FILMOTECA - Revista de Cinema: Pág. 18


CLC Indica

La chimera (2023) - 2 h 10 min



Alice Rohrwacher começa La Chimera com homens procurando objetos enterrados sob a terra. São vasos, fragmentos, peças deixadas pelos etruscos há milhares de anos e que, uma vez encontradas, podem alcançar bom dinheiro no mercado clandestino de antiguidades. Seria possível construir a partir daí um filme sobre arqueologia ilegal, tráfico de patrimônio e exploração econômica do passado. Rohrwacher está interessada em tudo isso, mas percebe algo ainda mais fértil: o que leva alguém a continuar procurando aquilo que já deveria ter sido deixado para trás?

Arthur, interpretado por Josh O’Connor, é um arqueólogo britânico que vive à margem na Itália dos anos 1980. Ele possui uma habilidade quase sobrenatural para localizar tumbas etruscas e se junta a um grupo de tombaroli, saqueadores que escavam clandestinamente sítios arqueológicos em busca de objetos que possam vender. Mas existe uma diferença fundamental entre Arthur e seus companheiros. Enquanto eles procuram tesouros, ele parece procurar outra coisa.

Arthur vive assombrado pela ausência de Beniamina, a mulher que amou. A busca arqueológica passa então a adquirir um significado muito mais íntimo. Quanto mais ele desce à terra para encontrar vestígios de pessoas desaparecidas há séculos, mais o filme sugere que sua verdadeira escavação acontece dentro da própria memória.

É dessa sobreposição entre o material e o imaginário que nasce a singularidade de La Chimera. Rohrwacher mistura realismo, fábula, comédia, romance, crítica social e elementos fantásticos sem estabelecer fronteiras muito claras entre eles. A própria forma do filme parece contaminada pela instabilidade de Arthur. A imagem muda de formato, a velocidade se altera, a narrativa admite desvios e pequenas rupturas. Em determinados momentos, temos a sensação de estar acompanhando uma história concreta. Em outros, parece que entramos em uma lembrança, um sonho ou uma lenda.

Por trás dessa liberdade formal existe também uma questão política. Os tombaroli retiram objetos de sepulturas antigas para introduzi-los no circuito econômico contemporâneo. Aquilo que pertencia aos mortos transforma-se em mercadoria. Museus, colecionadores, intermediários e contrabandistas aparecem como partes de uma cadeia na qual o passado pode ser convertido em dinheiro.

Mas Rohrwacher evita transformar seus personagens em simples instrumentos de uma tese. Os saqueadores são ao mesmo tempo oportunistas, figuras cômicas e homens pobres tentando participar de uma riqueza que existe literalmente sob seus pés, mas que pertence a um mundo ao qual eles não têm acesso. Essa ambiguidade impede que La Chimera se transforme em uma denúncia convencional.

E talvez esteja justamente aí uma das razões de sua força. O filme não procura explicar inteiramente seus símbolos nem organizar seus significados para o espectador. A quimera do título pode ser o objeto impossível de uma busca, uma promessa de felicidade, o desejo de recuperar aquilo que desapareceu ou a incapacidade humana de aceitar definitivamente uma perda.

Arthur procura os mortos porque ainda não conseguiu retornar completamente ao mundo dos vivos.

Com CLC Score 8,2, La Chimera é um daqueles filmes cuja experiência não termina quando a narrativa chega ao fim. Alice Rohrwacher constrói uma obra sobre memória, desejo, morte e pertencimento que parece simples enquanto acompanhamos seus personagens pelas paisagens italianas, mas se torna progressivamente mais difícil de abandonar depois que os créditos aparecem.

Leia a análise mais aprofundada no Crítica Livre de Cinema.