A distinção é importante porque os mitos cinematográficos
raramente surgem do nada. Muitas vezes existe um acontecimento verdadeiro em
sua origem, mas a passagem do tempo elimina nuances, simplifica relações
complexas e transforma versões particulares em certezas. Uma declaração feita
muitos anos depois pode ganhar o mesmo peso de um documento produzido durante
uma filmagem; uma campanha publicitária pode continuar sendo repetida depois
que sua função promocional foi esquecida; uma lembrança pessoal pode entrar em
conflito com a de outra pessoa que presenciou o mesmo acontecimento. A própria
necessidade humana de transformar histórias complexas em narrativas
compreensíveis contribui para que algumas versões sobrevivam melhor do que
outras.
Por isso, MITOS DO CINEMA não será uma seção dedicada a
destruir lendas, mas a investigá-las.
A investigação também não começará com um veredito
previamente escolhido. Algumas histórias poderão ser classificadas como falsas,
quando as evidências disponíveis as contradisserem; outras serão consideradas exageradas,
quando encontrarmos um acontecimento verdadeiro posteriormente ampliado ou
modificado. Haverá casos não comprovados, nos quais as fontes
disponíveis não permitirão chegar a uma conclusão segura, e também histórias confirmadas,
quando aquilo que durante décadas foi tratado como lenda encontrar sustentação
consistente na documentação.
O veredito, entretanto, será apenas uma parte de cada
episódio, porque uma seção da Filmoteca não poderia se limitar a descobrir quem
disse a verdade em determinada disputa de bastidores. O mito será sempre uma
porta de entrada para uma questão cinematográfica maior.
Algo semelhante acontece quando chegamos a Stanley Kubrick e
Kirk Douglas. As divergências ocorridas durante Spartacus fazem parte da
história do filme, mas a imagem posteriormente construída de um Kubrick
praticamente impedido de exercer sua autoria por um produtor e estrela poderoso
pode esconder uma relação profissional consideravelmente mais complexa.
Descobrir o que aconteceu entre os dois permite discutir algo maior do que uma
briga de bastidores: quem exerce efetivamente a autoria de um filme realizado
dentro de uma estrutura industrial na qual diferentes pessoas controlam
roteiro, orçamento, montagem e decisões de produção?
Essa relação entre mito e cinema estará presente em toda a
primeira série de investigações, composta por quinze histórias que atravessam
diferentes períodos da história cinematográfica.
Voltaremos a O Mágico de Oz para examinar uma das
lendas visuais mais persistentes do cinema, segundo a qual seria possível
enxergar uma pessoa enforcada ao fundo de uma cena. Mais do que identificar
aquilo que realmente aparece na imagem, será interessante compreender como uma
interpretação desse tipo conseguiu sobreviver durante décadas e ganhou nova
força quando espectadores passaram a rever filmes repetidamente em VHS e,
posteriormente, a compartilhar ampliações e versões da cena pela internet.
A famosa sequência do chestburster em Alien oferece
outro tipo de transformação. Tornou-se comum afirmar que os atores não sabiam o
que aconteceria quando a criatura emergisse do corpo de John Hurt, embora
existam diferenças importantes entre desconhecer a existência da cena e
desconhecer detalhes de sua execução. Descobrir como essa distinção desapareceu
ao longo dos anos poderá mostrar como uma reação parcialmente autêntica pode se
transformar numa história muito mais espetacular sobre improvisação e surpresa.
Também investigaremos a lendária rivalidade entre Bette
Davis e Joan Crawford durante O Que Terá Acontecido a Baby Jane?,
procurando separar uma animosidade real, construída ao longo de muitos anos, da
imagem posterior de duas atrizes que teriam passado toda a produção tentando
sabotar uma à outra. Nesse caso, a própria posteridade do filme parece ter se
beneficiado da fusão entre personagens e intérpretes, fazendo com que a
violência da ficção contaminasse a memória de sua realização.
A construção da imagem das estrelas aparecerá novamente em
duas investigações diferentes. Uma delas acompanhará Hepburn e Tracy; outra
partirá de Audrey Hepburn e da ideia, repetida em inúmeras narrativas sobre sua
carreira, de que praticamente todos os homens que contracenavam com ela
acabavam apaixonados. Alguns relacionamentos estão documentados, outros parecem
ter sido marcados por amizade, admiração ou relações estritamente
profissionais, e essa diferença poderá revelar como o encanto associado à atriz
acabou transformado em parte de sua persona cinematográfica.
Outros episódios entrarão diretamente no caos das produções.
Em Casino Royale, procuraremos determinar quanto da desordem que marcou
o filme de 1967 pode realmente ser atribuída à rivalidade entre Peter Sellers e
Orson Welles e quanto resulta de uma estrutura de produção que já acumulava
problemas muito maiores. Em Apocalypse Now, a questão será ainda mais
ampla, porque os enormes problemas enfrentados por Francis Ford Coppola são
abundantemente documentados. O que permanece aberto à investigação é a imagem
do cineasta que teria perdido completamente o controle do filme e de si próprio
enquanto arriscava seu patrimônio numa produção cada vez mais imprevisível.
Talvez a realidade revele algo mais complexo: um diretor tentando exercer
controle absoluto justamente quando as circunstâncias tornavam esse controle
quase impossível.
