FILMOTECA - Revista de Cinema: Pág. 9


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7 ATORES, 1 PERSONAGEM


O MONSTRO QUE O CINEMA NUNCA PAROU DE RECRIAR

Poucos personagens permitem observar tão claramente as transformações do cinema quanto a criatura de Frankenstein. Desde que Mary Shelley publicou seu romance em 1818, cada geração parece encontrar nela alguma coisa diferente: o medo da ciência, a rejeição do diferente, a solidão, a responsabilidade de quem cria uma vida ou, simplesmente, a tragédia de alguém que nasceu sem ter pedido para existir.

No cinema, essa transformação pode ser vista também nos atores que deram corpo à criatura.

BORIS KARLOFF

Frankenstein | 1931

Foi a interpretação que praticamente definiu a imagem popular do personagem. Sob a maquiagem criada por Jack Pierce, Karloff construiu uma criatura enorme e assustadora, mas também vulnerável. Seu monstro fala pouco. São o corpo, o olhar e os gestos que revelam uma existência que parece não compreender inteiramente o mundo em que foi lançada.


LON CHANEY JR.

The Ghost of Frankenstein | 1942

Onze anos depois, Lon Chaney Jr. herdou uma criatura que já havia se tornado um dos grandes ícones do terror. Sua interpretação acentuou o peso físico do personagem. O monstro tornou-se mais rígido, ameaçador e próximo da imagem que passaria a circular durante décadas na cultura popular.



BELA LUGOSI

Frankenstein Meets the Wolf Man | 1943

O ator eternizado como Drácula também vestiu a maquiagem de Frankenstein. Há uma ironia histórica nisso: Lugosi havia recusado o personagem antes do filme de 1931. Quando finalmente o interpretou, encontrou uma criatura já profundamente marcada pela composição de Karloff e pelas convenções construídas pela Universal.

GLENN STRANGE

House of Frankenstein | 1944

Com Glenn Strange, o monstro entrou definitivamente na fase em que os grandes personagens do terror da Universal passaram a compartilhar o mesmo universo. Sua aparência física ajudou a consolidar ainda mais a silhueta monumental da criatura, que começava a se tornar maior do que qualquer filme específico.


CHRISTOPHER LEE

The Curse of Frankenstein | 1957

A Hammer precisava romper com a imagem criada pela Universal. Christopher Lee apresentou então uma criatura mais brutal, ferida e perturbadora. A maquiagem abandonava parte da iconografia clássica e expunha um corpo que parecia literalmente reconstruído. Frankenstein voltava a provocar desconforto.


ROBERT DE NIRO

Mary Shelley's Frankenstein | 1994

Décadas depois, Robert De Niro aproximou novamente a criatura de sua dimensão humana. Seu monstro fala, pensa, aprende e compreende a própria rejeição. A aparência continua assustadora, mas o verdadeiro conflito está na consciência de ter sido criado e depois abandonado. A pergunta deixa de ser apenas "o que é esse monstro?" e passa a ser "quem o transformou em monstro?".

JACOB ELORDI

Frankenstein | 2025

Na versão de Guillermo del Toro, Jacob Elordi leva essa humanização ainda mais longe. A criatura já não é concebida apenas como uma presença destinada a produzir medo. Existe nela inocência, curiosidade, sofrimento e desejo de pertencimento.

Del Toro encontra no romance de Mary Shelley uma história que sempre esteve escondida sob o terror: a relação entre um criador incapaz de assumir plenamente sua criação e um ser condenado a descobrir o mundo através da rejeição.

O PERSONAGEM É O MESMO. O MONSTRO, NÃO.

De Karloff a Elordi, quase um século separa essas interpretações. Nesse intervalo, mudaram a maquiagem, os corpos, a maneira de atuar e até aquilo que esperamos sentir diante da criatura. Em 1931, bastava sua entrada em cena para produzir medo. Aos poucos, o cinema começou a perguntar se aquele ser assustador não merecia também nossa compaixão.

É justamente aí que Frankenstein revela sua extraordinária permanência. Cada época recria a criatura porque cada época pode encontrar nela seus próprios medos. O avanço científico. A manipulação da vida. A responsabilidade sobre aquilo que criamos. A exclusão de quem parece diferente. A necessidade de pertencimento.

Sete atores interpretaram o mesmo personagem. Mas talvez a pergunta mais interessante permaneça aquela que Mary Shelley colocou diante de nós há mais de dois séculos: afinal, quem é o verdadeiro monstro?

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