Debate realizado pelo Clube de Cinema Seu Manolo
A conversa sobre O Sexto Sentido começou com uma
impressão bastante compartilhada entre os participantes: trata-se de um filme
cuja construção continua funcionando mesmo para quem já conhece sua célebre
revelação final. O roteiro foi apontado diversas vezes como uma de suas maiores
qualidades, assim como a direção de M. Night Shyamalan e as atuações, com
destaque recorrente para Haley Joel Osment e Toni Collette. Para alguns, a
primeira sessão e a revisão chegam a constituir experiências tão diferentes que
parecem revelar dois filmes dentro da mesma obra.
Logo no início surgiu, porém, uma questão que acompanharia
boa parte da conversa: afinal, O Sexto Sentido é realmente um filme de
terror?
As respostas mostraram que não havia consenso nem mesmo
sobre sua classificação. Terror, suspense psicológico, thriller psicológico e
drama com elementos de suspense e terror foram algumas das possibilidades
apresentadas. Apesar das diferenças de nomenclatura, predominou a percepção de
que o medo não esgota o filme. Para muitos participantes, o sobrenatural
funciona como caminho para tratar de trauma, solidão, infância, relações
familiares, dificuldade de comunicação, espiritualidade e aceitação. Um participante
resumiu essa percepção dizendo que o terror seria o meio, enquanto aquilo que
acontece aos personagens e suas consequências constituiriam algo muito maior.
Essa discussão ganhou força quando a conversa se voltou para
Cole. Perguntados sobre quem representava a maior ameaça para o menino, os
mortos ou os vivos, vários participantes apontaram os vivos. Os fantasmas o
aterrorizam, mas posteriormente descobrimos que muitos deles procuram ajuda.
Entre os vivos, Cole enfrenta bullying, incompreensão e principalmente o medo
de ser considerado louco caso revele aquilo que vê. Uma participante observou
que ele se sente sozinho justamente porque não encontra alguém com quem possa
dividir o medo que experimenta. Outro comentário estabeleceu uma diferença
particularmente interessante: Cole teme os mortos porque eles aparecem, mas
teme os vivos porque podem não enxergá-lo verdadeiramente.
Também houve uma mudança importante na maneira como os
participantes discutiram os fantasmas. No começo do filme, eles são percebidos
principalmente como ameaça. Conforme Cole aprende a ouvi-los, passam a ser
vistos como seres que também sofrem e procuram alguma forma de ajuda. O menino
não deixa de possuir sua capacidade, nem consegue fazer desaparecer aquilo que
o assusta. O que muda é sua relação com essa experiência. Alguns participantes
ampliaram essa leitura para uma reflexão sobre aquilo que fazemos enquanto
vivos, as situações que permanecem sem resolução e a possibilidade de concluir
ciclos que pareciam encerrados pela morte.
A relação entre Cole e Malcolm tornou-se então um dos
centros do debate. Houve forte concordância de que a ajuda entre os dois é
recíproca. Malcolm oferece ao menino alguém disposto a escutá-lo sem julgá-lo e
o ajuda a encontrar outra maneira de se relacionar com aquilo que vê. Cole, por
sua vez, conduz Malcolm à compreensão de sua própria condição. Surgiram
expressões diferentes para caracterizar essa relação: dois personagens buscando
compreensão, um caminho de redenção para ambos e até “duas solidões que se
encontram”. Também apareceu a leitura de Malcolm como uma possível referência
paterna para Cole, enquanto o menino oferece ao psicólogo a possibilidade de
reparar simbolicamente seu fracasso anterior com Vincent.
Foi nesse ponto que apareceu uma das discussões mais vivas
da noite: Cole sabia desde o início que Malcolm estava morto?
Parte do grupo acreditava que sim. Cole vê pessoas mortas e
percebe que ninguém além dele efetivamente interage com Malcolm. Além disso,
sabe que alguns mortos não compreendem que morreram. Para esses participantes,
Cole poderia reconhecer a condição de Malcolm e, ao mesmo tempo, perceber que o
próprio psicólogo não estava preparado para compreendê-la. Seu silêncio seria
então uma forma de lidar com alguém que, embora morto, não se apresentava como
os outros espíritos que o aterrorizavam.
