Mitos do Cinema

Entre o que aconteceu e o que o cinema transformou em lenda



A história do cinema não foi construída apenas pelos filmes. Ao redor deles existe uma segunda história, menos visível e muitas vezes mais difícil de reconstruir, formada por relatos de bastidores, lembranças de atores e diretores, entrevistas concedidas décadas depois das filmagens, biografias, campanhas publicitárias, documentos de produção e episódios repetidos tantas vezes que acabaram incorporados à memória coletiva do cinema. Algumas dessas histórias são verdadeiras, outras nasceram de acontecimentos reais que foram progressivamente modificados e há ainda aquelas para as quais nunca existiu evidência suficiente, embora isso não tenha impedido que atravessassem gerações como fatos estabelecidos.

É nesse território que nasce MITOS DO CINEMA, nova seção da Biblioteca da Filmoteca, dedicada a investigar histórias que parecem tão conhecidas que quase nunca pensamos em perguntar de onde vieram ou quais evidências realmente as sustentam. Em vez de partir do pressuposto de que um mito necessariamente esconde uma mentira, a proposta será acompanhar o caminho percorrido por essas narrativas, confrontando aquilo que costuma ser contado com documentos, testemunhos e pesquisas capazes de nos aproximar do que efetivamente aconteceu.

A distinção é importante porque os mitos cinematográficos raramente surgem do nada. Muitas vezes existe um acontecimento verdadeiro em sua origem, mas a passagem do tempo elimina nuances, simplifica relações complexas e transforma versões particulares em certezas. Uma declaração feita muitos anos depois pode ganhar o mesmo peso de um documento produzido durante uma filmagem; uma campanha publicitária pode continuar sendo repetida depois que sua função promocional foi esquecida; uma lembrança pessoal pode entrar em conflito com a de outra pessoa que presenciou o mesmo acontecimento. A própria necessidade humana de transformar histórias complexas em narrativas compreensíveis contribui para que algumas versões sobrevivam melhor do que outras.

Por isso, MITOS DO CINEMA não será uma seção dedicada a destruir lendas, mas a investigá-las.

Cada episódio partirá de uma afirmação conhecida e tentará reconstruir sua história. Sempre que possível, documentos e registros contemporâneos aos acontecimentos terão prioridade, seguidos por entrevistas, depoimentos dos envolvidos, biografias documentadas, estudos acadêmicos e pesquisas posteriores. A repetição de uma história poderá demonstrar que determinado mito se tornou popular, mas nunca será suficiente, por si só, para demonstrar que ele é verdadeiro.

A investigação também não começará com um veredito previamente escolhido. Algumas histórias poderão ser classificadas como falsas, quando as evidências disponíveis as contradisserem; outras serão consideradas exageradas, quando encontrarmos um acontecimento verdadeiro posteriormente ampliado ou modificado. Haverá casos não comprovados, nos quais as fontes disponíveis não permitirão chegar a uma conclusão segura, e também histórias confirmadas, quando aquilo que durante décadas foi tratado como lenda encontrar sustentação consistente na documentação.

O veredito, entretanto, será apenas uma parte de cada episódio, porque uma seção da Filmoteca não poderia se limitar a descobrir quem disse a verdade em determinada disputa de bastidores. O mito será sempre uma porta de entrada para uma questão cinematográfica maior.

O relacionamento entre Katharine Hepburn e Spencer Tracy, por exemplo, não interessa apenas como uma história amorosa envolvendo duas estrelas. Os dois fizeram nove filmes juntos, e a associação entre suas personagens, suas personas públicas e aquilo que supostamente acontecia fora das telas participou da construção de uma das parcerias mais famosas de Hollywood. Investigar esse relacionamento significa também observar o funcionamento do star system, a administração pública da vida privada das estrelas e a maneira como aquilo que sabemos sobre os atores modifica nossa percepção dos personagens que interpretam.

Algo semelhante acontece quando chegamos a Stanley Kubrick e Kirk Douglas. As divergências ocorridas durante Spartacus fazem parte da história do filme, mas a imagem posteriormente construída de um Kubrick praticamente impedido de exercer sua autoria por um produtor e estrela poderoso pode esconder uma relação profissional consideravelmente mais complexa. Descobrir o que aconteceu entre os dois permite discutir algo maior do que uma briga de bastidores: quem exerce efetivamente a autoria de um filme realizado dentro de uma estrutura industrial na qual diferentes pessoas controlam roteiro, orçamento, montagem e decisões de produção?

Essa relação entre mito e cinema estará presente em toda a primeira série de investigações, composta por quinze histórias que atravessam diferentes períodos da história cinematográfica.

Voltaremos a O Mágico de Oz para examinar uma das lendas visuais mais persistentes do cinema, segundo a qual seria possível enxergar uma pessoa enforcada ao fundo de uma cena. Mais do que identificar aquilo que realmente aparece na imagem, será interessante compreender como uma interpretação desse tipo conseguiu sobreviver durante décadas e ganhou nova força quando espectadores passaram a rever filmes repetidamente em VHS e, posteriormente, a compartilhar ampliações e versões da cena pela internet.

