A câmera como função narrativa
Quando assistimos a um filme, é natural prestar atenção
naquilo que acontece diante de nós. Acompanhamos personagens, diálogos,
conflitos e acontecimentos, quase sempre sem pensar em uma questão anterior a
tudo isso: por que estamos vendo aquela situação exatamente daquela maneira?
O terceiro Laboratório de Leitura do Cinema parte dessa
pergunta para desenvolver uma nova competência: perceber que a câmera não
apenas registra uma história. Ela também participa da maneira como essa
história é narrada.
Imobilizado depois de um acidente, o fotógrafo passa grande
parte de seus dias observando os apartamentos do edifício em frente. Seu
conhecimento sobre os vizinhos depende daquilo que consegue enxergar pela
janela. Quando começa a suspeitar que Lars Thorwald assassinou a esposa, essa
limitação deixa de ser apenas uma característica do personagem e passa a
determinar nossa própria relação com a história.
Hitchcock frequentemente aproxima aquilo que vemos daquilo
que Jeff consegue ver. Observamos alguém olhando, vemos o objeto desse olhar e
retornamos ao personagem para acompanhar sua reação. Aos poucos, deixamos de
ser apenas espectadores de Jeff e começamos a participar de sua atividade:
também procuramos movimentos nas janelas, interpretamos gestos, tentamos
relacionar acontecimentos e preencher aquilo que não conseguimos enxergar.
É justamente aí que a câmera começa a revelar sua função
narrativa.
O Laboratório 3 não pretende ensinar uma lista de
enquadramentos, movimentos ou termos técnicos. A proposta é anterior a isso.
Queremos desenvolver o hábito de fazer algumas perguntas diante das imagens: De
onde estou vendo? Por que o filme decidiu me colocar aqui? O que consigo
enxergar? O que permanece fora do meu alcance?
Janela Indiscreta permite ainda uma descoberta
especialmente importante. A câmera não narra somente quando mostra alguma
coisa. Paredes escondem acontecimentos, cortinas são fechadas, personagens
desaparecem do campo de visão e ações continuam em espaços aos quais não temos
acesso. Aquilo que não vemos também interfere em nossa experiência, produzindo
curiosidade, dúvida e suspense.
As sequências selecionadas para o laboratório permitem
experimentar essas questões diretamente. A abertura do filme ajuda a observar
como a câmera apresenta o espaço. As primeiras suspeitas sobre Thorwald mostram
como nosso olhar pode ser direcionado para determinados indícios. A entrada de
Lisa no apartamento do suspeito permite perceber como a distância pode produzir
tensão. E o momento em que Thorwald finalmente olha para Jeff transforma
radicalmente a relação entre quem observa e quem é observado.
Como nos laboratórios anteriores, a experiência termina com
exercícios de observação e a elaboração do Relatório de Aprendizagem, que
poderá ser discutido com o auxílio da inteligência artificial.
Ao final, esperamos que uma pergunta muito simples passe a
acompanhar o participante diante de outros filmes:
Quem está olhando?
Quando começamos a perceber que nunca vemos simplesmente o
que acontece, mas aquilo que o filme escolheu nos mostrar e da posição que
escolheu para nós, começamos também a compreender uma das possibilidades
fundamentais da linguagem cinematográfica.
Disponível na Biblioteca da FILMOTECA.