FILMOTECA - Revista de Cinema: Pág. 19


Além dos Filmes

FITZCARRALDO: Quanto pode custar uma grande imagem?



Quando Fitzcarraldo chegou aos cinemas, em 1982, Werner Herzog havia conseguido realizar algo que parecia pertencer mais à história narrada pelo filme do que às possibilidades concretas de uma produção cinematográfica. Para contar a aventura de um homem que pretende transportar um navio por uma montanha amazônica, o diretor decidiu que não recorreria a miniaturas ou efeitos para criar a ilusão. Um navio de aproximadamente 320 toneladas seria realmente deslocado pela encosta.

O resultado ajudou a transformar Fitzcarraldo em uma das obras mais conhecidas de Herzog e produziu uma das imagens emblemáticas do cinema moderno. Também deixou uma pergunta que, mais de quatro décadas depois, parece ainda mais incômoda: até onde um cineasta pode ir em busca da imagem que deseja?

Inspirado livremente na história do empresário peruano Carlos Fermín Fitzcarrald, Herzog criou Brian Sweeney Fitzgerald, vivido por Klaus Kinski, um apaixonado por ópera que sonha construir um teatro em Iquitos e levar Enrico Caruso à Amazônia. Para financiar o projeto, pretende explorar uma região produtora de borracha e concebe uma solução extraordinária para alcançá-la: retirar seu navio do rio e fazê-lo atravessar uma montanha até outro curso d'água. Herzog poderia ter apenas representado essa obsessão. Preferiu reproduzi-la.

A produção enfrentou problemas desde o início. Jason Robards, primeiro ator escolhido para o papel principal, adoeceu depois de meses de filmagem e precisou abandonar o projeto. Mick Jagger, que também participava do filme, deixou a produção por compromissos profissionais. Herzog recomeçou boa parte do trabalho e convocou Kinski, com quem mantinha uma relação profissional tão produtiva quanto conflituosa.

Nada disso, entretanto, se comparava ao desafio central. Transportar uma embarcação de centenas de toneladas por uma encosta, em uma região remota da Amazônia, exigiu uma operação envolvendo máquinas, cabos, trabalhadores e indígenas locais. O documentário Burden of Dreams, de Les Blank, registrou a produção e tornou possível observar aquilo que o filme terminado converte em espetáculo: a dimensão física do empreendimento e os riscos associados à determinação de Herzog.

Houve acidentes, ferimentos, doenças e situações perigosas durante a longa produção, embora nem todos os episódios posteriormente associados à mitologia de Fitzcarraldo tenham relação direta com o transporte do barco. Em determinado momento, o engenheiro responsável pelo sistema utilizado na operação abandonou o projeto após considerar que havia risco de um acidente grave. Herzog decidiu continuar. É justamente essa decisão que impede a história de ser reduzida à celebração de um cineasta obstinado.

Do ponto de vista artístico, sua aposta funcionou. Quando o navio começa a subir a montanha, existe na imagem uma sensação de peso e resistência que nasce do próprio acontecimento registrado pela câmera. O espectador não está apenas sendo convencido de que algo extraordinário aconteceu. Aquilo realmente aconteceu. Mas a força da sequência e o problema ético que ela carrega possuem a mesma origem.

Herzog podia decidir quanto estava disposto a arriscar pela própria obra. Mais controversa era sua capacidade de envolver outras pessoas nesse risco, sobretudo em uma produção realizada em condições extremas e com ampla participação de comunidades indígenas. A imagem pertencia à visão artística do diretor, enquanto o esforço e suas possíveis consequências eram compartilhados por muitos.

O filme foi apresentado no Festival de Cannes de 1982, onde Herzog recebeu o prêmio de Melhor Diretor. A consagração ajudou a fixar a produção como uma espécie de epopeia cinematográfica: o diretor que recusara soluções fáceis, enfrentara sucessivos obstáculos e finalmente conseguira colocar diante da câmera aquilo que parecia impossível.

Durante muito tempo, essa foi a narrativa predominante em torno de Fitzcarraldo. Hoje, sem que a dimensão da conquista artística tenha desaparecido, ela convive com uma leitura mais crítica sobre segurança, condições de trabalho e os limites do poder de um autor sobre aqueles que participam de sua criação. Essa mudança de perspectiva talvez torne o filme ainda mais interessante.

Com os recursos atuais, seria possível construir uma sequência semelhante utilizando efeitos digitais, elementos físicos controlados e composição de imagens, reduzindo drasticamente os riscos. Talvez alguma coisa da extraordinária materialidade alcançada por Herzog se perdesse. Mas admitir essa possibilidade não significa necessariamente concluir que os riscos assumidos em 1982 estavam justificados.

É justamente aí que reside o paradoxo de Fitzcarraldo. Seria fácil condenar a produção se o resultado fosse artisticamente irrelevante. Também seria fácil celebrá-la se a façanha não tivesse colocado pessoas em situações potencialmente perigosas. O filme não oferece nenhuma dessas facilidades.

Herzog conseguiu a imagem que queria. Ela continua impressionante mais de quarenta anos depois e ajudou a transformar Fitzcarraldo em uma referência incontornável quando se fala dos limites da realização cinematográfica. Ao mesmo tempo, conhecer aquilo que aconteceu atrás da câmera impede que contemplemos essa imagem apenas como demonstração de genialidade.

Na seção ALÉM DOS FILMES, disponível na Biblioteca da Filmoteca, revisitamos toda essa história: a origem do projeto, a produção interrompida e reiniciada, a chegada de Klaus Kinski, a operação para transportar o navio, os riscos enfrentados e a transformação da façanha de Herzog em um problema ético que o passar do tempo tornou ainda mais relevante.

Porque, no caso de Fitzcarraldo, talvez a questão mais fascinante esteja justamente fora da tela: quanto pode custar uma grande imagem antes que o preço se torne alto demais?