Em O Iluminado, a investigação será consideravelmente mais complexa. A dificuldade enfrentada por Shelley Duvall durante a produção é amplamente documentada, assim como a intensidade do método de trabalho de Stanley Kubrick. O que precisará ser examinado é a distância entre esses acontecimentos e a narrativa, hoje muito difundida, segundo a qual o diretor teria deliberadamente submetido a atriz a um processo de sofrimento psicológico para obter sua atuação. A questão ultrapassa o caso individual e toca numa concepção de autoria que durante muito tempo ajudou a romantizar comportamentos extremos em nome da criação artística.

A famosa sequência do chestburster em Alien oferece outro tipo de transformação. Tornou-se comum afirmar que os atores não sabiam o que aconteceria quando a criatura emergisse do corpo de John Hurt, embora existam diferenças importantes entre desconhecer a existência da cena e desconhecer detalhes de sua execução. Descobrir como essa distinção desapareceu ao longo dos anos poderá mostrar como uma reação parcialmente autêntica pode se transformar numa história muito mais espetacular sobre improvisação e surpresa.

Também investigaremos a lendária rivalidade entre Bette Davis e Joan Crawford durante O Que Terá Acontecido a Baby Jane?, procurando separar uma animosidade real, construída ao longo de muitos anos, da imagem posterior de duas atrizes que teriam passado toda a produção tentando sabotar uma à outra. Nesse caso, a própria posteridade do filme parece ter se beneficiado da fusão entre personagens e intérpretes, fazendo com que a violência da ficção contaminasse a memória de sua realização.

A construção da imagem das estrelas aparecerá novamente em duas investigações diferentes. Uma delas acompanhará Hepburn e Tracy; outra partirá de Audrey Hepburn e da ideia, repetida em inúmeras narrativas sobre sua carreira, de que praticamente todos os homens que contracenavam com ela acabavam apaixonados. Alguns relacionamentos estão documentados, outros parecem ter sido marcados por amizade, admiração ou relações estritamente profissionais, e essa diferença poderá revelar como o encanto associado à atriz acabou transformado em parte de sua persona cinematográfica.

A fabricação da imagem pública também estará no centro do episódio que aproximará Steve McQueen de Tom Cruise. Ambos se tornaram associados à ideia do astro que realiza pessoalmente suas cenas perigosas, embora grandes produções de ação dependam de equipes especializadas, coordenadores, dublês e recursos técnicos que raramente recebem a mesma atenção promocional concedida à estrela. A investigação não pretende diminuir as proezas efetivamente realizadas por esses atores, mas compreender onde termina o feito real e onde começa a construção de uma imagem de autenticidade física utilizada pelo próprio cinema como instrumento de divulgação.

Outros episódios entrarão diretamente no caos das produções. Em Casino Royale, procuraremos determinar quanto da desordem que marcou o filme de 1967 pode realmente ser atribuída à rivalidade entre Peter Sellers e Orson Welles e quanto resulta de uma estrutura de produção que já acumulava problemas muito maiores. Em Apocalypse Now, a questão será ainda mais ampla, porque os enormes problemas enfrentados por Francis Ford Coppola são abundantemente documentados. O que permanece aberto à investigação é a imagem do cineasta que teria perdido completamente o controle do filme e de si próprio enquanto arriscava seu patrimônio numa produção cada vez mais imprevisível. Talvez a realidade revele algo mais complexo: um diretor tentando exercer controle absoluto justamente quando as circunstâncias tornavam esse controle quase impossível.

Em Tubarão, partiremos da conhecida história do tubarão mecânico que não funcionava e teria obrigado Steven Spielberg a mostrar menos a criatura, levando-o quase acidentalmente a descobrir a linguagem de suspense que transformou o filme num clássico. Os problemas técnicos realmente existiram, mas será necessário descobrir até que ponto eles explicam as escolhas de direção e quanto dessa relação causal foi simplificado depois do enorme sucesso do filme.

Psicose permitirá um formato diferente, porque a cena do chuveiro acumulou tantas histórias ao longo das décadas que uma única investigação talvez fosse insuficiente. Três dos mitos mais conhecidos serão confrontados com a documentação disponível, permitindo observar como uma sequência de poucos minutos conseguiu produzir uma mitologia de bastidores quase tão extensa quanto sua influência sobre a história do cinema.

Em Fargo, a própria obra será responsável por iniciar a confusão ao anunciar que os acontecimentos mostrados são baseados numa história verdadeira. A investigação permitirá compreender por que Joel e Ethan Coen decidiram utilizar essa afirmação e o que acontece com nossa relação com uma narrativa quando acreditamos que aquilo que vemos realmente ocorreu. Aqui, o mito deixa de ser apenas consequência da recepção e passa a integrar deliberadamente a estratégia do filme.

