FILMOTECA - Revista de Cinema: Pág. 19


Mitos do Cinema

15 histórias que acreditamos conhecer serão investigadas pela Filmoteca


O cinema construiu algumas de suas histórias mais fascinantes longe das telas. Brigas entre grandes diretores e estrelas, romances secretos, filmagens que teriam levado atores ao limite, cenas cuja reação seria verdadeira porque os intérpretes não sabiam o que aconteceria e produções tão caóticas que seus próprios realizadores teriam perdido o controle. Repetidas durante décadas, muitas dessas histórias passaram a integrar a memória do cinema quase com a mesma força dos próprios filmes.

Mas quanto delas aconteceu realmente?

A Filmoteca estreia MITOS DO CINEMA, uma nova seção dedicada a investigar essas narrativas a partir de documentos, entrevistas, depoimentos, registros de produção, biografias e pesquisas históricas. A proposta não é partir do pressuposto de que os mitos são falsos, mas descobrir quanto existe de fato, exagero ou ausência de comprovação em histórias que aprendemos a aceitar como verdadeiras. A primeira série já está definida e reunirá 15 investigações.

Vamos descobrir se existe realmente uma pessoa enforcada aparecendo ao fundo de uma cena de O Mágico de Oz e investigar se Stanley Kubrick submeteu deliberadamente Shelley Duvall a sofrimento psicológico durante O Iluminado. Em Alien, voltaremos à famosa cena do chestburster para saber quanto os atores realmente conheciam antes de filmá-la, enquanto O Que Terá Acontecido a Baby Jane? nos levará à lendária rivalidade entre Bette Davis e Joan Crawford.

Duas histórias permitirão observar como Hollywood construiu a imagem de suas estrelas. Uma delas investigará o relacionamento mantido durante décadas por Katharine Hepburn e Spencer Tracy, parceiros em nove filmes. Outra examinará a ideia de que os homens que contracenavam com Audrey Hepburn invariavelmente se apaixonavam por ela.

Também colocaremos frente a frente Stanley Kubrick e Kirk Douglas para descobrir o que realmente aconteceu durante Spartacus. E atravessaremos gerações de cinema de ação para investigar uma imagem associada primeiro a Steve McQueen e hoje a Tom Cruise: até que ponto esses astros realmente dispensam dublês nas cenas mais perigosas?

Algumas investigações entrarão em produções que se tornaram lendárias pelo próprio caos. Em Casino Royale, procuraremos saber quanto a rivalidade entre Peter Sellers e Orson Welles contribuiu para os problemas do filme. Em Apocalypse Now, a pergunta será ainda maior: Francis Ford Coppola realmente perdeu o controle de sua produção enquanto arriscava seu patrimônio e sua própria estabilidade para terminar o filme?

Em Tubarão, examinaremos uma das histórias mais repetidas sobre Steven Spielberg: o defeito constante do tubarão mecânico realmente obrigou o diretor a escondê-lo e, quase por acidente, criou o suspense que tornou o filme um clássico?

Psicose terá uma investigação especial. A cena do chuveiro acumulou tantas histórias ao longo das décadas que colocaremos à prova três de seus grandes mitos.

Também haverá filmes que transformaram a própria ideia de verdade em parte de sua linguagem. Fargo anuncia ao espectador que está contando uma história verdadeira. Estava? E A Bruxa de Blair será o ponto de partida para investigar se o público realmente acreditou estar assistindo às últimas imagens de três jovens desaparecidos. A história permitirá ainda revisitar o fenômeno do found footage, a internet nascente e a extraordinária relação entre o pequeno investimento na produção e uma bilheteria mundial próxima de US$ 250 milhões.

A investigação mais delicada da primeira série será dedicada a O Último Tango em Paris. O objetivo será separar aquilo que Maria Schneider efetivamente viveu durante a filmagem da famosa cena com Marlon Brando da versão que posteriormente passou a circular sobre o que teria acontecido diante das câmeras, sem minimizar os procedimentos que a própria atriz denunciou e Bernardo Bertolucci posteriormente reconheceu.

Cada investigação poderá chegar a um de quatro resultados: FALSO, EXAGERADO, NÃO COMPROVADO ou CONFIRMADO. O veredito, porém, nunca será decidido antes da pesquisa.

É justamente aí que está a proposta de MITOS DO CINEMA. Não queremos substituir uma lenda por outra nem transformar a história do cinema numa coleção de desmentidos. Queremos descobrir como essas histórias nasceram, por que continuamos a repeti-las e, principalmente, o que aparece quando confrontamos a versão consagrada com aquilo que as evidências realmente permitem afirmar.

Nas próximas edições, essas quinze histórias começarão a ser abertas, uma a uma.

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