Outros participantes discordaram. Se Cole já soubesse, por
que pediria a Malcolm que o protegesse dos mortos? Também foi lembrado que o
psicólogo não aparece para o menino da mesma maneira visualmente perturbadora
que outros fantasmas. Nessa leitura, Cole poderia não ter compreendido
inicialmente a natureza de Malcolm, sobretudo porque ainda não sabia
interpretar ou controlar suas próprias experiências. A questão permaneceu
aberta, e alguns participantes disseram que pretendiam prestar atenção
especificamente nisso quando voltassem ao filme.
Quando a conversa chegou à revelação de que Malcolm estava
morto, as experiências pessoais foram bastante diferentes. Alguns haviam
assistido ao filme originalmente sem qualquer informação sobre o final e ainda
lembravam do impacto provocado pela descoberta. Outros chegaram ao filme já
conhecendo o plot twist. Houve também quem começasse a desconfiar durante a
cena em que Malcolm aparece sentado diante da mãe de Cole sem que os dois
efetivamente conversem.
Curiosamente, conhecer a revelação não pareceu diminuir
muito a avaliação do filme entre os participantes. Pelo contrário, vários
disseram que rever O Sexto Sentido permite perceber melhor sua
construção. As pistas passam a chamar atenção, assim como situações que haviam
sido interpretadas de outra maneira na primeira sessão. Foram mencionados o
distanciamento de Anna, as cenas em que Malcolm parece participar de uma
conversa embora ninguém realmente fale com ele, a queda de temperatura
associada aos mortos e o uso recorrente da cor vermelha. Para alguns
participantes, rever o filme transforma o espectador em uma espécie de
investigador da própria experiência anterior: passamos a procurar aquilo que
estava diante de nós e não havíamos percebido.
Daí surgiu outra questão importante: Shyamalan engana o
espectador ou o espectador completa aquilo que o filme não mostrou?
Durante o debate, predominou a percepção de que o filme
“joga limpo”. O diretor induz determinadas interpretações, mas não
necessariamente apresenta informações falsas. A cena de Malcolm sentado diante
da mãe de Cole tornou-se o principal exemplo. Muitos espectadores concluem
automaticamente que os dois estavam conversando antes da chegada do menino
porque aquela é a situação que parece mais lógica. Entretanto, o filme não
mostra essa conversa.
A discussão levou os participantes a reconhecer a
importância das próprias suposições na experiência de assistir ao filme. Um
psicólogo sentado diante da mãe de seu paciente parece uma situação
absolutamente normal, e por isso completamos mentalmente aquilo que não vimos.
Malcolm continua agindo como psicólogo, Anna parece uma esposa ressentida e o
silêncio das pessoas ao redor pode ser interpretado de maneiras perfeitamente
plausíveis enquanto ainda acreditamos que ele está vivo. Para alguns participantes,
é justamente essa capacidade de direcionar nossa atenção para explicações mais
prováveis que permite ao filme esconder algo que, depois da revelação, parece
evidente.
A conversa, entretanto, continuou depois do encerramento
formal do debate, e foi então que surgiu uma contestação mais radical a essa
engenharia narrativa. Se Shyamalan não mente para o espectador, isso significa
necessariamente que o roteiro permanece inteiramente coerente? Um participante
argumentou que a narrativa exige uma alienação bastante conveniente de Malcolm.
Durante um longo período, o psicólogo aparentemente não percebe que ninguém
além de Cole conversa diretamente com ele, que sua esposa não responde às suas
tentativas de comunicação e que sua relação cotidiana com o mundo sofreu uma
transformação extraordinária.
A observação provocou uma nova divisão. Para uma parte da
conversa, essa seria uma fragilidade real do roteiro: o comportamento de
Malcolm precisaria ser artificialmente organizado para preservar a surpresa. A
narrativa isolaria convenientemente o personagem, evitando situações que
poderiam tornar sua condição evidente demais. Nessa leitura, a lógica interna
do filme seria esticada até o limite para manter funcionando o mecanismo do
plot twist.
