FILMOTECA - Revista de Cinema: Pág. 13


Laboratório 3

A câmera como função narrativa



Quando assistimos a um filme, é natural prestar atenção naquilo que acontece diante de nós. Acompanhamos personagens, diálogos, conflitos e acontecimentos, quase sempre sem pensar em uma questão anterior a tudo isso: por que estamos vendo aquela situação exatamente daquela maneira?

O terceiro Laboratório de Leitura do Cinema parte dessa pergunta para desenvolver uma nova competência: perceber que a câmera não apenas registra uma história. Ela também participa da maneira como essa história é narrada.

O objeto de estudo será novamente Janela Indiscreta (1954), de Alfred Hitchcock. A repetição é intencional e ajuda a demonstrar um dos princípios do projeto: um mesmo filme pode ensinar diferentes formas de leitura. No Laboratório 2, observamos como o cinema apresenta seus personagens sem depender das explicações fornecidas pelos diálogos. Agora retornamos ao apartamento de Jeff para investigar outra dimensão da obra.

Imobilizado depois de um acidente, o fotógrafo passa grande parte de seus dias observando os apartamentos do edifício em frente. Seu conhecimento sobre os vizinhos depende daquilo que consegue enxergar pela janela. Quando começa a suspeitar que Lars Thorwald assassinou a esposa, essa limitação deixa de ser apenas uma característica do personagem e passa a determinar nossa própria relação com a história.

Hitchcock frequentemente aproxima aquilo que vemos daquilo que Jeff consegue ver. Observamos alguém olhando, vemos o objeto desse olhar e retornamos ao personagem para acompanhar sua reação. Aos poucos, deixamos de ser apenas espectadores de Jeff e começamos a participar de sua atividade: também procuramos movimentos nas janelas, interpretamos gestos, tentamos relacionar acontecimentos e preencher aquilo que não conseguimos enxergar.

É justamente aí que a câmera começa a revelar sua função narrativa.

O Laboratório 3 não pretende ensinar uma lista de enquadramentos, movimentos ou termos técnicos. A proposta é anterior a isso. Queremos desenvolver o hábito de fazer algumas perguntas diante das imagens: De onde estou vendo? Por que o filme decidiu me colocar aqui? O que consigo enxergar? O que permanece fora do meu alcance?

Janela Indiscreta permite ainda uma descoberta especialmente importante. A câmera não narra somente quando mostra alguma coisa. Paredes escondem acontecimentos, cortinas são fechadas, personagens desaparecem do campo de visão e ações continuam em espaços aos quais não temos acesso. Aquilo que não vemos também interfere em nossa experiência, produzindo curiosidade, dúvida e suspense.

As sequências selecionadas para o laboratório permitem experimentar essas questões diretamente. A abertura do filme ajuda a observar como a câmera apresenta o espaço. As primeiras suspeitas sobre Thorwald mostram como nosso olhar pode ser direcionado para determinados indícios. A entrada de Lisa no apartamento do suspeito permite perceber como a distância pode produzir tensão. E o momento em que Thorwald finalmente olha para Jeff transforma radicalmente a relação entre quem observa e quem é observado.

Como nos laboratórios anteriores, a experiência termina com exercícios de observação e a elaboração do Relatório de Aprendizagem, que poderá ser discutido com o auxílio da inteligência artificial.

Ao final, esperamos que uma pergunta muito simples passe a acompanhar o participante diante de outros filmes:

Quem está olhando?

Quando começamos a perceber que nunca vemos simplesmente o que acontece, mas aquilo que o filme escolheu nos mostrar e da posição que escolheu para nós, começamos também a compreender uma das possibilidades fundamentais da linguagem cinematográfica.


Disponível na Biblioteca da FILMOTECA.