FILMOTECA - Revista de Cinema: Pág. 16


Fora do Radar

O Sol Ardente (1954) Siraa Fil-Wadi - 1 h 45 min



ANTES DE OMAR SHARIF CONQUISTAR O MUNDO

Em 1962, Lawrence da Arábia transformaria Omar Sharif em um astro internacional. Quase uma década antes, porém, o ator fazia sua estreia no cinema em um filme egípcio que hoje permanece praticamente desconhecido de boa parte do público ocidental. Siraa Fil-Wadi (1954), conhecido internacionalmente como The Blazing Sun, é também uma oportunidade de descobrir um cinema que raramente ocupa o espaço que merece em nosso repertório.

Dirigido por Youssef Chahine, um dos nomes fundamentais da história do cinema árabe, o filme acompanha Ahmed, jovem engenheiro agrícola que retorna à região onde vive sua família e consegue melhorar significativamente a produção de cana-de-açúcar dos pequenos agricultores locais. O avanço, porém, ameaça os interesses de um poderoso proprietário de terras e transforma aquilo que inicialmente poderia parecer apenas um melodrama romântico em uma história atravessada por desigualdade, disputa econômica e relações de poder.

No centro dessa narrativa estão Omar Sharif e Faten Hamama. Para o público brasileiro, o primeiro dispensa apresentações. A segunda talvez seja justamente uma das descobertas proporcionadas pelo filme. Hamama foi uma das maiores estrelas da história do cinema egípcio e já possuía uma carreira consolidada quando contracenou com Sharif. Os dois se casariam no ano seguinte e formariam um dos casais mais célebres do cinema árabe.

Mas reduzir Siraa Fil-Wadi à curiosidade de mostrar o primeiro papel de Omar Sharif seria diminuir o que torna o filme especialmente interessante hoje. Chahine utiliza elementos do melodrama popular, mas os coloca em contato com questões sociais muito concretas. A paisagem rural não funciona apenas como cenário para uma história de amor. É também território econômico, espaço de conflito e expressão de uma sociedade marcada por profundas diferenças de classe.

Essa combinação ajuda a compreender por que Youssef Chahine ocupa uma posição tão importante no cinema egípcio. Ao longo de uma carreira que atravessaria mais de cinco décadas, o diretor construiria uma filmografia marcada pela capacidade de dialogar com formas populares sem abandonar inquietações políticas, sociais e pessoais.

É justamente aí que Siraa Fil-Wadi se torna um filme perfeito para o FORA DO RADAR. Não estamos diante de uma obra desconhecida porque seu realizador ou seus atores sejam irrelevantes. O paradoxo é exatamente o contrário. Chahine é um cineasta fundamental. Faten Hamama é uma figura central do cinema árabe. Omar Sharif se tornaria uma estrela mundial. Mesmo assim, o filme permanece distante do repertório de grande parte dos cinéfilos brasileiros.

Talvez seja também um lembrete de como construímos nossa própria ideia de história do cinema. Conhecemos relativamente bem determinados períodos do cinema americano, francês, italiano ou japonês, enquanto cinematografias inteiras permanecem quase invisíveis.

Siraa Fil-Wadi permite começar a corrigir uma pequena parte dessa lacuna.

E, depois de assistir ao filme, a descoberta pode continuar. No Crítica Livre de Cinema, publicamos uma análise completa de Siraa Fil-Wadi, examinando com mais profundidade a construção do melodrama, os conflitos sociais presentes na narrativa e o lugar do filme na trajetória de Youssef Chahine.

Assista ao filme. Depois, continue a leitura no Crítica Livre de Cinema.