Outra leitura defendeu exatamente o contrário. A alienação
de Malcolm não seria apenas uma conveniência narrativa, mas parte fundamental
de seu arco. Existe uma ironia no fato de um psicólogo dedicado a compreender a
mente e a percepção dos outros ser incapaz de perceber aquilo que acontece
consigo mesmo. Malcolm permanece preso à missão de ajudar Cole porque carrega a
culpa de não ter conseguido compreender Vincent. Assim como outros mortos do
filme, ele enxerga aquilo que consegue enxergar e permanece ligado a algo que
deixou inacabado. Sua incapacidade de reconhecer a própria morte poderia,
portanto, ser entendida como parte do mesmo processo de negação e aceitação que
atravessa toda a história.
A discussão produziu uma das questões mais interessantes
surgidas na conversa: até que ponto um filme pode esticar sua lógica interna
para construir uma grande revelação? Para alguns, O Sexto Sentido aproxima-se
perigosamente desse limite. Para outros, a coerência emocional do personagem é
suficiente para sustentar aquilo que talvez pareça menos convincente quando
analisado apenas em termos de comportamento cotidiano. A divergência tornou
mais complexa a pergunta anterior. Talvez não baste perguntar se Shyamalan
engana o espectador. Também é possível perguntar quanto o roteiro precisa
organizar seus personagens e nossas expectativas para que possamos ser
enganados.
O papel do plot twist ganhou, assim, uma dimensão maior na
discussão. Houve quem o considerasse o ápice do filme e um dos principais
responsáveis por sua permanência no imaginário popular. Também apareceu a ideia
de que sua repercussão foi fundamental para colocar o filme no mapa e
transformar sua revelação em uma das mais conhecidas do cinema contemporâneo.
Para outros participantes, entretanto, a reviravolta não seria tão importante
para o núcleo emocional da obra. A relação entre Cole e Malcolm continuaria
funcionando mesmo para quem conhece o segredo desde o princípio.
Essa diferença de opinião conduziu a uma conclusão
compartilhada por vários participantes: um grande plot twist não melhora
necessariamente um filme. Uma reviravolta pode ser extraordinária, mas uma obra
precisa sustentar-se para além dela. No caso de O Sexto Sentido, foram
citados como elementos que permanecem relevantes a construção do suspense, as
atuações, a direção, a montagem, a trilha e principalmente as relações entre os
personagens. Mesmo entre aqueles que questionaram a lógica necessária para
preservar a surpresa, apareceu a percepção de que a carga emocional dos
personagens e a direção de cena ajudam o filme a sobreviver ao próprio segredo.
Na parte final do debate, a conversa abandonou
progressivamente a engenharia narrativa para perguntar sobre o que, afinal, é O
Sexto Sentido. Não surgiu uma resposta única, e as diferentes propostas
talvez sejam um dos melhores registros da conversa. Foram mencionados medo,
morte, luto, solidão, comunicação, aceitação, relações familiares,
espiritualidade, autoconhecimento, traumas e a necessidade de enfrentar os
próprios fantasmas.
Um participante resumiu sua leitura como aquilo que fazemos
enquanto vivos e as dívidas que carregamos para a morte. Outro falou sobre a
possibilidade de concluir ciclos que ficaram pendentes. Para outra
participante, aceitação reuniria as trajetórias de Malcolm e Cole: um precisa
aceitar que morreu; o outro, aquilo que é capaz de ver. Também apareceu a ideia
de que os relacionamentos transformam os personagens e produzem
autoconhecimento. Depois do encerramento formal, uma palavra ainda foi
acrescentada à conversa: empatia.
Entre tantas respostas, uma formulação particularmente
simples reuniu boa parte da discussão: “prestar atenção e validar a dor do
outro”. Ela dialoga tanto com Cole, que precisa finalmente ser ouvido,
quanto com os mortos que aparecem diante dele carregando histórias que ainda
precisam ser compreendidas. Também alcança Malcolm, cuja trajetória começa
justamente com o fracasso em compreender Vincent e encontra em Cole uma segunda
possibilidade de escuta.
O debate terminou sem reduzir O Sexto Sentido a uma
interpretação definitiva. Ao contrário, a conversa posterior mostrou que
algumas questões continuavam se transformando depois do encerramento.
Participantes disseram que passaram a pensar de outra maneira sobre o
sobrenatural e a espiritualidade. Outros ficaram interessados em rever as
pistas da morte de Malcolm ou reconsiderar se Cole sabia desde o início quem
estava diante dele. E surgiu ainda uma nova vontade de rever o filme não apenas
para procurar pistas, mas para testar a própria coerência de sua construção.