FILMOTECA - Revista de Cinema: Pág. 20


 
Cadernos de Debate

Filme: Cléo das 5 às 7 (1962), Dir: Agnès Varda

Data: 16 de agosto de 2026

Debate realizado pelo Clube de Cinema Seu Manolo


O debate sobre Cléo das 5 às 7, de Agnès Varda, começou com uma recepção bastante positiva. Os participantes destacaram a fluidez do filme, a beleza das imagens de Paris, os diálogos, as atuações e a trilha sonora. A abertura com a leitura do tarô chamou especialmente a atenção por introduzir imediatamente a angústia que acompanhará Cléo durante toda a narrativa. Também foi lembrada a passagem das imagens coloridas das cartas para o preto e branco do restante do filme, assim como a divisão em capítulos marcados pelas horas. Apesar da ameaça da doença, o grupo percebeu uma combinação particular de melancolia e leveza, produzida pelas pessoas, encontros e acontecimentos que atravessam aquela tarde.

Um dos primeiros pontos de convergência foi a maneira como nossa percepção de Cléo se transforma ao longo do filme. No início, ela pode parecer superficial, vaidosa, insegura e extremamente supersticiosa. Aos poucos, porém, essa impressão se torna mais complexa. Sua preocupação com a aparência passa a ser entendida também como manifestação de uma mulher que aprendeu a reconhecer o próprio valor através da maneira como é vista pelos outros. Uma participante resumiu essa transformação comparando-a ao processo de conhecer alguém na vida real: a primeira impressão é substituída gradualmente pela descoberta de seus medos e inseguranças.

A frase “Enquanto eu for bonita, estou mais viva do que os outros” tornou-se uma das chaves do debate. Para o grupo, ela sintetiza a relação de Cléo com a própria imagem e também abriu uma discussão sobre as expectativas sociais depositadas sobre as mulheres. Foi observado que, na primeira metade do filme, Cléo parece existir intensamente através do olhar alheio: é admirada por sua beleza, desejada pelo amante, observada pelos homens e tratada pelos músicos também a partir de sua condição de cantora. Sua aparência funciona quase como uma garantia de existência.

Os espelhos foram identificados como um dos recursos mais importantes utilizados por Varda para expressar essa condição. No início, Cléo constantemente procura seu reflexo. Conforme sua transformação avança, essa necessidade diminui. Surgiu no debate uma formulação que sintetizou muito bem essa leitura: ao deixar de procurar continuamente sua imagem, Cléo parece “parar de se assistir viver e passar a simplesmente viver”. A mudança externa, marcada também pela troca de roupa e pelo abandono de alguns elementos de sua aparência, foi entendida como sinal visível de uma transformação interior.

A interpretação de “Sans Toi” apareceu como possível momento de ruptura. O grupo destacou tanto a atuação de Corinne Marchand quanto a maneira como Varda filma a sequência. Durante a canção, Cléo parece confrontar diretamente o abandono, a solidão e a morte que teme. Quando a música termina, alguma coisa se rompe. A personagem deixa o ambiente em que estava cercada por pessoas que determinavam grande parte de sua rotina e parte sozinha para as ruas. A partir daí, sua relação com o mundo começa a mudar.

Essa mudança levou a outro ponto central do debate: Cléo começa o filme querendo ser olhada e termina aprendendo a olhar. Quando passa a caminhar sozinha, observa pessoas, conversas, cafés, ruas e acontecimentos que existem independentemente dela. A ansiedade não desaparece imediatamente, mas deixa de ocupar todo o espaço. A personagem que inicialmente parecia fechada dentro da própria angústia começa a perceber que existe um mundo acontecendo ao seu redor.

A construção do tempo foi outro aspecto bastante discutido. Os capítulos identificados pelos horários fizeram vários participantes sentirem que acompanhavam Cléo quase em tempo real. Surgiu uma comparação particularmente significativa: quando esperamos alguma coisa importante, olhamos repetidamente para o relógio para descobrir quanto tempo ainda falta. Varda transforma essa sensação cotidiana em estrutura narrativa. Curiosamente, apesar dessa atenção constante às horas, vários participantes disseram que o filme passou rapidamente. A espera de Cléo não foi percebida simplesmente como lentidão, mas como experiência compartilhada entre personagem e espectador.