Algo semelhante, embora em escala muito diferente, aconteceu com A Bruxa de Blair. O filme não inventou o conceito de found footage, que já possuía antecedentes importantes, mas foi responsável por apresentá-lo a uma audiência de massa num momento em que a internet começava a transformar a circulação de informações. A campanha construiu uma narrativa sobre o desaparecimento dos três jovens e explorou a possibilidade de que aquelas imagens fossem registros efetivamente encontrados depois dos acontecimentos. A investigação procurará descobrir quanto dessa história foi realmente acreditado pelo público e quanto foi posteriormente ampliado pelo próprio sucesso do filme.

Nesse caso, há ainda uma dimensão econômica particularmente reveladora. A aparência precária das imagens, os atores desconhecidos, a câmera instável e a ausência de grandes efeitos não eram obstáculos a serem escondidos, porque ajudavam a produzir justamente a sensação de autenticidade da qual o filme dependia. Uma produção realizada com recursos extraordinariamente reduzidos acabou alcançando uma bilheteria mundial próxima de 250 milhões de dólares, embora seja necessário distinguir cuidadosamente custo de filmagem, investimento final, bilheteria e lucro. O fenômeno permite observar como linguagem, marketing, tecnologia e economia podem se encontrar de maneira quase perfeita num determinado momento da história do cinema.

Talvez nenhuma das investigações previstas, entretanto, exija tanta precisão quanto Último Tango em Paris. Ao longo dos anos, duas afirmações diferentes acabaram frequentemente misturadas: aquilo que Maria Schneider efetivamente viveu durante a filmagem da famosa cena com Marlon Brando e a versão posterior segundo a qual teria ocorrido uma agressão sexual real diante das câmeras. Os depoimentos da atriz e as próprias declarações de Bernardo Bertolucci permitem estabelecer distinções fundamentais entre o que foi simulado, aquilo que Schneider sabia que seria filmado e elementos deliberadamente ocultados dela para provocar uma reação emocional autêntica. Nesse caso, corrigir uma versão incorreta não poderá significar minimizar aquilo que realmente aconteceu. Ao contrário, a investigação poderá revelar uma discussão muito mais importante sobre poder, consentimento e os limites da autoridade de um diretor sobre seus intérpretes.

Essas quinze histórias possuem origens muito diferentes, mas compartilham uma característica: todas mostram como a memória do cinema continua sendo escrita depois que as filmagens terminam. Entrevistas acrescentam detalhes, autobiografias reorganizam acontecimentos, campanhas publicitárias sobrevivem àquilo que pretendiam divulgar, novas gerações reinterpretam imagens antigas e a internet acelera a circulação de versões que muitas vezes já perderam qualquer relação clara com sua fonte original.

Em alguns casos, essas histórias acabam modificando a própria experiência de assistir aos filmes. Depois que alguém nos fala sobre o suposto enforcamento em O Mágico de Oz, nossos olhos passam a procurar alguma coisa ao fundo daquela imagem. Conhecer os relatos sobre Shelley Duvall inevitavelmente interfere na maneira como observamos Wendy em O Iluminado. Saber o que aconteceu nas Filipinas durante a produção de Apocalypse Now torna difícil acompanhar a viagem de Willard sem estabelecer relações entre a progressiva desintegração daquele mundo ficcional e as dificuldades enfrentadas pela própria equipe que tentava construí-lo.

Talvez seja justamente por isso que alguns mitos sobrevivam mesmo depois de contestados. Uma boa lenda não apenas explica um acontecimento; ela organiza o passado numa história que parece fazer sentido. O diretor obsessivo produz uma obra obsessiva, atores que se odeiam interpretam personagens que se odeiam, um filme caótico nasce de uma produção caótica e uma obra que parece verdadeira convence espectadores porque eles acreditaram que realmente fosse.

A história do cinema, porém, costuma ser mais contraditória do que essas narrativas permitem.

É nessa distância entre aquilo que aconteceu e aquilo que aprendemos a contar que MITOS DO CINEMA pretende trabalhar. Alguns mitos provavelmente não resistirão ao confronto com as evidências, enquanto outros conservarão um núcleo importante de verdade e talvez existam casos em que a investigação confirme quase integralmente aquilo que sempre ouvimos. O resultado não será conhecido antecipadamente, porque a proposta da seção não é fazer a realidade caber num veredito previamente escolhido, mas permitir que documentos, testemunhos e contradições conduzam a investigação.

Ao final, talvez descubramos que algumas das grandes histórias de bastidores do cinema nunca aconteceram como imaginávamos. Em outras ocasiões, poderemos chegar a uma conclusão ainda mais interessante: por trás da versão que se tornou lenda havia uma história real muito mais complexa, reveladora e cinematograficamente importante.

MITOS DO CINEMA: entre o que aconteceu e o que o cinema transformou em lenda.