FILMOTECA - Revista de Cinema: Pág. 12


Ponto de Partida

Branca de Neve: quando a animação provou que podia ser cinema




BRANCA DE NEVE: A APOSTA QUE TRANSFORMOU A ANIMAÇÃO EM UM GRANDE NEGÓCIO DO CINEMA

Quando Branca de Neve e os Sete Anões começou a ser produzido, em 1934, Walt Disney já era um nome importante da animação americana. Mickey Mouse havia conquistado o público, as Silly Symphonies funcionavam como campo de experimentação e o estúdio acumulava avanços técnicos. Ainda assim, transformar um desenho animado em atração principal de uma sessão de cinema parecia uma aposta arriscada.

A animação estava associada sobretudo aos curtas. Funcionava antes dos longas, divertia durante alguns minutos e explorava um universo em que movimentos exagerados, personagens elásticos e situações impossíveis faziam parte do espetáculo. Disney queria descobrir se o público permaneceria mais de uma hora diante daqueles personagens e, principalmente, se conseguiria estabelecer com eles uma relação emocional comparável àquela provocada pelos filmes com atores.

O projeto cresceu rapidamente em ambição e custo. Durante a produção, passou a ser chamado por alguns em Hollywood de “Disney's Folly”, a loucura de Disney. O orçamento aumentava enquanto centenas de artistas trabalhavam para resolver problemas que um longa de animação tornava muito mais complexos. Era necessário desenvolver personagens capazes de expressar emoções convincentes, criar cenários com maior sensação de profundidade e encontrar uma maneira de integrar música, humor, suspense e melodrama dentro de uma narrativa contínua.

O estúdio investiu intensamente no estudo do movimento humano e na animação de personalidade. Os sete anões, por exemplo, não deveriam parecer simples variações de um mesmo personagem. Cada um ganhou comportamento, gestos e movimentos próprios. Ao mesmo tempo, recursos técnicos ajudaram a ampliar a sensação de espaço. A câmera multiplano, aperfeiçoada pelo estúdio naquele período, permitia fotografar diferentes camadas do cenário separadamente e criar movimentos com uma profundidade difícil de obter nos desenhos tradicionais.

Quando Branca de Neve estreou em dezembro de 1937, o risco começou a se transformar em modelo. A recepção foi extraordinária e o sucesso comercial demonstrou que havia público para longas de animação. Disney ganhou condições para expandir seu estúdio e avançar para projetos como Pinóquio, Fantasia, Dumbo e Bambi. A animação havia conquistado definitivamente um novo espaço dentro da indústria.

Uma correção histórica, entretanto, é necessária. Branca de Neve costuma ser chamada de primeira animação em longa-metragem da história, mas outros filmes haviam sido realizados anteriormente. O argentino Quirino Cristiani, por exemplo, dirigiu El Apóstol em 1917, obra hoje perdida. O pioneirismo do filme de Disney está principalmente em ter sido o primeiro longa inteiramente animado em células produzido nos Estados Unidos e em transformar essa experiência em um fenômeno internacional de enorme repercussão.

Quase nove décadas depois, o impacto daquela aposta pode ser medido pela naturalidade com que hoje aceitamos o longa de animação como parte do cinema. Pixar, Studio Ghibli, DreamWorks, produções independentes e inúmeras tradições nacionais trabalham com linguagens muito diferentes daquela desenvolvida por Disney, mas pertencem a um cenário no qual ninguém precisa mais provar que uma história animada pode sustentar um longa.

Na BIBLIOTECA DA FILMOTECA revisitamos Branca de Neve e os Sete Anões para compreender como técnica, narrativa, risco financeiro e ambição artística se encontraram em 1937 e ajudaram a transformar definitivamente o lugar da animação na história do cinema.