ANTES DE OMAR SHARIF CONQUISTAR O MUNDO
Em 1962, Lawrence da Arábia transformaria Omar Sharif
em um astro internacional. Quase uma década antes, porém, o ator fazia sua
estreia no cinema em um filme egípcio que hoje permanece praticamente
desconhecido de boa parte do público ocidental. Siraa Fil-Wadi (1954),
conhecido internacionalmente como The Blazing Sun, é também uma
oportunidade de descobrir um cinema que raramente ocupa o espaço que merece em
nosso repertório.
No centro dessa narrativa estão Omar Sharif e Faten Hamama.
Para o público brasileiro, o primeiro dispensa apresentações. A segunda talvez
seja justamente uma das descobertas proporcionadas pelo filme. Hamama foi uma
das maiores estrelas da história do cinema egípcio e já possuía uma carreira
consolidada quando contracenou com Sharif. Os dois se casariam no ano seguinte
e formariam um dos casais mais célebres do cinema árabe.
Mas reduzir Siraa Fil-Wadi à curiosidade de mostrar o
primeiro papel de Omar Sharif seria diminuir o que torna o filme especialmente
interessante hoje. Chahine utiliza elementos do melodrama popular, mas os
coloca em contato com questões sociais muito concretas. A paisagem rural não
funciona apenas como cenário para uma história de amor. É também território
econômico, espaço de conflito e expressão de uma sociedade marcada por
profundas diferenças de classe.
Essa combinação ajuda a compreender por que Youssef Chahine
ocupa uma posição tão importante no cinema egípcio. Ao longo de uma carreira
que atravessaria mais de cinco décadas, o diretor construiria uma filmografia
marcada pela capacidade de dialogar com formas populares sem abandonar
inquietações políticas, sociais e pessoais.
É justamente aí que Siraa Fil-Wadi se torna um filme
perfeito para o FORA DO RADAR. Não estamos diante de uma obra
desconhecida porque seu realizador ou seus atores sejam irrelevantes. O
paradoxo é exatamente o contrário. Chahine é um cineasta fundamental. Faten
Hamama é uma figura central do cinema árabe. Omar Sharif se tornaria uma estrela
mundial. Mesmo assim, o filme permanece distante do repertório de grande parte
dos cinéfilos brasileiros.
Talvez seja também um lembrete de como construímos nossa
própria ideia de história do cinema. Conhecemos relativamente bem determinados
períodos do cinema americano, francês, italiano ou japonês, enquanto
cinematografias inteiras permanecem quase invisíveis.
Siraa Fil-Wadi permite começar a corrigir uma pequena
parte dessa lacuna.
E, depois de assistir ao filme, a descoberta pode continuar.
No Crítica Livre de Cinema, publicamos uma análise completa de Siraa
Fil-Wadi, examinando com mais profundidade a construção do melodrama, os
conflitos sociais presentes na narrativa e o lugar do filme na trajetória de
Youssef Chahine.
Assista ao filme. Depois, continue a leitura no Crítica Livre de Cinema.