Também houve grande concordância sobre o papel de Paris. Para o grupo, a cidade ultrapassa a condição de cenário e funciona quase como outro personagem. Cléo circula por uma Paris que não interrompe sua rotina diante do drama particular que ela está vivendo. Pessoas passam, trabalham, conversam e olham para ela. Foi destacada a presença concreta das ruas e até de pessoas olhando diretamente para a câmera, aproximando ficção e realidade. A cidade também acompanha a mudança da protagonista: quanto menos Cléo permanece fechada em si mesma, mais Paris parece ganhar vida diante dela.

O encontro com Antoine provocou uma mudança curiosa na percepção dos participantes. Alguns inicialmente desconfiaram dele e imaginaram que seria apenas mais um homem tentando abordar Cléo. Essa impressão se transforma conforme a conversa avança. Antoine não parece interessado em impor uma identidade a ela. Ele escuta, pergunta e procura compreendê-la. O debate encontrou então o elemento fundamental que aproxima os dois: ambos estão diante da possibilidade da morte. Cléo teme o câncer; Antoine está prestes a retornar para a guerra da Argélia. Essa vulnerabilidade compartilhada elimina muitas das máscaras presentes nas relações anteriores de Cléo e permite um encontro mais franco entre duas pessoas.

Por isso, o diagnóstico médico no final foi considerado quase secundário em relação à transformação que já havia ocorrido. Um participante chamou atenção para o contraste: o filme inteiro se organiza em torno da espera pelo diagnóstico, mas o médico aparece e resolve a questão em poucos segundos. Outro observou que, depois de receber a confirmação da doença, Cléo chega a dizer que se sente estranhamente feliz. Surgiu então uma leitura importante: a verdade se torna menos assustadora do que a dúvida. O câncer continua existindo, mas o imaginário da morte que havia dominado Cléo durante toda a tarde perde parte de seu poder.

Quando o grupo foi provocado a responder o que Cléo realmente descobriu durante aquelas horas, houve uma resposta recorrente: ela descobriu a si mesma. A espera pelo diagnóstico transforma-se, assim, em uma experiência de percepção. Cléo começa tentando descobrir seu futuro através das cartas e termina sem possuir qualquer controle sobre esse futuro. O que muda não é o destino, mas sua relação consigo mesma, com as outras pessoas e com o mundo.

Na parte final do debate, a conversa se ampliou para a Nouvelle Vague. Alguns participantes estavam tendo seu primeiro contato consciente com o movimento e disseram que o filme despertou vontade de conhecer outras obras. Entre aqueles que já possuíam maior repertório, predominou a avaliação de que a Nouvelle Vague envelheceu bem. Foram destacados o cinema realizado nas ruas, a liberdade da montagem, o caráter autoral, a ruptura com convenções e a influência exercida sobre gerações posteriores. Também ganhou destaque a importância particular de Agnès Varda como mulher dentro de um ambiente cinematográfico majoritariamente masculino e a perspectiva feminina que seu cinema preservou da Paris daquele período.

O debate terminou, portanto, encontrando em Cléo das 5 às 7 algo maior do que a história de uma mulher esperando um diagnóstico. O grupo enxergou uma obra sobre identidade, aparência, medo, tempo, morte, autonomia e descoberta de si. Mais de seis décadas depois, seus recursos formais ainda pareceram vivos para os participantes, e a experiência de Cléo continuou capaz de produzir identificação e novas leituras.

Talvez a melhor síntese esteja justamente no percurso entre o primeiro e o último momento do filme. Cléo começa tentando descobrir nas cartas o que acontecerá com sua vida. Termina sem controlar o futuro, mas muito mais capaz de viver o presente.

NOTA MÉDIA DO CLUBE: 9,2/10

Esta síntese foi elaborada a partir das reflexões desenvolvidas pelos participantes do Clube de Cinema da Filmoteca durante o debate sobre O Segredo dos Seus Olhos (1991), realizado em 02 de agosto de 2026. As contribuições foram organizadas editorialmente para preservar os principais temas, argumentos e diferentes perspectivas apresentados na discussão.

Análise do filme no CRÍTICA LIVRE DE CINEMA

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