FILMOTECA - Revista de Cinema: Pág. 18


CLC Indica

A Sombra do Meu Pai (2025) - 1 h 34 min




Quando a memória de uma família encontra a história de um país

Na Nigéria de 1993, os irmãos Remi e Akin estão acostumados à ausência do pai, Folarin, que trabalha em Lagos e raramente consegue voltar para casa. Quando ele aparece inesperadamente e precisa viajar à capital para tentar receber meses de salários atrasados, os meninos insistem em acompanhá-lo. O que poderia ser apenas um dia incomum em família acontece, porém, em um momento decisivo da história nigeriana, quando o país acompanha uma eleição que alimenta a esperança de retorno à democracia. Akinola Davies Jr. aproxima essas duas dimensões sem transformar o filme em uma explicação histórica: enquanto algo importante acontece nas ruas, duas crianças tentam compreender melhor o homem que chamam de pai.

Essa perspectiva infantil determina também a maneira como A Sombra do Meu Pai nos permite observar os acontecimentos. Remi e Akin percebem a tensão política, escutam conversas e acompanham mudanças no comportamento dos adultos, mas não possuem todas as informações necessárias para interpretar aquilo que acontece. A câmera frequentemente se aproxima da altura de seus olhares, enquanto a fotografia alterna registros mais imediatos da cidade com imagens de textura mais granulada e caráter memorialístico. O resultado é menos uma reconstituição objetiva daquele dia do que uma memória sendo reconstruída muitos anos depois, com suas lacunas, impressões e fragmentos.

No centro dessa memória está Folarin. Ṣọpẹ́ Dìrísù interpreta um homem inicialmente difícil de decifrar, marcado por uma concepção de paternidade em que garantir o sustento da família parece ter precedência sobre estar efetivamente presente. Durante a viagem, entretanto, pequenos gestos e conversas revelam outras dimensões do personagem. Davies Jr. evita tanto idealizá-lo quanto condená-lo. O interesse está justamente em permitir que os filhos percebam, gradualmente, que existe uma pessoa muito mais contraditória por trás da figura paterna que conheciam. É nessa descoberta que o filme encontra grande parte de sua força emocional.

Há ainda uma dimensão autobiográfica decisiva. Akinola Davies Jr. escreveu o roteiro com o irmão Wale Davies a partir de uma experiência familiar de perda, e essa origem ajuda a compreender por que o filme trata a memória menos como registro fiel do passado do que como tentativa de reorganizá-lo. A história particular daquela família e a crise política da Nigéria não disputam importância. Uma passa a existir dentro da outra. Na lembrança, acontecimentos públicos e experiências íntimas podem permanecer ligados simplesmente porque ocorreram no mesmo momento de nossas vidas. O filme encontra nessa sobreposição uma forma particularmente delicada de falar sobre infância, identidade, ausência e pertencimento.

Com CLC Score 8,0, A Sombra do Meu Pai revela uma segurança incomum para um primeiro longa. Akinola Davies Jr. transforma um período turbulento da história nigeriana em algo profundamente humano sem reduzir a política a pano de fundo nem utilizar a família apenas como instrumento para explicá-la. Ao final, permanece sobretudo a sensação de que compreender nossos pais também significa tentar reconstruir aquilo que nunca pudemos enxergar quando éramos crianças. E de que, muitas vezes, as grandes transformações de um país sobrevivem dentro de nós misturadas às lembranças mais pessoais de quem estava ao nosso lado quando elas aconteceram. 

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