FILMOTECA - Revista de Cinema: Pág. 16


Fora do Radar

Uçurtmayi Vurmasinlar (1989) - 1 h 25 min




Uçurtmayı Vurmasınlar encontra na infância uma maneira delicada de falar sobre prisão, afeto e liberdade

Barış tem cinco anos e cresce dentro de uma prisão feminina em Ancara. Sua mãe, Fatma, está encarcerada e, como acontece com outras crianças naquele lugar, ele compartilha o cotidiano das detentas. Para os adultos, grades, muros e guardas significam privação da liberdade. Para Barış, porém, aquele é praticamente o único mundo que conhece.

É dessa diferença de percepção que Uçurtmayı Vurmasınlar (Don't Let Them Shoot the Kite), dirigido por Tunç Başaran em 1989, retira grande parte de sua força.

A história se passa em 1984, poucos anos depois do golpe militar de 1980 na Turquia. Entre as mulheres encarceradas estão presas políticas, e uma delas, İnci, torna-se especialmente próxima do menino. A relação entre os dois passa a ocupar o centro do filme, criando dentro da prisão um pequeno território de afeto que escapa à disciplina imposta pelos muros.

O roteiro foi escrito por Feride Çiçekoğlu a partir de sua novela homônima e possui uma ligação direta com aquele período histórico. Çiçekoğlu passou quatro anos como presa política depois do golpe. Curiosamente, sua experiência não resultou em um filme interessado em reconstruir interrogatórios, torturas ou grandes confrontos com o regime. A repressão aparece principalmente através de suas consequências sobre a vida cotidiana.

Tunç Başaran segue essa direção. Filmado em prisões reais, o longa observa refeições coletivas, conversas, brincadeiras e pequenos gestos de solidariedade. A prisão nunca deixa de ser opressiva, mas também se transforma em um espaço onde as pessoas tentam preservar relações humanas apesar das condições impostas a elas.

Isso torna o filme muito mais acessível do que sua origem e seu contexto histórico poderiam sugerir. Não é necessário conhecer a política turca para compreender o que está acontecendo entre Barış e İnci. O contexto amplia a leitura, mas a experiência emocional chega primeiro.

Uma imagem sintetiza essa estratégia. Barış desenha uma pipa a giz no chão do pátio e não entende por que ela não consegue voar. Além dos muros existem pipas verdadeiras no céu, algumas delas derrubadas pelos soldados que vigiam a prisão. O filme não precisa interromper a narrativa para explicar o significado da cena. Basta colocar uma criança, um desenho e um muro dentro do mesmo espaço.

Nur Sürer interpreta İnci sem transformar a personagem em símbolo político. Sua relação com Barış é construída por gestos cotidianos, enquanto Ozan Bilen oferece ao menino a naturalidade necessária para que vejamos aquele universo através de alguém que percebe suas consequências sem compreender inteiramente suas causas.

O filme recebeu importantes prêmios na Turquia, incluindo Melhor Filme, Melhor Atriz, Melhor Roteiro e Melhor Fotografia no Festival de Antalya, e representou o país na disputa pelo Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Décadas depois, voltou a circular internacionalmente e hoje pode ser descoberto por novos espectadores.

Uçurtmayı Vurmasınlar mostra como o cinema pode falar de um período político através daquilo que ele provoca na vida das pessoas. Em vez de transformar a História em discurso, Başaran a observa através de uma amizade.

E faz de uma simples pipa uma imagem difícil de esquecer.

Quer ir além da descoberta?

No Crítica Livre de Cinema, a análise completa investiga como o filme transforma infância, prisão e liberdade em linguagem cinematográfica e aprofunda o significado da relação entre Barış e İnci.