FILMOTECA - Revista de Cinema: Pág. 15

Vale o Play

Sete filmes para aumentar o seu repertório na FILMICCA



Aumentar o repertório cinematográfico não significa apenas assistir a mais filmes. Significa conhecer outros períodos, outras cinematografias, outros autores e, principalmente, descobrir maneiras diferentes de fazer cinema. É nesse sentido que o catálogo da FILMICCA pode ser particularmente interessante para quem deseja ir além dos títulos que normalmente circulam pelas grandes plataformas.

Desta vez, nosso garimpo parte justamente dessa ideia. Em vez de procurar apenas bons filmes escondidos no catálogo, selecionamos sete obras capazes de abrir caminhos. São filmes realizados entre 1951 e 2013, vindos da França, Espanha, Estados Unidos e Coreia do Sul, passando por cineastas consagrados e por nomes que talvez ainda não façam parte do repertório de muitos espectadores.

O primeiro deles é também o filme de maior CLC Score da seleção. Em Um Condenado à Morte Escapou (1956), Robert Bresson transforma a tentativa de fuga de um prisioneiro da Resistência Francesa em uma demonstração radical de economia narrativa. Gestos, objetos e sons substituem boa parte das explicações convencionais. Assistir ao filme é entrar em contato com um cineasta que ajudou a demonstrar quanto o cinema pode expressar retirando, em vez de acrescentar. CLC Score: 9,0.


Com Viver a Vida (1962), chegamos a outro momento decisivo do cinema francês. Jean-Luc Godard organiza a trajetória de Nana, interpretada por Anna Karina, em doze capítulos e utiliza sua história para experimentar enquadramentos, montagem, diálogos e relações entre ficção e realidade. É uma porta de entrada particularmente interessante para a Nouvelle Vague porque ainda existe uma narrativa bastante reconhecível por trás da liberdade formal. CLC Score: 8,3.


Alguns anos depois, O Espírito da Colmeia (1973), de Víctor Erice, mostrou como a própria história do cinema poderia entrar na imaginação de uma personagem. Depois de assistir a Frankenstein, uma menina começa a interpretar aquilo que existe ao seu redor através do filme. Infância, fantasia e as marcas da Espanha franquista convivem em uma obra construída mais pela sugestão do que pela explicação. CLC Score: 8,6.


Adeus, Meninos (1987) transforma memória em cinema. Louis Malle retorna à França ocupada pelos nazistas e a uma experiência de sua própria infância para contar a aproximação entre dois estudantes de um colégio católico. A História está presente o tempo inteiro, mas permanece durante boa parte do filme nas margens do cotidiano das crianças. Quando finalmente invade aquele universo, compreendemos por que determinadas lembranças podem acompanhar alguém por toda a vida. CLC Score: 8,7.

A seleção também permite olhar para Hollywood por um caminho menos óbvio. Cinzas que Queimam (1951), de Nicholas Ray, começa dentro dos códigos do filme policial, mas aos poucos se transforma em um estudo sobre violência, solidão e possibilidade de mudança. Para quem conhece Ray principalmente por Juventude Transviada, é uma oportunidade de ampliar a compreensão de um dos grandes autores do cinema americano clássico. CLC Score: 7,8.



Outro filme de 1951 nos leva a uma história bem diferente. Olivia, de Jacqueline Audry, acompanha uma jovem que chega a um internato feminino e se vê envolvida pelas relações de admiração, desejo e disputa existentes naquele ambiente. Além do próprio filme, há aqui uma descoberta importante de repertório: conhecer uma diretora francesa que construiu sua carreira em uma indústria amplamente dominada por homens e abordou temas pouco comuns no cinema de seu período. CLC Score: 7,1.

Por fim, Han Gong-ju (2013), de Lee Su-jin, desloca a seleção para o cinema sul-coreano contemporâneo. Acompanhando uma jovem que tenta reconstruir a vida depois de uma experiência traumática, o filme revela progressivamente aquilo que aconteceu, evitando transformar sua protagonista apenas no acontecimento que a marcou. É também uma oportunidade de explorar o cinema da Coreia do Sul para além dos diretores e títulos que conquistaram maior circulação internacional. CLC Score: 7,1.

Os sete filmes não formam uma lista dos melhores títulos da FILMICCA. Formam algo talvez mais útil para quem está construindo sua relação com o cinema: sete pontos de partida.

Bresson pode levar a Dreyer e Ozu. Godard abre as portas da Nouvelle Vague. Nicholas Ray pode despertar interesse pelos grandes autores que trabalharam dentro do sistema clássico de Hollywood. Víctor Erice conduz ao cinema espanhol. Jacqueline Audry convida a investigar cineastas que permaneceram durante décadas à margem das histórias mais difundidas do cinema. Louis Malle e Lee Su-jin mostram, em épocas e contextos muito diferentes, como experiências individuais podem revelar forças históricas e sociais muito maiores.

É assim que o repertório cresce. Um filme não termina necessariamente quando aparecem os créditos. Às vezes, ele indica qual pode ser o próximo.