Quando o sentimento se transforma em linguagem
Um encontro que acontece tarde demais. Uma pessoa que
desaparece antes que outra consiga se aproximar. Um amor que poderia ter
existido. Uma música que faz o passado retornar. Nos filmes de Wong Kar-Wai,
essas experiências não são apenas temas de uma história. Elas determinam a
própria maneira como o cinema se organiza.
Desde Conflito Mortal (1988) e Dias Selvagens (1990) (1990), Wong demonstra interesse por personagens que procuram vínculos e
parecem incapazes de preservá-los. Nos anos seguintes, essa investigação se
torna cada vez mais livre. Amores Expressos (1994) e Anjos Caídos (1995) transformam Hong Kong em um espaço de encontros breves, solidão e
movimento. Felizes Juntos (1997) acompanha um relacionamento preso entre
separações e recomeços.
Em Amor à Flor da Pele (2000), essa linguagem
encontra uma de suas expressões mais conhecidas. A aproximação entre dois
vizinhos é construída menos pelo que acontece do que por aquilo que permanece
suspenso: olhares, corredores, refeições, encontros e oportunidades que talvez nunca
possam se realizar. 2046: Os Segredos do Amor (2004) prolonga essa investigação, fazendo o
passado retornar como memória, desejo e ficção.
Por trás dessas histórias existe uma pergunta recorrente: como
convivemos com aquilo que já não podemos recuperar?
É por isso que o tempo ocupa uma posição tão importante em
seu cinema. Relógios, datas, aniversários, prazos e lembranças aparecem
continuamente. Mas Wong não se limita a falar sobre a passagem do tempo. Ele
modifica nossa maneira de senti-la.
Movimentos podem ser acelerados, desacelerados ou
fragmentados. Imagens parecem dissolver pessoas na multidão. Músicas retornam
até se tornarem lembranças. Espelhos, vidros, portas e corredores separam a
câmera dos personagens, como se estivéssemos sempre tentando alcançá-los.
Até Hong Kong participa dessa construção. Seus apartamentos
pequenos, restaurantes, ruas movimentadas e passagens estreitas colocam as
pessoas fisicamente próximas umas das outras, enquanto seus sentimentos
permanecem separados por enormes distâncias.
É nesse ponto que compreender Wong Kar-Wai significa ir além
da aparência de seus filmes. Sua contribuição não está simplesmente em criar
imagens bonitas. Está em descobrir maneiras de fazer com que imagem,
montagem, música, espaço e tempo expressem aquilo que seus personagens não
conseguem dizer.
Na Biblioteca da FILMOTECA, o novo capítulo de REPERTÓRIO
DE AUTORES percorre sua trajetória, acompanha a evolução de seus temas e de
sua linguagem e termina com uma proposta prática: como assistir a Wong
Kar-Wai.
Porque conhecer um grande cineasta não significa apenas saber quais filmes ele realizou. Significa aprender a reconhecer como ele pensa o cinema.