Quando Fitzcarraldo chegou aos cinemas, em 1982, Werner Herzog havia conseguido realizar algo que parecia pertencer mais à história narrada pelo filme do que às possibilidades concretas de uma produção cinematográfica. Para contar a aventura de um homem que pretende transportar um navio por uma montanha amazônica, o diretor decidiu que não recorreria a miniaturas ou efeitos para criar a ilusão. Um navio de aproximadamente 320 toneladas seria realmente deslocado pela encosta.
O resultado ajudou a transformar Fitzcarraldo em uma das obras mais conhecidas de Herzog e produziu uma das imagens emblemáticas do cinema moderno. Também deixou uma pergunta que, mais de quatro décadas depois, parece ainda mais incômoda: até onde um cineasta pode ir em busca da imagem que deseja?Inspirado livremente na história do empresário peruano Carlos Fermín Fitzcarrald, Herzog criou Brian Sweeney Fitzgerald, vivido por Klaus Kinski, um apaixonado por ópera que sonha construir um teatro em Iquitos e levar Enrico Caruso à Amazônia. Para financiar o projeto, pretende explorar uma região produtora de borracha e concebe uma solução extraordinária para alcançá-la: retirar seu navio do rio e fazê-lo atravessar uma montanha até outro curso d'água. Herzog poderia ter apenas representado essa obsessão. Preferiu reproduzi-la.
A produção enfrentou problemas desde o início. Jason
Robards, primeiro ator escolhido para o papel principal, adoeceu depois de
meses de filmagem e precisou abandonar o projeto. Mick Jagger, que também
participava do filme, deixou a produção por compromissos profissionais. Herzog
recomeçou boa parte do trabalho e convocou Kinski, com quem mantinha uma
relação profissional tão produtiva quanto conflituosa.
Nada disso, entretanto, se comparava ao desafio central.
Transportar uma embarcação de centenas de toneladas por uma encosta, em uma
região remota da Amazônia, exigiu uma operação envolvendo máquinas, cabos,
trabalhadores e indígenas locais. O documentário Burden of Dreams, de
Les Blank, registrou a produção e tornou possível observar aquilo que o filme
terminado converte em espetáculo: a dimensão física do empreendimento e os
riscos associados à determinação de Herzog.
Do ponto de vista artístico, sua aposta funcionou. Quando o navio começa a subir a montanha, existe na imagem uma sensação de peso e resistência que nasce do próprio acontecimento registrado pela câmera. O espectador não está apenas sendo convencido de que algo extraordinário aconteceu. Aquilo realmente aconteceu. Mas a força da sequência e o problema ético que ela carrega possuem a mesma origem.
Herzog podia decidir quanto estava disposto a arriscar pela
própria obra. Mais controversa era sua capacidade de envolver outras pessoas
nesse risco, sobretudo em uma produção realizada em condições extremas e com
ampla participação de comunidades indígenas. A imagem pertencia à visão
artística do diretor, enquanto o esforço e suas possíveis consequências eram
compartilhados por muitos.
O filme foi apresentado no Festival de Cannes de 1982, onde
Herzog recebeu o prêmio de Melhor Diretor. A consagração ajudou a fixar a
produção como uma espécie de epopeia cinematográfica: o diretor que recusara
soluções fáceis, enfrentara sucessivos obstáculos e finalmente conseguira
colocar diante da câmera aquilo que parecia impossível.
Durante muito tempo, essa foi a narrativa predominante em torno de Fitzcarraldo. Hoje, sem que a dimensão da conquista artística tenha desaparecido, ela convive com uma leitura mais crítica sobre segurança, condições de trabalho e os limites do poder de um autor sobre aqueles que participam de sua criação. Essa mudança de perspectiva talvez torne o filme ainda mais interessante.
Com os recursos atuais, seria possível construir uma
sequência semelhante utilizando efeitos digitais, elementos físicos controlados
e composição de imagens, reduzindo drasticamente os riscos. Talvez alguma coisa
da extraordinária materialidade alcançada por Herzog se perdesse. Mas admitir
essa possibilidade não significa necessariamente concluir que os riscos
assumidos em 1982 estavam justificados.
É justamente aí que reside o paradoxo de Fitzcarraldo.
Seria fácil condenar a produção se o resultado fosse artisticamente
irrelevante. Também seria fácil celebrá-la se a façanha não tivesse colocado
pessoas em situações potencialmente perigosas. O filme não oferece nenhuma
dessas facilidades.
Herzog conseguiu a imagem que queria. Ela continua
impressionante mais de quarenta anos depois e ajudou a transformar Fitzcarraldo
em uma referência incontornável quando se fala dos limites da realização
cinematográfica. Ao mesmo tempo, conhecer aquilo que aconteceu atrás da câmera
impede que contemplemos essa imagem apenas como demonstração de genialidade.
Na seção ALÉM DOS FILMES, disponível na Biblioteca da Filmoteca, revisitamos toda essa história: a origem do projeto, a produção
interrompida e reiniciada, a chegada de Klaus Kinski, a operação para
transportar o navio, os riscos enfrentados e a transformação da façanha de Herzog
em um problema ético que o passar do tempo tornou ainda mais relevante.
Porque, no caso de Fitzcarraldo, talvez a questão
mais fascinante esteja justamente fora da tela: quanto pode custar uma
grande imagem antes que o preço se torne alto demais?