FILMOTECA - Revista de Cinema: Pág. 15
Consagrados Pelo Tempo no PRIME VIDEO
O catálogo de uma plataforma de streaming costuma nos
empurrar para o presente. Lançamentos ocupam as primeiras posições, novidades
recebem destaque e filmes recém-adicionados disputam nossa atenção. Mas existe
outra maneira de percorrer o Prime Video: ignorar por alguns minutos aquilo que
acabou de chegar e procurar obras que já tiveram décadas para demonstrar sua
capacidade de permanecer.
Foi esse o critério deste Vale o Play. Os sete filmes
selecionados foram realizados entre 1957 e 1990. O mais antigo se aproxima dos
setenta anos; o mais recente já ultrapassou três décadas. Não pertencem ao
mesmo gênero, não foram realizados pela mesma geração de cineastas e nem
representam uma única tradição cinematográfica. O que possuem em comum é algo
que nenhuma campanha de lançamento consegue fabricar: sobreviveram ao tempo.
Testemunha de Acusação (1957), de Billy Wilder, é um
ótimo exemplo. Adaptando Agatha Christie, Wilder constrói um tribunal no qual
cada depoimento modifica aquilo que acreditávamos saber. É um filme sustentado
por roteiro, interpretação e controle rigoroso da informação, elementos
suficientes para que seu jogo com o espectador continue funcionando quase sete
décadas depois.
Em Fugindo do Inferno (1963), John Sturges transforma
a tentativa de fuga de prisioneiros aliados de um campo alemão durante a
Segunda Guerra Mundial em quase três horas de aventura conduzidas por
planejamento, tensão e personagens memoráveis. Steve McQueen tornou-se uma das imagens
mais reconhecíveis do filme, mas sua permanência depende também da maneira como
Sturges administra um grande elenco e faz de cada etapa da fuga uma pequena
conquista narrativa.
A seleção avança para os anos 1970 com dois filmes muito
diferentes. O Sequestro do Metrô (1974), de Joseph Sargent, parte de uma
ideia simples, criminosos sequestram um trem do metrô de Nova York, e constrói
um thriller seco, ágil e surpreendentemente moderno.
Dois anos depois, Brian De
Palma faria de Carrie, a Estranha (1976) muito mais do que uma adaptação
de Stephen King. O terror adolescente se encontra com melodrama, crueldade
social e experimentação visual em um filme cuja sequência do baile entrou
definitivamente para a iconografia do gênero.
Os anos 1980 aparecem através de dois trabalhos ainda mais
associados à ideia de autoria. Em Touro Indomável (1980), Martin
Scorsese filma a trajetória do boxeador Jake LaMotta sem transformá-la em uma
história convencional de superação. O ringue é também território psicológico, e
a fotografia em preto e branco, a montagem de Thelma Schoonmaker e a
interpretação de Robert De Niro ajudam a explicar por que o filme continua
sendo uma referência incontornável do cinema americano.
Brian De Palma retorna em Um Tiro na Noite (1981),
talvez um dos filmes desta seleção que mais recompense quem gosta de observar
como o cinema é construído. John Travolta interpreta um técnico de som que, ao
registrar ruídos para um filme, grava acidentalmente aquilo que pode ser a
evidência de um assassinato. A partir daí, som, imagem, montagem e investigação
tornam-se partes do mesmo mecanismo. O suspense não está apenas na história:
está na própria linguagem cinematográfica.
Finalmente, O Reverso da Fortuna (1990), de Barbet
Schroeder, transforma um célebre caso criminal envolvendo Claus von Bülow em um
jogo sobre verdade, aparência e interpretação. Jeremy Irons recebeu o Oscar
pelo papel de um homem acusado de tentar assassinar a esposa, mas o filme evita
oferecer ao espectador a segurança de uma resposta definitiva. O interesse está
justamente no espaço incômodo entre aquilo que pode ser demonstrado e aquilo em
que escolhemos acreditar.
Vistos em conjunto, esses sete filmes lembram que
desenvolver repertório não significa apenas procurar obras obscuras ou
cinematografias desconhecidas. Também significa retornar aos filmes que
continuam circulando depois que seu momento histórico terminou e descobrir por
que ainda circulam. Alguns sobreviveram pela força de seus personagens, outros
pela precisão narrativa, pela invenção formal ou pela influência exercida sobre
tudo aquilo que veio depois.
O Prime Video oferece atualmente essa pequena viagem
por mais de três décadas da história do cinema. Entre Billy Wilder e Barbet
Schroeder, passando por John Sturges, Joseph Sargent, Brian De Palma e Martin
Scorsese, são sete oportunidades de colocar uma pergunta muito simples à prova:
o que faz um filme continuar vivo quando o tempo que o produziu já ficou
para trás?
Talvez a melhor resposta seja assistir.