FILMOTECA - Revista de Cinema: Pág. 17


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Sombras da Vida (2017) A Ghost Story - 1 h 32 min



Um homem morre inesperadamente e retorna à casa onde vivia com sua companheira. Não como uma presença assustadora, mas como a representação mais elementar possível de um fantasma: um corpo coberto por um lençol branco, com dois buracos negros no lugar dos olhos. A partir dessa imagem quase infantil, David Lowery constrói em Sombras da Vida (A Ghost Story) uma reflexão sobre luto, memória, passagem do tempo e a dificuldade humana de abandonar aquilo que desapareceu.

A premissa poderia resultar em um drama sobrenatural relativamente convencional. Lowery escolhe justamente o contrário. Quase elimina a narrativa tradicional, reduz os diálogos, prolonga planos muito além do tempo habitual e transforma a espera em parte fundamental da experiência. É nessa escolha que nasce grande parte da controvérsia.

Poucas cenas representam melhor essa proposta do que aquela em que M, interpretada por Rooney Mara, senta-se no chão da cozinha depois da morte do companheiro e começa a comer uma torta. A câmera permanece parada. Não há montagem procurando acelerar a ação nem música indicando ao espectador o que sentir. Durante cerca de cinco minutos, assistimos simplesmente à personagem comer.

Lowery explicou que queria tornar o luto físico e cotidiano, evitando uma representação convencional da dor. A duração, portanto, não é um acidente. O desconforto faz parte da cena.

Mas é justamente aí que os espectadores podem se separar.

Para seus admiradores, Sombras da Vida compreende algo que grande parte do cinema evita: o tempo também pode produzir significado. Permanecer diante daquela mulher durante vários minutos significa experimentar um pouco da duração de sua tristeza. Quando o filme posteriormente altera radicalmente nossa percepção temporal, fazendo anos e décadas desaparecerem diante do fantasma, a lentidão inicial ganha outra função. O tempo humano é longo enquanto estamos sofrendo e insignificante diante daquilo que permanece.

Para seus críticos, porém, existe uma diferença entre contemplação e afetação. Planos extremamente prolongados podem deixar de ampliar uma emoção e começar simplesmente a reiterá-la. A cena da torta se tornou o exemplo mais evidente dessa discussão, sendo interpretada tanto como uma das grandes representações cinematográficas do luto quanto como demonstração de um filme excessivamente consciente de sua própria importância. A divisão foi percebida desde o lançamento.

O mesmo acontece com o fantasma.

Colocar Casey Affleck debaixo de um lençol poderia transformar o filme involuntariamente em comédia. Lowery assume esse risco e recusa qualquer tentativa de tornar a aparição mais sofisticada. O fantasma não possui expressão facial, praticamente não fala e passa grande parte do filme simplesmente observando. O diretor chegou a reduzir deliberadamente seus movimentos para que postura, imobilidade e espera substituíssem a interpretação convencional.

Para alguns espectadores, essa simplicidade transforma uma figura quase caricatural em uma imagem inesperadamente melancólica. Para outros, o conceito permanece mais interessante intelectualmente do que emocionalmente.

Há ainda uma ambição maior. Aos poucos, Sombras da Vida deixa de ser apenas uma história sobre alguém incapaz de superar a perda. A própria escala do filme muda. Pessoas desaparecem, casas mudam, construções surgem, gerações passam. O fantasma permanece. O drama amoroso começa então a se transformar numa reflexão sobre nossa tentativa de deixar marcas em um mundo que continuará existindo sem nós.

É nesse momento que surge outra divisão importante. O filme está alcançando uma dimensão filosófica genuína ou apenas apresentando grandes questões existenciais como se a solenidade fosse suficiente para lhes conferir profundidade?

Lowery reforça formalmente essa sensação de aprisionamento. O formato de imagem quase quadrado, 1.33:1, foi escolhido justamente para intensificar a ideia de um personagem preso dentro de um espaço e de um tempo dos quais não consegue escapar. Até a forma da tela participa, portanto, do conceito.

Talvez seja por isso que Sombras da Vida provoque reações tão diferentes. Quem aceita seu ritmo pode encontrar uma experiência rara sobre aquilo que permanece depois que pessoas, relações e lugares desaparecem. Quem não aceita pode enxergar 92 minutos de uma ideia relativamente simples prolongada além do necessário.

E nenhuma dessas reações é irrelevante para compreender o filme.

Porque a pergunta deixada por Sombras da Vida talvez não seja apenas o que acontece depois da morte. É também uma pergunta cinematográfica:

quanto tempo precisamos permanecer diante de uma imagem para que ela revele algo que um corte mais rápido não conseguiria mostrar?

Ou, no caso de Sombras da Vida, David Lowery permanece olhando por tempo demais?

Uma análise mais aprofundada você encontra no Crítica Livre de Cinema.

CLC SCORE | 7,7

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