O MONSTRO QUE O CINEMA NUNCA PAROU DE RECRIAR
Poucos personagens permitem observar tão claramente as
transformações do cinema quanto a criatura de Frankenstein. Desde que Mary
Shelley publicou seu romance em 1818, cada geração parece encontrar nela alguma
coisa diferente: o medo da ciência, a rejeição do diferente, a solidão, a
responsabilidade de quem cria uma vida ou, simplesmente, a tragédia de alguém
que nasceu sem ter pedido para existir.
BORIS KARLOFF
Foi a interpretação que praticamente definiu a imagem
popular do personagem. Sob a maquiagem criada por Jack Pierce, Karloff
construiu uma criatura enorme e assustadora, mas também vulnerável. Seu monstro
fala pouco. São o corpo, o olhar e os gestos que revelam uma existência que
parece não compreender inteiramente o mundo em que foi lançada.
LON CHANEY JR.
The
Ghost of Frankenstein | 1942
Onze anos depois, Lon Chaney Jr. herdou uma criatura que já
havia se tornado um dos grandes ícones do terror. Sua interpretação acentuou o
peso físico do personagem. O monstro tornou-se mais rígido, ameaçador e próximo
da imagem que passaria a circular durante décadas na cultura popular.
BELA LUGOSI
Frankenstein
Meets the Wolf Man | 1943
GLENN STRANGE
House of
Frankenstein | 1944
Com Glenn Strange, o monstro entrou definitivamente na fase
em que os grandes personagens do terror da Universal passaram a compartilhar o
mesmo universo. Sua aparência física ajudou a consolidar ainda mais a silhueta
monumental da criatura, que começava a se tornar maior do que qualquer filme
específico.
CHRISTOPHER LEE
The Curse of Frankenstein | 1957
A Hammer precisava romper com a imagem criada pela
Universal. Christopher Lee apresentou então uma criatura mais brutal, ferida e
perturbadora. A maquiagem abandonava parte da iconografia clássica e expunha um
corpo que parecia literalmente reconstruído. Frankenstein voltava a provocar
desconforto.
ROBERT DE NIRO
Mary
Shelley's Frankenstein | 1994
JACOB ELORDI
Na versão de Guillermo del Toro, Jacob Elordi leva essa
humanização ainda mais longe. A criatura já não é concebida apenas como uma
presença destinada a produzir medo. Existe nela inocência, curiosidade,
sofrimento e desejo de pertencimento.
O PERSONAGEM É O MESMO. O MONSTRO, NÃO.
É justamente aí que Frankenstein revela sua extraordinária permanência. Cada época recria a criatura porque cada época pode encontrar nela seus próprios medos. O avanço científico. A manipulação da vida. A responsabilidade sobre aquilo que criamos. A exclusão de quem parece diferente. A necessidade de pertencimento.
Sete atores interpretaram o mesmo personagem. Mas talvez a pergunta mais interessante permaneça aquela que Mary Shelley colocou diante de nós há mais de dois séculos: afinal, quem é o verdadeiro monstro?
Ensaio aprofundado na BIBLIOTECA