Repertório de Autores

Wong Kar-Wai



O cineasta do tempo, da memória e do desencontro

Há diretores que constroem seus filmes principalmente a partir de histórias. Wong Kar-Wai parece partir de outra matéria: sensações.

Um encontro que acontece tarde demais. Uma pessoa que desaparece antes que outra consiga se aproximar. Um amor que poderia ter existido. Uma música que faz o passado retornar. Um corredor, uma rua iluminada por néon, um quarto de hotel ou um restaurante que parecem guardar lembranças de quem passou por eles. É desse universo que nasce um dos cinemas mais reconhecíveis das últimas décadas.

Wong Kar-Wai tornou-se célebre pela beleza de suas imagens, pelas cores intensas, pela música e pela atmosfera melancólica de seus filmes. Mas reduzir sua obra a uma estética seria perder justamente aquilo que a torna importante. Seu estilo visual não funciona como decoração. É uma maneira de transformar sentimentos em cinema.

Talvez essa seja uma boa chave para entrar em sua obra: Wong Kar-Wai filma pessoas tentando alcançar algo que o tempo já começou a levar embora.

QUEM É WONG KAR-WAI?

Wong Kar-Wai nasceu em Xangai, em 1958, e mudou-se com a família para Hong Kong ainda criança. A experiência da migração teria consequências importantes para sua formação. Durante os primeiros anos na nova cidade, acompanhava frequentemente a mãe ao cinema. Ali teve contato com produções de Hong Kong, Taiwan, Hollywood e Europa. Décadas depois, ele se referiria a essas sessões como uma espécie de formação cinematográfica.

Antes de dirigir, trabalhou como roteirista para televisão e cinema. Essa experiência ocorreu durante um período de enorme vitalidade da indústria cinematográfica de Hong Kong, marcada por gêneros populares, produção acelerada e grande circulação de filmes.

Sua estreia na direção, Conflito Mortal (1988), ainda se aproxima do cinema de gângsteres então muito popular. Mas alguns elementos que marcariam sua obra já começam a aparecer: personagens emocionalmente deslocados, relações instáveis, uso expressivo da música e momentos em que a imagem parece abandonar a simples função de registrar a ação.

Dois anos depois, Dias Selvagens (1990) tornaria essa identidade muito mais evidente. O cinema de Wong Kar-Wai começava a encontrar sua própria forma.

UMA FILMOGRAFIA COMO PERCURSO

É possível enxergar sua obra como uma investigação que se torna progressivamente mais livre.

Conflito Mortal parte de uma estrutura de gênero relativamente reconhecível. Em Dias Selvagens, porém, o interesse se desloca cada vez mais para personagens que procuram vínculos e parecem incapazes de permanecer neles.

Nos anos seguintes, Wong radicaliza essa liberdade. Cinzas do Passado (1994) utiliza o universo das artes marciais para falar de memória, perda e arrependimento. No mesmo período, durante uma interrupção da longa produção desse filme, Wong realiza rapidamente Amores Expressos (1994). O resultado é uma obra muito diferente em energia, mas profundamente ligada às mesmas inquietações.

Em Anjos Caídos (1995), Hong Kong torna-se ainda mais fragmentada e noturna. Seus personagens percorrem lanchonetes, apartamentos, túneis e ruas quase sempre tentando estabelecer algum tipo de conexão.

Felizes Juntos (1997) desloca a ação para Buenos Aires. A distância geográfica, entretanto, não elimina as obsessões anteriores. O casal formado por Lai Yiu-fai e Ho Po-wing vive entre separações e recomeços, como se estivesse preso a um relacionamento que não consegue sustentar nem abandonar.

A virada para o novo século produz talvez o ponto de maior concentração de sua linguagem. Amor à Flor da Pele (2000) transforma a aproximação entre dois vizinhos em uma investigação sobre desejo, contenção e passagem do tempo. O que não acontece se torna tão importante quanto aquilo que acontece.

2046: Os Segredos do Amor (2004) prolonga personagens, lembranças e sentimentos de filmes anteriores. O passado retorna transformado em ficção, memória e fantasia.

Mais tarde, O Grande Mestre (2013) parece, à primeira vista, uma mudança de direção. Mas mesmo dentro de uma narrativa ligada às artes marciais e à trajetória de Ip Man, Wong volta aos mesmos territórios: passagem do tempo, separação, oportunidades perdidas e vidas transformadas pela história.

Os gêneros mudam. As perguntas permanecem.

O QUE WONG KAR-WAI PROCURA COMPREENDER?

O amor ocupa o centro de muitos de seus filmes, mas raramente aparece como realização. Seus personagens desejam pessoas que não podem ter, encontram alguém no momento errado ou percebem tarde demais aquilo que poderiam ter vivido. O interesse do diretor está frequentemente no intervalo entre desejo e realização. Por isso, o desencontro é tão importante.

Mas existe outra força atravessando essas relações: o tempo. Datas, relógios, aniversários, prazos e lembranças aparecem continuamente. Em Chungking Express, até latas de abacaxi possuem uma data de validade que ganha significado emocional. Em Amor à Flor da Pele, encontros aparentemente banais começam a adquirir o peso de algo que talvez esteja desaparecendo enquanto acontece. O tempo, em Wong, não é apenas aquilo dentro do qual a história ocorre. Ele interfere nas relações.

Daí nasce outra obsessão: a memória. Se as pessoas desaparecem e os momentos passam, o que permanece? Muitas vezes, uma música, um lugar, um objeto ou uma imagem. Seus personagens parecem cercados por vestígios do passado. E seus filmes frequentemente se comportam da mesma maneira: retornam a situações, repetem gestos e fazem determinados momentos reaparecer.

