FILMOTECA - Revista de Cinema: Pág. 10


Repertório de Autores

Wong Kar-Wai



Quando o sentimento se transforma em linguagem

Um encontro que acontece tarde demais. Uma pessoa que desaparece antes que outra consiga se aproximar. Um amor que poderia ter existido. Uma música que faz o passado retornar. Nos filmes de Wong Kar-Wai, essas experiências não são apenas temas de uma história. Elas determinam a própria maneira como o cinema se organiza.

Nascido em Xangai, em 1958, e criado em Hong Kong, Wong construiu uma das linguagens mais reconhecíveis do cinema contemporâneo. Seus filmes são frequentemente lembrados pelas cores intensas, pela música, pelos movimentos borrados e pela atmosfera melancólica. Mas a beleza das imagens pode esconder aquilo que realmente torna sua obra singular: a forma está sempre ligada ao que seus personagens sentem.

Desde Conflito Mortal (1988) e Dias Selvagens (1990) (1990), Wong demonstra interesse por personagens que procuram vínculos e parecem incapazes de preservá-los. Nos anos seguintes, essa investigação se torna cada vez mais livre. Amores Expressos (1994) e Anjos Caídos (1995) transformam Hong Kong em um espaço de encontros breves, solidão e movimento. Felizes Juntos (1997) acompanha um relacionamento preso entre separações e recomeços.

Em Amor à Flor da Pele (2000), essa linguagem encontra uma de suas expressões mais conhecidas. A aproximação entre dois vizinhos é construída menos pelo que acontece do que por aquilo que permanece suspenso: olhares, corredores, refeições, encontros e oportunidades que talvez nunca possam se realizar. 2046: Os Segredos do Amor (2004) prolonga essa investigação, fazendo o passado retornar como memória, desejo e ficção.

Por trás dessas histórias existe uma pergunta recorrente: como convivemos com aquilo que já não podemos recuperar?

É por isso que o tempo ocupa uma posição tão importante em seu cinema. Relógios, datas, aniversários, prazos e lembranças aparecem continuamente. Mas Wong não se limita a falar sobre a passagem do tempo. Ele modifica nossa maneira de senti-la.

Movimentos podem ser acelerados, desacelerados ou fragmentados. Imagens parecem dissolver pessoas na multidão. Músicas retornam até se tornarem lembranças. Espelhos, vidros, portas e corredores separam a câmera dos personagens, como se estivéssemos sempre tentando alcançá-los.

Até Hong Kong participa dessa construção. Seus apartamentos pequenos, restaurantes, ruas movimentadas e passagens estreitas colocam as pessoas fisicamente próximas umas das outras, enquanto seus sentimentos permanecem separados por enormes distâncias.

É nesse ponto que compreender Wong Kar-Wai significa ir além da aparência de seus filmes. Sua contribuição não está simplesmente em criar imagens bonitas. Está em descobrir maneiras de fazer com que imagem, montagem, música, espaço e tempo expressem aquilo que seus personagens não conseguem dizer.

Na Biblioteca da FILMOTECA, o novo capítulo de REPERTÓRIO DE AUTORES percorre sua trajetória, acompanha a evolução de seus temas e de sua linguagem e termina com uma proposta prática: como assistir a Wong Kar-Wai.

Porque conhecer um grande cineasta não significa apenas saber quais filmes ele realizou. Significa aprender a reconhecer como ele pensa o cinema.