Debate realizado pelo Clube de Cinema Seu Manolo
O debate sobre Cléo das 5 às 7, de Agnès Varda,
começou com uma recepção bastante positiva. Os participantes destacaram a
fluidez do filme, a beleza das imagens de Paris, os diálogos, as atuações e a
trilha sonora. A abertura com a leitura do tarô chamou especialmente a atenção
por introduzir imediatamente a angústia que acompanhará Cléo durante toda a
narrativa. Também foi lembrada a passagem das imagens coloridas das cartas para
o preto e branco do restante do filme, assim como a divisão em capítulos
marcados pelas horas. Apesar da ameaça da doença, o grupo percebeu uma
combinação particular de melancolia e leveza, produzida pelas pessoas,
encontros e acontecimentos que atravessam aquela tarde.
A frase “Enquanto eu for bonita, estou mais viva do que
os outros” tornou-se uma das chaves do debate. Para o grupo, ela sintetiza
a relação de Cléo com a própria imagem e também abriu uma discussão sobre as
expectativas sociais depositadas sobre as mulheres. Foi observado que, na
primeira metade do filme, Cléo parece existir intensamente através do olhar
alheio: é admirada por sua beleza, desejada pelo amante, observada pelos homens
e tratada pelos músicos também a partir de sua condição de cantora. Sua
aparência funciona quase como uma garantia de existência.
Os espelhos foram identificados como um dos recursos
mais importantes utilizados por Varda para expressar essa condição. No início,
Cléo constantemente procura seu reflexo. Conforme sua transformação avança,
essa necessidade diminui. Surgiu no debate uma formulação que sintetizou muito
bem essa leitura: ao deixar de procurar continuamente sua imagem, Cléo parece “parar
de se assistir viver e passar a simplesmente viver”. A mudança externa,
marcada também pela troca de roupa e pelo abandono de alguns elementos de sua
aparência, foi entendida como sinal visível de uma transformação interior.
A interpretação de “Sans Toi” apareceu como possível
momento de ruptura. O grupo destacou tanto a atuação de Corinne Marchand quanto
a maneira como Varda filma a sequência. Durante a canção, Cléo parece
confrontar diretamente o abandono, a solidão e a morte que teme. Quando a
música termina, alguma coisa se rompe. A personagem deixa o ambiente em que
estava cercada por pessoas que determinavam grande parte de sua rotina e parte
sozinha para as ruas. A partir daí, sua relação com o mundo começa a mudar.
Essa mudança levou a outro ponto central do debate: Cléo
começa o filme querendo ser olhada e termina aprendendo a olhar. Quando
passa a caminhar sozinha, observa pessoas, conversas, cafés, ruas e
acontecimentos que existem independentemente dela. A ansiedade não desaparece
imediatamente, mas deixa de ocupar todo o espaço. A personagem que inicialmente
parecia fechada dentro da própria angústia começa a perceber que existe um
mundo acontecendo ao seu redor.
A construção do tempo foi outro aspecto bastante
discutido. Os capítulos identificados pelos horários fizeram vários
participantes sentirem que acompanhavam Cléo quase em tempo real. Surgiu uma
comparação particularmente significativa: quando esperamos alguma coisa
importante, olhamos repetidamente para o relógio para descobrir quanto tempo
ainda falta. Varda transforma essa sensação cotidiana em estrutura narrativa.
Curiosamente, apesar dessa atenção constante às horas, vários participantes
disseram que o filme passou rapidamente. A espera de Cléo não foi percebida
simplesmente como lentidão, mas como experiência compartilhada entre personagem
e espectador.
Também houve grande concordância sobre o papel de Paris.
Para o grupo, a cidade ultrapassa a condição de cenário e funciona quase como
outro personagem. Cléo circula por uma Paris que não interrompe sua rotina
diante do drama particular que ela está vivendo. Pessoas passam, trabalham,
conversam e olham para ela. Foi destacada a presença concreta das ruas e até de
pessoas olhando diretamente para a câmera, aproximando ficção e realidade. A
cidade também acompanha a mudança da protagonista: quanto menos Cléo permanece
fechada em si mesma, mais Paris parece ganhar vida diante dela.
O encontro com Antoine provocou uma mudança curiosa
na percepção dos participantes. Alguns inicialmente desconfiaram dele e
imaginaram que seria apenas mais um homem tentando abordar Cléo. Essa impressão
se transforma conforme a conversa avança. Antoine não parece interessado em
impor uma identidade a ela. Ele escuta, pergunta e procura compreendê-la. O
debate encontrou então o elemento fundamental que aproxima os dois: ambos
estão diante da possibilidade da morte. Cléo teme o câncer; Antoine está
prestes a retornar para a guerra da Argélia. Essa vulnerabilidade compartilhada
elimina muitas das máscaras presentes nas relações anteriores de Cléo e permite
um encontro mais franco entre duas pessoas.
Por isso, o diagnóstico médico no final foi considerado
quase secundário em relação à transformação que já havia ocorrido. Um
participante chamou atenção para o contraste: o filme inteiro se organiza em
torno da espera pelo diagnóstico, mas o médico aparece e resolve a questão em
poucos segundos. Outro observou que, depois de receber a confirmação da doença,
Cléo chega a dizer que se sente estranhamente feliz. Surgiu então uma leitura
importante: a verdade se torna menos assustadora do que a dúvida. O
câncer continua existindo, mas o imaginário da morte que havia dominado Cléo
durante toda a tarde perde parte de seu poder.
Quando o grupo foi provocado a responder o que Cléo
realmente descobriu durante aquelas horas, houve uma resposta recorrente: ela
descobriu a si mesma. A espera pelo diagnóstico transforma-se, assim, em
uma experiência de percepção. Cléo começa tentando descobrir seu futuro através
das cartas e termina sem possuir qualquer controle sobre esse futuro. O que
muda não é o destino, mas sua relação consigo mesma, com as outras pessoas e
com o mundo.
Na parte final do debate, a conversa se ampliou para a Nouvelle
Vague. Alguns participantes estavam tendo seu primeiro contato consciente
com o movimento e disseram que o filme despertou vontade de conhecer outras
obras. Entre aqueles que já possuíam maior repertório, predominou a avaliação
de que a Nouvelle Vague envelheceu bem. Foram destacados o cinema realizado nas
ruas, a liberdade da montagem, o caráter autoral, a ruptura com convenções e a
influência exercida sobre gerações posteriores. Também ganhou destaque a
importância particular de Agnès Varda como mulher dentro de um ambiente
cinematográfico majoritariamente masculino e a perspectiva feminina que seu
cinema preservou da Paris daquele período.
O debate terminou, portanto, encontrando em Cléo das 5 às
7 algo maior do que a história de uma mulher esperando um diagnóstico. O
grupo enxergou uma obra sobre identidade, aparência, medo, tempo, morte,
autonomia e descoberta de si. Mais de seis décadas depois, seus recursos
formais ainda pareceram vivos para os participantes, e a experiência de Cléo
continuou capaz de produzir identificação e novas leituras.
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