Por trás das histórias de amor existe, portanto, uma pergunta maior: como convivemos com aquilo que já não podemos recuperar?

COMO WONG KAR-WAI PENSA O CINEMA?

Aqui está o centro de sua obra. Wong Kar-Wai não utiliza a linguagem cinematográfica apenas para contar histórias sobre desejo, memória ou solidão. Ele tenta fazer com que a própria forma do filme produza essas experiências.

Sua maneira de trabalhar contribui para isso. Em várias produções, o filme começou a ser realizado a partir de ideias, situações, imagens e músicas, sem depender de um roteiro convencional inteiramente fechado. A narrativa podia mudar durante as filmagens. Essa abertura ajuda a explicar a sensação de descoberta presente em seus filmes.

A câmera também ocupa uma posição decisiva. Em colaboração com diretores de fotografia como Christopher Doyle e, em outros momentos, Mark Lee Ping-bin, Wong desenvolveu imagens imediatamente reconhecíveis. Reflexos, espelhos, vidros, portas e corredores frequentemente interferem entre a câmera e os personagens. Não estamos simplesmente olhando para alguém. Às vezes parece que estamos tentando alcançá-lo.

A própria cidade participa dessa construção. Hong Kong não funciona apenas como cenário. Ruas apertadas, restaurantes, apartamentos, estações e corredores criam um mundo de proximidade física e distância emocional. As pessoas estão constantemente próximas umas das outras e, paradoxalmente, permanecem sozinhas.

A manipulação da velocidade reforça essa sensação. Técnicas como alterações da velocidade de captação combinadas ao step printing permitem criar movimentos borrados e descontínuos. Em certas sequências, uma personagem permanece perceptível enquanto a multidão ao redor parece dissolver-se em rastros.

O efeito não busca reproduzir realisticamente o tempo. Busca fazê-lo ser sentido.

A montagem segue lógica semelhante. Wong frequentemente prefere fragmentos a explicações completas. Vozes em off revelam pensamentos que os personagens não conseguem comunicar uns aos outros. Situações podem ser interrompidas, repetidas ou deixadas parcialmente abertas.

A música desempenha papel igualmente importante. Canções retornam, às vezes várias vezes, e sua repetição modifica a percepção das cenas. Depois de algum tempo, basta uma música reaparecer para que carregue consigo lembranças de momentos anteriores. Imagem, montagem, música e duração começam assim a trabalhar juntas. O espectador não recebe apenas informações sobre o estado emocional de um personagem. É colocado dentro dele.

UM CINEMA SOBRE AQUILO QUE ESCAPA

É por isso que Wong Kar-Wai ocupa um lugar tão particular no cinema contemporâneo. Muitos cineastas filmaram amores impossíveis, solidão ou nostalgia. Sua contribuição está na maneira como encontrou formas cinematográficas capazes de transformar essas experiências em percepção.

Seus personagens tentam preservar momentos que inevitavelmente desaparecerão. Seus filmes fazem algo parecido. Eles repetem músicas, retornam a lugares, retardam instantes, guardam rostos, fragmentam lembranças. Como se o cinema pudesse conservar por alguns segundos aquilo que a vida não consegue reter.

Talvez por isso Wong tenha influenciado tantos realizadores posteriores. Sua obra demonstrou que uma história de amor pode ser construída tanto pelo que não é dito quanto pelo diálogo, que uma cidade pode expressar estados interiores e que o tempo cinematográfico não precisa simplesmente avançar. Ele pode hesitar, repetir, acelerar, desacelerar e lembrar.

COMO ASSISTIR A WONG KAR-WAI

Antes de dar o play

Talvez a melhor preparação seja abandonar a expectativa de que todas as informações serão organizadas imediatamente. Nos filmes de Wong Kar-Wai, compreender quem fez o quê pode ser menos importante do que perceber como determinada relação está mudando.

Não é necessário decifrar previamente sua linguagem. Basta aceitar que a experiência pode chegar primeiro pela sensação e somente depois pela explicação. Para quem ainda não conhece sua obra, Chungking Express oferece uma entrada especialmente acessível. A partir dele, Amor à Flor da Pele permite perceber como elementos semelhantes podem adquirir uma forma muito mais contida.

Durante o filme

Observe as distâncias. Quem está próximo de quem? O que existe entre os personagens e a câmera? Uma porta? Um vidro? Um espelho? Outras pessoas?

Observe também quando o filme altera nossa percepção do tempo. Há momentos acelerados, desacelerados ou repetidos? O que acontece com sua percepção da personagem quando isso ocorre?

Escute a música. Quando uma canção retorna, tente lembrar em que situação ela apareceu anteriormente. Talvez ela esteja começando a funcionar como memória.

E procure aquilo que não acontece. Uma conversa interrompida, um encontro adiado, uma frase que não é dita ou um gesto que não se completa podem carregar mais peso do que acontecimentos aparentemente maiores.

Depois dos créditos

Em vez de perguntar apenas “o que aconteceu?”, experimente formular outra pergunta: o que ficou? Uma imagem? Uma música? Um sentimento? Um lugar? Um momento que poderia ter acontecido de outra maneira?

Depois pense nos personagens. Eles perderam alguém ou perderam uma possibilidade? O passado terminou ou continua determinando suas vidas?

E, finalmente, observe sua própria experiência. Talvez você descubra que não consegue explicar completamente por que determinada sequência o afetou. Isso não significa que algo tenha faltado. Pode significar justamente que Wong Kar-Wai conseguiu fazer aquilo que seu cinema procura desde o início: transformar aquilo que é difícil dizer em algo que podemos ver, ouvir e sentir.