FILMOTECA - Revista de Cinema: Pág. 17


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Estou Pensando em Acabar com Tudo (2020)



Quando a confusão faz parte do filme

Há algo de deliberadamente enganoso na maneira como Estou Pensando em Acabar com Tudo se apresenta. No início, Charlie Kaufman parece propor uma situação relativamente simples: uma jovem acompanha o namorado, Jake, em uma viagem de carro para conhecer os pais dele. Há desconforto no relacionamento e, desde os primeiros minutos, sabemos que ela pensa em terminá-lo. O que poderia se desenvolver como um drama sobre um casal em crise, porém, começa lentamente a perder sua estabilidade. Pequenas incoerências aparecem, o tempo parece comportar-se de maneira estranha e até a identidade da protagonista deixa de ser inteiramente confiável.

Kaufman não parece interessado em oferecer ao espectador um mistério tradicional, no qual pistas são distribuídas para que uma solução possa finalmente reorganizar tudo o que vimos. Adaptando o romance de Iain Reid, o diretor utiliza a desorientação como parte da própria experiência. Memórias, fantasias, referências culturais e acontecimentos aparentemente objetivos passam a ocupar o mesmo espaço. A realidade deixa de funcionar como um terreno firme. Mais do que observar alguém cuja percepção está fragmentada, somos convidados a permanecer dentro dessa fragmentação.

É justamente aí que o filme encontra alguns de seus maiores admiradores. Para eles, Kaufman utiliza recursos propriamente cinematográficos para tratar de solidão, arrependimento, envelhecimento e das vidas que imaginamos, mas nunca chegamos a viver. Mudanças repentinas de idade, identidade ou comportamento não precisariam ser encaradas como inconsistências. Elas expressariam uma consciência na qual passado, presente, desejo e lembrança já não podem ser claramente separados. A forma do filme, nesse sentido, não estaria dificultando a compreensão de seu tema. Seria o próprio tema.

Mas existe uma objeção igualmente legítima. Ao transformar a instabilidade em princípio narrativo, Kaufman exige muito de quem assiste. Os diálogos se prolongam, referências literárias e cinematográficas se acumulam e determinadas sequências abandonam quase completamente a lógica dramática estabelecida no início. Para alguns espectadores, a sensação de descoberta dá lugar à impressão de que o filme está constantemente retirando as regras necessárias para que possamos nos envolver com aquilo que acontece. Quanto mais sofisticada se torna sua construção intelectual, maior pode ser a distância emocional criada entre obra e público.

Curiosamente, compreender melhor o que Kaufman está fazendo não resolve necessariamente essa divergência. É possível reconhecer a lógica que organiza o filme e continuar considerando sua experiência excessivamente hermética. Também é possível não conseguir explicar cada acontecimento e ainda assim ser profundamente afetado por sua melancolia. Talvez seja exatamente por isso que Estou Pensando em Acabar com Tudo permaneça tão provocador. Ele nos obriga a discutir não apenas aquilo que significa, mas até onde estamos dispostos a acompanhar um cineasta quando a desorientação deixa de ser um obstáculo e passa a constituir sua linguagem.

E você decide: a confusão de Estou Pensando em Acabar com Tudo amplia aquilo que o cinema pode expressar ou transforma uma reflexão poderosa em uma experiência excessivamente inacessível?

Análise do filme no CRÍTICA LIVRE DE CINEMA.