o conhecimento que possuímos sobre elas. Um objeto permanece o mesmo, mas já não o vemos da mesma maneira.

Esse mecanismo revela uma característica mais ampla de seu cinema. A câmera não registra o mundo com neutralidade. Ao escolher o que destacar, durante quanto tempo e em qual momento, ela estabelece hierarquias. Hitchcock utiliza essa capacidade para orientar a atenção do espectador e preparar relações que muitas vezes só revelarão plenamente sua importância depois.

MONTAGEM E PARTICIPAÇÃO DO ESPECTADOR

A montagem ocupa posição central nesse processo porque permite construir sentidos a partir da relação entre fragmentos.

A célebre sequência do chuveiro em Psicose permanece um exemplo extremo dessa capacidade. Grande parte da violência experimentada pelo público não depende da exposição direta e contínua do ato, mas da combinação de planos breves, movimentos, sons e associações. A mente do espectador estabelece conexões entre os fragmentos e produz uma experiência mais intensa do que a simples soma das imagens isoladas.

Esse princípio ultrapassa a sequência e ajuda a compreender a concepção hitchcockiana de cinema. Não é necessário mostrar tudo para produzir uma impressão precisa. Muitas vezes, aquilo que permanece fora do quadro ou entre duas imagens exige do espectador uma participação ainda maior.

É também por essa razão que assistir a Hitchcock envolve constantemente formular hipóteses. Uma imagem oferece uma informação, outra modifica seu significado, uma terceira introduz uma possibilidade inesperada. O público compara, antecipa e interpreta, mesmo quando não percebe conscientemente que está fazendo isso.

Hitchcock trabalha sobre essa atividade mental. Seu controle rigoroso da forma não pretende transformar o espectador em alguém passivo, mas organizar as condições dentro das quais sua imaginação trabalhará.

HUMOR, DESEJO E CONTRADIÇÃO

A imagem do “mestre do suspense” também pode fazer esquecer quanto humor existe em Hitchcock. Mesmo filmes atravessados pelo crime e pela ameaça frequentemente reservam espaço para ironia, constrangimento, humor negro e situações em que a tensão convive com o absurdo.

Esse humor não constitui apenas um intervalo destinado a aliviar a narrativa. Em muitos casos, participa da própria ambiguidade moral de seu universo. A morte pode aproximar-se do cotidiano de maneira desconcertantemente banal, personagens podem discutir crimes com uma naturalidade inesperada e situações ameaçadoras podem carregar simultaneamente alguma dimensão cômica.

Algo semelhante ocorre com o desejo. Relações afetivas raramente aparecem em sua obra como territórios inteiramente separados do perigo, da suspeita ou da fantasia. O amor pode conviver com ciúme, desconfiança, controle e obsessão. A intimidade não elimina o mistério existente entre as pessoas.

Essa aproximação entre desejo e ameaça contribui para a atmosfera particular de muitos de seus filmes. Os personagens não precisam apenas descobrir o que os outros fizeram. Precisam frequentemente compreender o que desejam, aquilo que temem desejar e até que ponto podem confiar na imagem que construíram de outra pessoa.

Por isso, reduzir Hitchcock às engrenagens do suspense significa perder parte importante de sua complexidade. Sua precisão formal está a serviço de personagens atravessados por impulsos contraditórios, e muitas vezes é justamente o contraste entre a organização rigorosa do filme e a instabilidade emocional de quem o habita que produz sua força.

O ESPECTADOR DENTRO DO JOGO

Existe, finalmente, uma dimensão que conecta muitas dessas características. Hitchcock compreendeu que o espectador não está fora do mecanismo cinematográfico.

Quando recebemos determinada informação, passamos a esperar alguma coisa. Quando o filme limita nosso conhecimento, tentamos completar aquilo que falta. Quando acompanhamos durante algum tempo um personagem, podemos desejar que ele consiga escapar de uma situação mesmo que nossa avaliação moral de suas ações seja mais complicada.

Psicose oferece um dos exemplos mais conhecidos desse deslocamento. Depois de reorganizar de maneira radical a relação do público com a narrativa, Hitchcock cria situações em que a tensão já não depende simplesmente de uma identificação estável entre espectador e protagonista. Nossa atenção pode ser transferida, nossas expectativas podem mudar e nossa posição moral pode tornar-se momentaneamente desconfortável.

