Antes dos grandes movimentos e dos grandes autores, houve
um país aprendendo a fazer cinema
Quando as primeiras imagens cinematográficas foram exibidas
no Rio de Janeiro, em 1896, o Brasil estava conhecendo uma invenção que havia
surpreendido o público europeu poucos meses antes. Naquele momento, ninguém
poderia prever que aquela novidade tecnológica daria origem a uma
cinematografia capaz de produzir movimentos como o Cinema Novo, revelar autores
reconhecidos internacionalmente e transformar tantas vezes a maneira de
representar o país.
As filmagens realizadas nos primeiros anos estavam muito próximas do registro documental. Paisagens, cerimônias, acontecimentos políticos e cenas do cotidiano eram suficientes para despertar a curiosidade de um público que ainda se impressionava com a possibilidade de ver o movimento reproduzido em uma tela. As imagens da entrada da Baía de Guanabara realizadas por Afonso Segreto, em 1898, tornaram-se o marco simbólico desse nascimento, embora historiadores tenham posteriormente relativizado a ideia de que tenham sido necessariamente as primeiras filmagens feitas no país.
A mudança começou a ganhar velocidade na primeira década do
século XX. Com a expansão da eletricidade e a abertura de salas permanentes,
especialmente no Rio de Janeiro, o cinema deixou de ser apenas uma atração
ocasional e começou a conquistar um público regular. Entre aproximadamente 1907
e 1911, período conhecido como Bela Época do cinema brasileiro, a
produção nacional cresceu e descobriu que as próprias histórias do país podiam
alimentar as telas.
Crimes que dominavam os jornais eram reconstituídos,
acontecimentos conhecidos ganhavam versões cinematográficas e comédias, dramas
e filmes cantantes aproximavam o novo espetáculo dos interesses populares. Pela
primeira vez, começava a existir uma relação mais direta entre aquilo que
acontecia no Brasil e aquilo que os brasileiros encontravam no cinema.
O crescimento, entretanto, não se transformou em uma
indústria sólida. Durante a década de 1910, os Estados Unidos consolidaram uma
poderosa estrutura internacional de produção e distribuição, e os filmes
norte-americanos passaram a ocupar cada vez mais espaço nas salas brasileiras.
Produzir um filme nacional já era difícil; encontrar meios de distribuí-lo e
conseguir espaço para exibi-lo tornou-se um obstáculo ainda maior.
Nascia ali uma questão que acompanharia o cinema brasileiro
durante grande parte de sua história: como construir uma produção nacional
em um mercado fortemente ocupado pelo cinema estrangeiro?
Mesmo sem encontrar uma solução, o cinema continuou sendo
feito. Nos anos 1920, a produção se espalhou por diferentes regiões, com
experiências importantes em lugares como Recife, Campinas e Cataguases. Esses
ciclos regionais funcionavam frequentemente com poucos recursos e estruturas
improvisadas, mas ajudaram a colocar novas paisagens, personagens e realidades
brasileiras diante das câmeras.
Foi em Cataguases que surgiu Humberto Mauro, um dos
nomes decisivos desse primeiro período. Filmes como Braza Dormida (1928)
mostravam que a câmera já não servia apenas para registrar uma história:
enquadramentos, movimentos e montagem começavam a participar de sua construção.
O cinema brasileiro passava a explorar conscientemente sua própria linguagem.
No começo dos anos 1930, essa evolução tornou-se ainda mais
evidente. Limite (1931), de Mário Peixoto, levou montagem, composição
visual e ritmo a uma experiência radical. Dois anos depois, Ganga Bruta (1933),
de Humberto Mauro, confirmou a distância artística percorrida desde os
registros pioneiros do final do século XIX.
Ao mesmo tempo, outra revolução estava em curso. A chegada
do cinema sonoro exigia equipamentos, conhecimentos e investimentos que
tornavam a produção ainda mais complexa, mas também abria uma oportunidade
especialmente importante para o Brasil. A língua, a música popular e os
artistas conhecidos pelo público poderiam finalmente ocupar as telas com suas
próprias vozes. A Voz do Carnaval (1933), de Adhemar Gonzaga e Humberto
Mauro, já apontava para esse novo caminho.
Em apenas 37 anos, portanto, o Brasil havia passado da
descoberta de uma máquina estrangeira às primeiras tentativas de desenvolver
uma linguagem cinematográfica própria. Não havia construído uma indústria
estável e continuava enfrentando enormes dificuldades de financiamento,
distribuição e acesso às salas, mas já possuía realizadores, experiências
regionais e obras de considerável ambição artística.
Muitos dos problemas que acompanhariam o cinema brasileiro
durante as décadas seguintes já estavam presentes. Mas uma transformação
fundamental havia acontecido: o Brasil deixara de ser apenas um lugar onde
filmes eram exibidos.
Começava a ser também um país que fazia cinema.
Na Biblioteca da Filmoteca, o novo ensaio de É DO BRASIL
percorre esse período, de 1896 a 1933, para mostrar como nasceram as primeiras
estruturas, experiências e perguntas que ajudariam a definir a história do
cinema brasileiro.