Em Tubarão, partiremos da conhecida história do
tubarão mecânico que não funcionava e teria obrigado Steven Spielberg a mostrar
menos a criatura, levando-o quase acidentalmente a descobrir a linguagem de
suspense que transformou o filme num clássico. Os problemas técnicos realmente
existiram, mas será necessário descobrir até que ponto eles explicam as
escolhas de direção e quanto dessa relação causal foi simplificado depois do
enorme sucesso do filme.
Psicose permitirá um formato diferente, porque a cena do chuveiro acumulou tantas histórias ao longo das décadas que uma única investigação talvez fosse insuficiente. Três dos mitos mais conhecidos serão confrontados com a documentação disponível, permitindo observar como uma sequência de poucos minutos conseguiu produzir uma mitologia de bastidores quase tão extensa quanto sua influência sobre a história do cinema.
Em Fargo, a própria obra será responsável por iniciar
a confusão ao anunciar que os acontecimentos mostrados são baseados numa
história verdadeira. A investigação permitirá compreender por que Joel e Ethan
Coen decidiram utilizar essa afirmação e o que acontece com nossa relação com
uma narrativa quando acreditamos que aquilo que vemos realmente ocorreu. Aqui,
o mito deixa de ser apenas consequência da recepção e passa a integrar
deliberadamente a estratégia do filme.
Algo semelhante, embora em escala muito diferente, aconteceu
com A Bruxa de Blair. O filme não inventou o conceito de found footage,
que já possuía antecedentes importantes, mas foi responsável por apresentá-lo a
uma audiência de massa num momento em que a internet começava a transformar a
circulação de informações. A campanha construiu uma narrativa sobre o
desaparecimento dos três jovens e explorou a possibilidade de que aquelas
imagens fossem registros efetivamente encontrados depois dos acontecimentos. A
investigação procurará descobrir quanto dessa história foi realmente acreditado
pelo público e quanto foi posteriormente ampliado pelo próprio sucesso do
filme.
Nesse caso, há ainda uma dimensão econômica particularmente
reveladora. A aparência precária das imagens, os atores desconhecidos, a câmera
instável e a ausência de grandes efeitos não eram obstáculos a serem
escondidos, porque ajudavam a produzir justamente a sensação de autenticidade
da qual o filme dependia. Uma produção realizada com recursos
extraordinariamente reduzidos acabou alcançando uma bilheteria mundial próxima
de 250 milhões de dólares, embora seja necessário distinguir cuidadosamente
custo de filmagem, investimento final, bilheteria e lucro. O fenômeno permite
observar como linguagem, marketing, tecnologia e economia podem se encontrar de
maneira quase perfeita num determinado momento da história do cinema.
Essas quinze histórias possuem origens muito diferentes, mas
compartilham uma característica: todas mostram como a memória do cinema
continua sendo escrita depois que as filmagens terminam. Entrevistas
acrescentam detalhes, autobiografias reorganizam acontecimentos, campanhas
publicitárias sobrevivem àquilo que pretendiam divulgar, novas gerações
reinterpretam imagens antigas e a internet acelera a circulação de versões que
muitas vezes já perderam qualquer relação clara com sua fonte original.
Em alguns casos, essas histórias acabam modificando a
própria experiência de assistir aos filmes. Depois que alguém nos fala sobre o
suposto enforcamento em O Mágico de Oz, nossos olhos passam a procurar
alguma coisa ao fundo daquela imagem. Conhecer os relatos sobre Shelley Duvall
inevitavelmente interfere na maneira como observamos Wendy em O Iluminado.
Saber o que aconteceu nas Filipinas durante a produção de Apocalypse Now
torna difícil acompanhar a viagem de Willard sem estabelecer relações entre a
progressiva desintegração daquele mundo ficcional e as dificuldades enfrentadas
pela própria equipe que tentava construí-lo.
Talvez seja justamente por isso que alguns mitos sobrevivam
mesmo depois de contestados. Uma boa lenda não apenas explica um acontecimento;
ela organiza o passado numa história que parece fazer sentido. O diretor
obsessivo produz uma obra obsessiva, atores que se odeiam interpretam
personagens que se odeiam, um filme caótico nasce de uma produção caótica e uma
obra que parece verdadeira convence espectadores porque eles acreditaram que
realmente fosse.
A história do cinema, porém, costuma ser mais contraditória
do que essas narrativas permitem.
É nessa distância entre aquilo que aconteceu e aquilo que
aprendemos a contar que MITOS DO CINEMA pretende trabalhar. Alguns mitos
provavelmente não resistirão ao confronto com as evidências, enquanto outros
conservarão um núcleo importante de verdade e talvez existam casos em que a
investigação confirme quase integralmente aquilo que sempre ouvimos. O
resultado não será conhecido antecipadamente, porque a proposta da seção não é
fazer a realidade caber num veredito previamente escolhido, mas permitir que
documentos, testemunhos e contradições conduzam a investigação.
Ao final, talvez descubramos que algumas das grandes
histórias de bastidores do cinema nunca aconteceram como imaginávamos. Em
outras ocasiões, poderemos chegar a uma conclusão ainda mais interessante: por
trás da versão que se tornou lenda havia uma história real muito mais complexa,
reveladora e cinematograficamente importante.
MITOS DO CINEMA: entre o que aconteceu e o que o cinema
transformou em lenda.