Esse tipo de experiência explica por que a relação de Hitchcock com o público vai além da simples busca por emoções fortes. O diretor parece interessado na facilidade com que uma construção cinematográfica pode alterar temporariamente nossas prioridades.

O espectador sabe que está diante de uma ficção, mas reage a ela. Formula julgamentos, porém também deseja. Conhece determinadas informações e ignora outras. Tenta antecipar acontecimentos e frequentemente descobre que suas expectativas foram produzidas pelo próprio filme.

Nesse sentido, Hitchcock não utiliza apenas personagens para construir suas narrativas. Utiliza também aquilo que o público leva para dentro delas: curiosidade, medo, memória, desejo e necessidade de compreender.

DE ARTESÃO DO ENTRETENIMENTO A GRANDE AUTOR DO CINEMA

A enorme popularidade de Hitchcock contribuiu, paradoxalmente, para que durante parte de sua carreira sua importância artística fosse subestimada. Era possível admirar sua habilidade técnica e sua eficiência como criador de entretenimento sem reconhecer necessariamente a continuidade de uma visão de cinema atravessando obras realizadas dentro de uma indústria fortemente organizada por produtores, estúdios e estrelas.

A reavaliação crítica de sua obra teve papel importante na própria consolidação da ideia moderna de autoria cinematográfica. Críticos ligados à revista francesa Cahiers du cinéma estiveram entre aqueles que defenderam que, por trás dos diferentes gêneros, atores, produtores e circunstâncias industriais, existia uma visão reconhecível atravessando seus filmes.

François Truffaut levaria essa valorização a um público muito maior ao realizar uma extensa série de entrevistas com Hitchcock, posteriormente publicada em livro. A conversa percorreu sua filmografia praticamente filme a filme e ajudou a estabelecer uma imagem do diretor não apenas como especialista em suspense, mas como alguém que havia pensado profundamente sobre seu ofício.

Essa mudança de perspectiva possui uma importância que ultrapassa Hitchcock. Sua carreira tornou-se um dos exemplos mais influentes da possibilidade de reconhecer autoria dentro do próprio cinema industrial. Um diretor poderia trabalhar com estrelas, grandes estúdios, gêneros populares e expectativas comerciais e, ainda assim, desenvolver ao longo de décadas um conjunto persistente de preocupações formais e temáticas.

A contradição entre popularidade e sofisticação, portanto, talvez nunca tenha existido para Hitchcock. Seus filmes não precisavam deixar de funcionar como entretenimento para se transformar em objetos complexos. Era justamente por meio dos mecanismos capazes de prender milhões de espectadores que ele realizava boa parte de sua investigação sobre o cinema.

UM CINEMA QUE CONTINUA NOS OBSERVANDO

A influência de Hitchcock atravessa o thriller, o terror, o cinema policial e grande parte do cinema contemporâneo. Ela pode ser percebida em soluções de montagem, construções de suspense, narrativas de perseguição, histórias de identidade e inúmeros filmes interessados na relação entre observação e desejo.

Seu legado, porém, dificilmente pode ser reduzido à transmissão de um conjunto de técnicas.

Hitchcock mostrou que uma obra destinada a grandes plateias poderia transformar os próprios mecanismos de comunicação com essas plateias em matéria artística. Suspense, montagem, ponto de vista, espaço e informação não aparecem em seus filmes apenas como recursos empregados para contar histórias. Tornam-se maneiras de investigar o que significa assistir a uma história contada por imagens.

É por isso que sua filmografia permanece particularmente fértil para quem começa a construir um repertório de autores. A continuidade existente entre seus filmes não exige que todos sejam iguais. Ao contrário, torna-se mais interessante justamente porque determinadas preocupações reaparecem modificadas por outras histórias, personagens, espaços e momentos de sua carreira.

Conhecer Hitchcock significa, portanto, acompanhar um cineasta que passou décadas experimentando aquilo que poderia fazer com uma câmera, uma montagem, um espaço, uma informação e um público.

Depois de algum tempo dentro de sua obra, talvez a expressão “mestre do suspense” continue parecendo verdadeira. Apenas terá se tornado pequena demais.