Uçurtmayı Vurmasınlar encontra na infância uma
maneira delicada de falar sobre prisão, afeto e liberdade
Barış tem cinco anos e cresce dentro de uma prisão feminina
em Ancara. Sua mãe, Fatma, está encarcerada e, como acontece com outras
crianças naquele lugar, ele compartilha o cotidiano das detentas. Para os
adultos, grades, muros e guardas significam privação da liberdade. Para Barış,
porém, aquele é praticamente o único mundo que conhece.
A história se passa em 1984, poucos anos depois do golpe
militar de 1980 na Turquia. Entre as mulheres encarceradas estão presas
políticas, e uma delas, İnci, torna-se especialmente próxima do menino. A
relação entre os dois passa a ocupar o centro do filme, criando dentro da
prisão um pequeno território de afeto que escapa à disciplina imposta pelos
muros.
O roteiro foi escrito por Feride Çiçekoğlu a partir de sua
novela homônima e possui uma ligação direta com aquele período histórico.
Çiçekoğlu passou quatro anos como presa política depois do golpe. Curiosamente,
sua experiência não resultou em um filme interessado em reconstruir
interrogatórios, torturas ou grandes confrontos com o regime. A repressão
aparece principalmente através de suas consequências sobre a vida cotidiana.
Tunç Başaran segue essa direção. Filmado em prisões reais, o
longa observa refeições coletivas, conversas, brincadeiras e pequenos gestos de
solidariedade. A prisão nunca deixa de ser opressiva, mas também se transforma
em um espaço onde as pessoas tentam preservar relações humanas apesar das
condições impostas a elas.
Isso torna o filme muito mais acessível do que sua origem e
seu contexto histórico poderiam sugerir. Não é necessário conhecer a política
turca para compreender o que está acontecendo entre Barış e İnci. O contexto
amplia a leitura, mas a experiência emocional chega primeiro.
Uma imagem sintetiza essa estratégia. Barış desenha uma pipa
a giz no chão do pátio e não entende por que ela não consegue voar. Além dos
muros existem pipas verdadeiras no céu, algumas delas derrubadas pelos soldados
que vigiam a prisão. O filme não precisa interromper a narrativa para explicar
o significado da cena. Basta colocar uma criança, um desenho e um muro dentro
do mesmo espaço.
Nur Sürer interpreta İnci sem transformar a personagem em
símbolo político. Sua relação com Barış é construída por gestos cotidianos,
enquanto Ozan Bilen oferece ao menino a naturalidade necessária para que
vejamos aquele universo através de alguém que percebe suas consequências sem
compreender inteiramente suas causas.
O filme recebeu importantes prêmios na Turquia, incluindo
Melhor Filme, Melhor Atriz, Melhor Roteiro e Melhor Fotografia no Festival de
Antalya, e representou o país na disputa pelo Oscar de Melhor Filme
Estrangeiro. Décadas depois, voltou a circular internacionalmente e hoje pode
ser descoberto por novos espectadores.
Uçurtmayı Vurmasınlar mostra como o cinema pode falar
de um período político através daquilo que ele provoca na vida das pessoas. Em
vez de transformar a História em discurso, Başaran a observa através de uma
amizade.
E faz de uma simples pipa uma imagem difícil de esquecer.
Quer ir além da descoberta?
No Crítica Livre de Cinema, a análise completa
investiga como o filme transforma infância, prisão e liberdade em linguagem
cinematográfica e aprofunda o significado da relação entre Barış e İnci.