Michelangelo Antonioni não chegou ao cinema moderno com uma
linguagem pronta. Ao longo dos anos 1950, seus filmes foram progressivamente
abandonando algumas das estruturas narrativas mais convencionais para
concentrar a atenção na fragilidade das relações, nos silêncios, na espera e
nos espaços ocupados pelos personagens. Essa evolução permite dividir seus 15
longas em quatro grandes momentos.
O primeiro, entre 1950 e 1957, é o da formação de
um novo olhar. De Crônica de um Amor a O Grito, Antonioni
parte de narrativas ainda relativamente próximas do melodrama, mas desloca
progressivamente o interesse dos acontecimentos para aquilo que eles provocam
nos personagens. O espaço também começa a deixar de ser apenas cenário para
participar de seus estados emocionais.
Entre 1960 e 1964, acontece a grande transformação. A
Aventura, A Noite, O Eclipse e Deserto Rosso formam a
fase da reinvenção do cinema moderno. A ação perde importância, o tempo
se dilata e ausências, paisagens, arquitetura e silêncios passam a ocupar
posições que o cinema tradicional reservava aos acontecimentos. É o período em
que Antonioni leva mais longe a linguagem que vinha construindo.
A terceira fase, entre 1966 e 1975, leva esse olhar
para fora da Itália. Blow-Up, Zabriskie Point e Profissão:
Repórter ampliam a investigação. A dificuldade dos relacionamentos
permanece, mas passa a conviver mais diretamente com questões sobre imagem,
percepção e identidade.
Finalmente, entre 1980 e 1995, três longas formam um
período de persistência e crepúsculo de uma linguagem. Antonioni
continua experimentando e retorna a temas que atravessaram sua obra, mas agora
ocupa outra posição histórica. O cinema já havia incorporado parte das
transformações que ele próprio ajudara a produzir.
A resposta é uma das constatações mais interessantes do CLC
Balanced Rating de Antonioni: em vários aspectos importantes, a recepção
acompanha essa trajetória.
A correspondência mais evidente aparece justamente no
período decisivo de 1960 a 1964. Os quatro filmes que representam a
transformação mais profunda de sua linguagem também formam o conjunto mais
consistentemente reconhecido de sua filmografia. A Aventura, marco
inicial dessa ruptura, apresenta o maior CLC Score entre os 15 longas
analisados.
A radicalização estética, portanto, não corresponde a um
afastamento da recepção. O momento em que Antonioni mais modifica sua maneira
de fazer cinema coincide com aquele em que alcança seu reconhecimento mais
consistente.
A fase internacional também encontra correspondência nos
dados, embora de maneira menos uniforme. Blow-Up mantém o diretor em
patamar elevado. Zabriskie Point representa uma queda, mas Profissão:
Repórter recupera uma recepção próxima à das obras mais reconhecidas da
fase anterior. Isso impede que a carreira seja descrita como uma simples
sequência de ascensão, auge e declínio.
A mudança de patamar acontece efetivamente na fase final. O
Mistério de Oberwald, Identificação de uma Mulher e Além das
Nuvens ficam todos abaixo da média geral da filmografia analisada. A
importância histórica de Antonioni evidentemente não diminui por causa disso.
Os dados apenas mostram que suas últimas obras já não encontram o mesmo grau de
reconhecimento de seu período central.
Há ainda outra informação interessante na comparação entre
público e crítica. Em vários dos filmes fundamentais, é a crítica que demonstra
entusiasmo maior. Isso acontece de maneira especialmente clara em A Aventura
e Deserto Rosso. Décadas depois, em Identificação de uma Mulher,
a relação se inverte e a avaliação crítica passa a ser inferior à do público.
Talvez esteja aí uma pista importante para compreender toda
a trajetória.
Antonioni ajudou a transformar em linguagem cinematográfica
a espera, o vazio, a incomunicabilidade e a presença dramática dos espaços.
Quando esses elementos apareceram em sua forma mais inovadora, público e,
sobretudo, crítica reconheceram sua força. Quando o diretor voltou a esse
território décadas depois, o próprio cinema já era outro.
O CLC Balanced Rating não utiliza as avaliações para decidir
quais filmes de Antonioni são artisticamente mais importantes. Neste caso, sua
contribuição é diferente: mostrar que a leitura estética e histórica de sua
carreira encontra uma correspondência surpreendentemente clara na maneira como
público e crítica recebem seus filmes.
A história do cinema identifica onde Antonioni construiu,
radicalizou e prolongou sua linguagem. A recepção, em grande medida, reconhece
os mesmos movimentos.
Na Biblioteca da Filmoteca, a análise completa apresenta as
quatro fases da carreira e a tabela com as avaliações de público, crítica e CLC
Score dos 15 longas analisados.